Para o professor e ensaísta Fernando Schüler, as retóricas eleitorais ‘aplainam” a complexidade do mundo político e econômico e, no fim, uma delas se torna hegemônica e ganha o pleito. Entrevista a José Fucs, do Estadão (o blogueiro relembra: onde há conflito entre ficção e realidade, fatos e valores, estamos no pântano ideológico - e daí não sai coisa boa):
O
cientista político e comentarista Fernando Schüler, também professor do
Insper, uma escola de negócios de São Paulo, é um dos raros acadêmicos
da área no País que procura analisar o cenário político de um ponto de
vista independente.
Nesta
entrevista ao Estadão, Schüler diz que é uma “ilusão” imaginar que as
grandes questões nacionais vão pautar a campanha eleitoral neste ano.
Segundo ele, a contradição existente entre a complexidade das políticas
públicas e o déficit de informação dos cidadãos comuns se manifesta de
forma acentuada nas eleições, levando os candidatos a simplificar os
discursos, para atingir a massa do eleitorado. “No momento das eleições,
toda a complexidade do mundo político é aplainada e substituída por
grandes narrativas que competem entre si”, afirma. “No fim, uma delas
termina sendo hegemônica e ganha as eleições.”
De
acordo com Schüler, os candidatos da terceira via têm de encontrar uma
narrativa que fale aos corações e mentes da maioria dos eleitores e
consiga se contrapor aos enredos adotados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, centrado na ideia de que “nós já fomos mais felizes no passado”, e pelo presidente Jair Bolsonaro, focado em argumentos como “não me deixaram governar” e “eu sou a chance de a agenda conservadora ter algum avanço”.
Na avaliação de Schüler, as narrativas do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro – que tem como um dos pilares a necessidade de o Brasil retomar o combate à corrupção – e do governador de São Paulo, João Doria –
que se concentra na agenda “gerencialista”, de modernização do Estado,
também encampada, em boa medida, por Moro – não têm apelo popular para
levar um dos dois ao segundo turno. “A agenda ‘gerencialista’ é forte no
mundo empresarial, no mercado financeiro, entre os economistas e em uma
certa elite intelectual, mas tem um alcance menor na sociedade”, diz.
“Hoje, a luta contra a corrupção não é a grande pauta brasileira.”
Além de ter de enfrentar a pandemia, o Brasil vive hoje um quadro complicado tanto na economia quanto na política. Neste cenário, como o sr. vê eleições de 2022?
Acredito
que a grande pergunta neste início de ano é qual será a pauta que vai,
de alguma maneira, presidir as eleições. Em 2018, havia problemas
estruturais e econômicos tanto quanto nós temos hoje. Acho, inclusive,
que desatamos alguns nós, embora tenhamos criado outros. Fizemos um
pedaço da tarefa de casa com a reforma da Previdência. Houve um processo
de austeridade e hoje temos o menor número de funcionários federais na
ativa, desde 2011. Mas obviamente deixamos muita coisa pra trás. O
governo abdicou desde o início de promover uma reforma do Estado, as
reformas administrativa e tributária não andaram. Não apenas pela falta
de convicção do governo, mas também em razão da pandemia e da
procrastinação do Congresso. Não dá para fazer uma análise simplista
disso. Em 2021, mesmo com a gambiarra produzida com a PEC (Proposta de
Emenda à Constituição) dos Precatórios, a expansão de gastos aprovada no
fim do ano, para custear o Auxílio Brasil e outros projetos de
interesse do governo, chegamos a um resultado das contas públicas muito
melhor do que apontavam as projeções de mercado.
Que nós o sr. diz que foram criados nos últimos anos e que não existiam em 2018?
Hoje, temos uma inflação mais
alta e em 2018 tínhamos um processo descendente de inflação. Estávamos
num processo de redução da taxa de juro e agora estamos num processo de
aumento. Estávamos num processo de reequilíbrio fiscal e hoje temos uma
enorme interrogação sobre a política fiscal, apesar do bom resultado
alcançado no ano passado. Em 2018, o teto de gastos havia sido aprovado
há dois anos, e demandava um conjunto de reformas para lhe dar
sustentação. O País vinha de um ciclo de crescimento baixo e as reformas
haviam sido paralisadas no fim do governo Temer. Ainda assim, a pauta
econômica não foi o tema central na campanha eleitoral. O que a gente
discutiu? Guerra cultural, kit gay, redução da maioridade penal, escola
sem partido, um certo discurso moralista. Mesmo no terreno da corrupção,
não discutimos nada muito objetivo, projetos concretos para enfrentar a
questão, mas apenas as grandes bandeiras, que tem um certo simbolismo e
são mais fáceis de entender, como prisão em segunda instância, o
balanço da Lava Jato ou
se alguém era a favor ou contra o foro privilegiado. E, por aí,
ficamos. Essas questões estão muito longe de ser as mais importantes,
mas surgem na epiderme da política e pautam o debate público.
Como, afinal, esse quadro que o sr. descreveu deve afetar as eleições deste ano?
É
muito difícil saber qual será a pauta da campanha. No momento das
eleições, toda a complexidade do mundo político é, de certa forma,
aplainada e substituída por grandes narrativas que competem entre si. No
fim, uma delas termina sendo hegemônica e ganha as eleições. É uma
ilusão imaginar que haja uma conexão entre o que se passa nas eleições e
a pauta que mobiliza uma certa camada afluente na sociedade, nos
terrenos da economia, do jornalismo, das políticas públicas ou no meio
empresarial. Embora o País precise de uma reforma administrativa, isso
não será pauta da campanha. Isso vale para a reforma tributária e para a
discussão sobre o que fazer com a educação pública. As eleições
trituram a complexidade que é própria das políticas públicas. Há uma
contradição, que faz parte da natureza da democracia, entre a
complexidade dos temas envolvidos nas escolhas públicas e o permanente
déficit de informação das pessoas. Muita gente imaginou que a abundância
de informação oferecida pela internet poderia resolver isso, mas não
resolveu.
