Um dos pontos de inflexão na taxa de homicídios nos Estados Unidos parece ter acontecido logo depois da morte de George Floyd durante uma abordagem policial desastrada. Gabriel de Arruda Castro para a Oeste:
Eram
23h54 de um sábado, 4 de setembro de 2021, e o jovem João Pedro Elisei
Marchezani, de 23 anos, estava no banco de trás de um Hyundai Sonata, ao
lado da namorada. Ambos pegavam carona com um casal de amigos. De
repente, João Pedro foi surpreendido por um homem que desceu de uma
motocicleta e atirou em sua direção oito vezes. Um disparo atingiu a
cabeça do rapaz. Seria mais uma vítima do crime no Brasil, não fosse por
um detalhe: o brasileiro João Pedro estava em Chicago, a mais de 8 mil
quilômetros de distância da terra natal.
João
Pedro sobreviveu e agora tenta superar as graves sequelas do crime.
Quatro meses depois, a polícia ainda não conseguiu prender o responsável
pela tentativa de assassinato — nem entender completamente a motivação
do ataque. A suspeita é que o autor dos disparos seja membro de uma
gangue.
O episódio está longe de ser uma exceção
Estatisticamente,
os moradores de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Cuiabá,
Campo Grande e Belém estão mais seguros do que os de Chicago,
Filadélfia, Atlanta, Washington e Detroit. Pelo menos quando o critério é
a taxa de homicídios, algumas das maiores cidades dos Estados Unidos
têm hoje uma situação muito pior do que as de muitas metrópoles
brasileiras.
Embora
diversas cidades americanas já viessem sendo afetadas por um
crescimento da violência, de 2020 para cá houve um aumento agudo e
generalizado. Foi o maior salto no índice de homicídios em quase 60
anos, segundo o FBI.
Um crescimento de 29%, na comparação com 2019. Ao que tudo indica, 2021
foi ainda pior. Nos últimos três anos, o aumento foi de 28% em Chicago,
52% em Nova Iorque, 52% em Los Angeles, 58% na Filadélfia, 64% em
Atlanta e 71% em Houston. Em Mineápolis, o total de pessoas assassinadas dobrou em apenas dois anos.
Em
comum, as cidades da lista têm um governo comandado por membros do
Partido Democrata, que recentemente adotou uma agenda hostil à polícia e
abandonou métodos que, nas décadas anteriores, se haviam demonstrado
eficazes no combate ao crime. Nos Estados Unidos, as polícias são
comandadas pelo governo local (cidade e condado), ao contrário do
Brasil, onde o governo estadual é o responsável. Com isso, mesmo em
Estados mais conservadores, as grandes cidades por vezes adotam
políticas chamadas de progressistas no campo da segurança pública. A
“tolerância zero”, por exemplo, ficou no passado — superada por
abordagens que priorizam a “justiça social” e o combate ao “racismo
estrutural”.
A pressão da esquerda prejudicou a polícia
Um
dos pontos de inflexão na taxa de homicídios nos Estados Unidos parece
ter acontecido logo após um episódio trágico. Em 2020, depois da morte
de George Floyd durante uma abordagem policial desastrada na cidade
americana de Mineápolis, formou-se uma onda de protestos no país —
comandados por organizações como o Black Lives Matter, um grupo radical
de esquerda. Dentre as pautas, estava a redução do orçamento das
polícias e a adoção de novas regras para evitar o que, na visão deles,
era uma política discriminatória contra os negros. Na maior parte das
cidades, eles foram bem-sucedidos em suas reivindicações. Pressionadas,
prefeituras e assembleias locais cederam: reduziram os fundos para a
polícia (para aplicá-lo em “serviços sociais”) e aprovaram normas que
incluem treinamentos sobre minorias étnicas e reduzem o poder do
policial de abordar pessoas suspeitas sem um mandado. Em algumas
cidades, como Denver, a polícia passou a ser impedida de atuar em escolas públicas.
A primeira da lista a cortar significativamente o orçamento da polícia foi Mineápolis. Também foi a primeira a recuar.
Meses depois de eliminar US$ 8 milhões do valor previsto para a polícia
local, o Conselho Municipal (equivalente à Câmara de Vereadores)
decidiu enviar US$ 6,4 milhões para financiar a corporação. Em Nova
Iorque, algo parecido aconteceu.
Ainda assim, o recuo foi apenas parcial. As políticas progressistas continuam em vigor. E os resultados são evidentes.
