A lógica continuará sendo “evitar a eleição daquele que considero o pior”. Dessa forma, esta eleição se transformou em um ato de ódio ou de fé, dificilmente de escolha. Marize Schonz para a Crusoé:
A
decisão de “votar no menos pior” tem sido uma das ações mais comuns dos
eleitores em sistemas democráticos. Mesmo no multipartidarismo
brasileiro, o incentivo é mais pela rejeição e menos pela escolha por
uma agenda disponível. O eleitor órfão de uma Terceira Via, apesar de
acusado de se isentar, na realidade já começou a se posicionar, na
disputa polarizada para o cargo de presidente da República.
Aquele
que ainda conserva algum resquício de antipetismo da época do
impeachment está inclinado a escolher Jair Bolsonaro. Para esse grupo, o
ressentimento petista com a Lava-Jato é um indício de ruptura
institucional e de mais instabilidade política. O eleitor preocupado com
as questões econômicas está levando em consideração que o contexto
desde a crise de 2008 reforçou o intervencionismo econômico no mundo
todo e, dessa forma, Lula, que anda falando abertamente em imprimir
dinheiro, não teria motivo algum para adotar, no contexto atual, uma
postura ortodoxa na economia, como fez em 2002. As notícias sobre os
governos de esquerda na América Latina, como aquelas sobre a
hiperinflação na Argentina, também reforçam essa rejeição.
Contribui
para esse sentimento contra o PT o fato de o partido se orientar pelos
mesmos códigos em suas campanhas. Um deles é destruir a imagem de quem
aparece no caminho de seu projeto hegemônico. A estratégia foi usada
para enfraquecer a reputação tanto do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso quanto da ex-candidata Marina Silva. O outro recurso petista em
campanhas é o dar contornos apocalípticos para a eleição. Seus
militantes têm se referido à disputa não como um instrumento constante e
estável da democracia, que permite a transição de diferentes líderes no
poder, e sim como uma questão de vida ou morte.
Quanto
a Bolsonaro, sua rejeição parece, em determinados momentos, mais alta
do que a repulsão ao petismo. A princípio, existe um teto de vidro
natural de quem está na situação, o que facilita o reconhecimento dos
erros do governo vigente, pois esses são mais recentes. Entretanto, em
relação ao mandato de Bolsonaro, a questão não será apenas lidar com o
desgaste natural da imagem de quem está na linha de frente, mas também
com os aspectos turbulentos do combate à pandemia, dos conflitos com o
Judiciário e do antagonismo com a mídia tradicional.
Tanto
o presidente quanto a sua militância parecem apostar na estratégia de
alimentar a luta cultural, mesmo que as ações não estejam sempre
apontadas para essa realidade (tendo em vista a recente aproximação com o
Centrão). Essa estratégia tem tido resultados, mas também traz riscos. É
inegável que Bolsonaro nos últimos quatro anos tem tirado proveito das
controvérsias em torno do seu nome, apostando em manter uma péssima
relação com a grande mídia. Mas, querendo ou não, essa mídia ainda tem
algum poder para conduzir a opinião pública e, principalmente, o eleitor
mediano.
Como
sabemos, eleitores têm memória curta, e será mais fácil lembrar da
atuação rebelde de Bolsonaro durante a pandemia de Covid, do que
recordar os erros dos governos petistas responsáveis por uma crise
econômica e política que ainda não está superada. Os concorrentes vão,
com absoluta certeza, bater incansavelmente nesses pontos. Teremos então
um duelo entre aqueles que querem relembrar os erros dos governos
petistas e os que evocam os equívocos do bolsonarismo.
Mais
uma vez, a dinâmica da polarização inviabiliza qualquer terceira opção,
pois a terceira força política terá que se dividir em criticar Lula e
Bolsonaro ao mesmo tempo, correndo o risco de, ao fazer isso, beneficiar
ambos na escalada do processo eleitoral. A lógica continuará sendo
“evitar a eleição daquele que considero o pior”. Dessa forma, esta
eleição se transformou em um ato de ódio ou de fé, dificilmente de
escolha.
Marize Schons é socióloga, professora no Ibmec de Belo Horizonte e na Mises Academy.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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