Autointitulado
paranormal que conversava com o ET Bilu, o tal Urandir agora é dono de
uma empresa chamada Dakila Pesquisas, notória por discursos antivacina e
por um “documentário” em que sustenta que a Terra não é esférica e a
gravidade não existe. Via Crusoé, a crônica de Ruy Goiaba:
Esta
é mais uma daquelas ocasiões em que a coluna se faz praticamente
sozinha: pensei em escrever uma coisa bem jeca do tipo “minhas férias em
Noviorque” (para a sorte dos meus amigos, não cumpri a promessa de
enviar diretamente de NY áudios imitando o Paulo Francis), mas eis que
outro valor mais alto se alevanta. Refiro-me, é claro, ao longo fio que
Mario Frias, ex-galã de Malhação e ex-secretário de Cultura do governo
Bolsonaro — essa contradição em termos —, postou no Twitter sobre a
“cidade perdida de Ratanabá”.
Na
última terça, 14, Frias publicou fotos de um encontro em seu gabinete,
em 2020, com Urandir de Oliveira, o garoto-propaganda de Ratanabá; mais
sobre esse senhor no parágrafo abaixo. Muito impressionado com a
história toda (“podemos estar diante da maior descoberta dos últimos
tempos!”), ele explicou aos distintos leitores de seu perfil que a tal
cidade, supostamente localizada na Amazônia, era a “capital do mundo há
450 milhões de anos” — ou seja, numa época em que os primeiros
vertebrados estavam começando a surgir na Terra e a América do Sul como é
hoje nem existia, quanto mais a Amazônia. Frias lamentou, ainda, não
ter ido visitar o local onde estariam as tais “evidências” da “cidade
perdida” (haja aspas!) enquanto ainda estava na Secretaria de Cultura. É
uma pena que não tenha transferido o seu gabinete para a mística
Rabanada.
E
agora o currículo do tal Urandir, que um policial das antigas chamaria
de capivara: autointitulado paranormal que conversava com o ET Bilu, ele
agora é dono de uma empresa chamada Dakila Pesquisas, notória por
discursos antivacina e por um “documentário” em que sustenta que a Terra
não é esférica e a gravidade não existe. Ratanabá é só mais um capítulo
dessa grande obra, que mereceria umas 30 estrelas no Michelin se o guia
avaliasse empreendimentos 171 em vez de restaurantes. É um padrão nesse
governo: em 2021, justamente na edição 171 desta Crusoé, escrevi sobre aquele escrete de picaretas
que foi alegadamente vender vacina no Ministério da Saúde na mesma
época em que o governo ignorava as ofertas da Pfizer. Bois pretos
reconhecem uns aos outros.
E
por que Mario Frias resolveu, justamente nesta semana, impulsionar uma
“teoria da conspiração” amazônica dois anos depois de seu encontro com o
amigão do ET Bilu? Uma hipótese razoável é que — sabendo que a história
viraria piada e viralizaria nas redes — as mentes brilhantes do governo
tenham tentado bagunçar o algoritmo com um assunto ligado à Amazônia
que não fosse o bárbaro assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira,
confirmado pela PF na quarta, 15. O bolsonarismo é de fato campeão em
manobras diversionistas: duas semanas atrás, citei aqui a palpitante polêmica sobre a Barbie trans,
já enterrada pelos acontecimentos recentes. Mas eu acredito
sinceramente na exuberante burrice dos envolvidos: no próprio Twitter, o
ex-secretário de Cultura já se mostrou incapaz de acertar o nome do
técnico da seleção, que tem apenas quatro letras (T-i-t-e). É um time
repleto de craques que chutam com as quatro.
De
todo modo, eu adoraria que o exílio na cidade perdida de Rabanada fosse
uma opção real. Seria a minha Pasárgada: “Em Rabanada tem tudo, é outra
civilização”. Na inexistência dessa possibilidade, continuarei seguindo
o conselho de William Blake e trilhando o caminho do excesso, que
segundo ele leva ao palácio da sabedoria. Sempre achei “palácio da
sabedoria” um modo muito poético de se referir à cadeia, à rehab ou ao
consultório do endocrinologista.
*****
A GOIABICE DA SEMANA
A
gente sempre desconfiou de que Jair Bolsonaro e seus seguidores
fervorosos fossem seres anaeróbios. Fiquei feliz em ouvir a confirmação
do próprio presidente, que, em discurso numa igreja de Orlando, afirmou
que “podemos até viver sem oxigênio, jamais sem liberdade”. Topo até
ficar uns 30 minutos sem liberdade se Bolsonaro concordar em passar a
mesma meia hora sem oxigênio.

Bolsonaro, que calado é um poeta, fala a seus apoiadores em Orlando, EUA
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