Na
avaliação de George Felipe Dantas, consultor em segurança e doutor pela
Universidade George Washington, na capital americana, a pandemia se
juntou a outros fatores para trazer uma “tempestade perfeita”. Mas as
políticas públicas são uma parte importante da equação. “Sem nenhuma
ideologia influenciando minha fala, os republicanos são conhecidos pelo
endurecimento em questões de lei e ordem, e os democratas, muito
sensíveis a esses grupos minoritários que têm uma voz desproporcional na
política americana”, diz Dantas.
Coincidência
ou não, uma das poucas cidades a ter um bom resultado em 2021 é
comandada por um republicano. Administrada por Francis Suarez, que
resistiu à pressão de movimentos à esquerda, Miami contabilizou uma
redução de 15% no número de homicídios, em comparação com 2021, apesar
de ter registrado alta no ano anterior.
Para
Dantas, entretanto, a variação nos números pede cautela, já que é muito
recente. “A gente precisa ver, no longo prazo, se esse não é um
fenômeno sazonal ou algo temporário”, afirmou.
Combinação de fatores
Michael
Parker, consultor de segurança e ex-comandante na Polícia de Los
Angeles, explicou a Oeste que o salto na criminalidade desde 2020 se
deve a uma conjunção de fatores. Com a pandemia, muitas cidades passaram
a prender menos criminosos. Usando a justificativa de que as prisões
não podiam abrigar mais presos devido aos protocolos sanitários, o
equivalente local do Ministério Público passou a adotar posturas mais
lenientes e parou de encarcerar alguns tipos de criminosos. Além disso,
sob o mesmo pretexto, algumas das grandes cidades libertaram presos
considerados de menor periculosidade antes do cumprimento da pena. Em Nova Iorque, 1.500 detentos (um em cada quatro) ganharam as ruas.
O
aumento na criminalidade também tem causas mais profundas. Um número
cada vez maior de pessoas (ao menos nas regiões ditas “progressistas”)
parece acreditar que não prender criminosos é melhor do que alimentar um
sistema que eles veem como discriminatório contra negros. Um exemplo é o
que aconteceu na Califórnia. Em 2014, a população local aprovou, em
referendo, uma regra que tornou muito mais brandas as penas para furto.
Quem é pego levando até US$ 950 em produtos é conduzido à delegacia e
precisa assinar um termo de responsabilização, mas não vai para a cadeia
— independentemente de quantas vezes cometer o mesmo crime. “Alguns
grupos de 20 ou 30 pessoas que vão juntos a uma loja, todo mundo furta o
que consegue e vai embora, porque eles sabem que, se o valor ficar
abaixo de US$ 950, é apenas uma contravenção”, diz Parker.
Vídeos com cenas do tipo existem aos montes nas redes sociais.
As
restrições crescentes desmotivaram os próprios policiais, e um número
cada vez maior deles tem decidido deixar a função para atuar na
iniciativa privada. Para piorar, a obrigatoriedade da vacina aumentou a
crise. Em Chicago, até que um juiz suspendesse a regra, cerca de um
terço dos policiais havia se recusado a cumprir a exigência. Outros
simplesmente se demitiram.
Tolerância zero
Lá
se vão 28 anos desde que a prefeitura de Nova Iorque, então sob o
comando do republicano Rudolph Giuliani, implementou um bem-sucedido
programa de combate ao crime, que se tornou exemplo internacional.
Baseado no princípio da “tolerância zero”, o modelo se baseava em um
preceito simples: a tolerância com pequenos crimes aumenta a ocorrência
de crimes graves. A partir de 1994, a taxa de homicídios da cidade caiu
80% em uma década.
Mas,
conforme a militância mais radical à esquerda ganhava espaço, alguns
dos pressupostos básicos foram contestados — e até mesmo derrubados por
decisões judiciais. A política de stop and frisk (revistar pessoas que
os policiais acreditavam estar em atitude suspeita) foi seriamente
limitada. Agora, é preciso ter um indício palpável de que aquela pessoa
está infringindo a lei. A pregação contra o “encarceramento em massa”
também se tornou mais popular, e o rigor no combate a crimes
considerados menores (como a pichação e o porte de drogas) também se
desfez. “Os criminosos, os membros de gangues acham que tudo isso é uma
grande piada”, diz Michael Parker. “Eles interpretam isso como uma
autorização para cometer quantos crimes quiserem.” Talvez soe familiar
ao leitor brasileiro.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
Nenhum comentário:
Postar um comentário