É interessante que o sr. fala em déficit de informação por parte das pessoas e de abundância de informação ao mesmo tempo.
Esse
é o paradoxo. Com a revolução tecnológica, há uma enorme massa de
informação disponível, um overload de informações, que se apresentam de
maneira caótica. Mas as pessoas têm pouco incentivo para buscar
informação relevante, separar o joio o trigo, verificar o que é
verdadeiro e o que é fake, e agir com responsabilidade. Não é à toa que o
grande tema contemporâneo são as fake news,
porque você não consegue distinguir exatamente o que é verdadeiro e o
que é falso. Em muitos sentidos, o mundo em que vivemos confirma a
profecia de Jean Bauldrillard (1929-2007), o filósofo da
hiper-realidade, de que é cada vez mais difícil distinguir com clareza
entre a ficção e a ealidade. É como se o mundo virtual colonizasse o
mundo real. Esse fenômeno é amplificado pelo ingresso de milhões de
pessoas no ativismo político, pela via digital. Os indivíduos adquiriram
poder, mas tiveram nenhum incentivo a mais para agir com
responsabilidade no mundo político.
O sr. poderia dar um exemplo concreto para ilustrar o que está falando?
Há alguns dias, por exemplo, houve uma operação pela Polícia Federal que atingiu os irmãos Ciro e
Cid Gomes (respectivamente pré-candidato à Presidência pelo PDT e
senador pela mesma sigla), por suspeitas de irregularidades em obras do
estádio Castelão, em Fortaleza. Imediatamente, o que se viu foi uma
pequena guerra de narrativas. Opositores de Ciro aplaudiram a operação;
seus apoiadores ou potenciais aliados sugeriram que ela tinha “motivação
política”. É previsível que os agentes políticos ajam desta maneira.
Muita gente da própria mídia ou da academia, sem dispor de nenhuma
informação objetiva sobre o que efetivamente aconteceu, chancelou uma ou
outra visão sobre a natureza “política” – ou não – da operação. Escutei
gente garantindo que a operação era a “prova” de que há uma polícia
política no Brasil. Sempre a partir de um raciocínio de tipo
impressionista, no qual se supõe que um punhado de episódios dispersos,
reunidos a partir de uma certa “lógica”, sirvam como prova de alguma
coisa.
É provável que isso tenha a ver com todas as trocas que houve na Polícia Federal nos últimos tempos, influenciadas pelo presidente Jair Bolsonaro...
Uma
operação da Polícia Federal é autorizada pelo Poder Judiciário. Então,
deveríamos não apenas ter uma polícia política, mas um Judiciário
político também. Conhecendo as instituições de Estado no Brasil, acho
improvável isso acontecer. É evidente que instituições de Estado erram.
Recentemente, escrevi um texto sobre aquela operação contra o ex-reitor
da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2017, que acabou
com o suicídio dele. Para mim, aquilo foi um erro. Agora, isso não
significa que uma instituição de Estado, como a Polícia Federal, ou
qualquer outra, esteja corroída em sua estrutura, funcionando com
finalidade política, sem que ninguém – o Ministério Público ou a própria
mídia – denuncie isso com base em informações objetivas. Não estou
dizendo que isso, em tese, não esteja ocorrendo. Apenas que não temos
informações suficientes para dizer se está ou não, ainda que as pessoas
se comportem como tivessem.
O sr. poderia citar algum outro exemplo desse conflito entre a ficção e a realidade hoje?
Há
inúmeros casos nesta direção, que atingem tanto a direita quanto a
esquerda. São interpretações fantasiosas e irresponsáveis sobre
acontecimentos reais, cujo efeito prático pode ser muito mais grave do
que o de uma fake news. De certa forma, se a gente fizer um balanço do
que falaram contra o Bolsonaro no ano passado, vamos ver que muita coisa
não tinha base real. Disseram, por exemplo, que teria havido uma
tentativa de golpe na manifestação de 7 de setembro e que haveria uma
invasão do STF (Supremo
Tribunal Federal) e do Congresso. Era pura fantasia, um exercício do
que o (escritor italiano) Umberto Eco chamaria de ‘irrealidade’. Agora,
pergunta se dois, três dias depois alguém disse ‘olha, nós nos
enganamos’. É claro que não.
Agora,
voltando ao tema da pauta das eleições, alguns analistas dizem que ela
vai se concentrar nas grandes questões da economia. como o sr. analisa
isso?
Isso
é o que eu chamo de wishful thinking (pensamento positivo). As pessoas
sempre acham que é lógico que esta seja a pauta, porque cada um tem um
certo viés. Agora, uma pesquisa recente que eu analisei mostrou que, no
campo das pessoas que dão suporte ao Bolsonaro, a pauta vai ser “não nos
deixaram governar”, “não conseguimos fazer o que era preciso para
derrotar o sistema”, “a pandemia foi usada pelo sistema político para
parar a grande transformação que seria feita pelo capitão”, “ele merece
mais um mandato para terminar sua obra restauradora”. Do outro lado,
você vai ter uma grande narrativa em torno do Lula, na linha de que “já
fomos mais felizes no passado”, “com o Lula, o Brasil viveu um grande
momento, havia quase pleno emprego”, “o Brasil ocupava um lugar de
destaque no mundo, era a bola da vez”, e “só o Lula para reconstruir
tudo que foi destruído nos últimos anos”. É previsível que isso
aconteça. Os marqueteiros de campanha sabem como lidar com essas
narrativas. Então, acredito que é otimismo demais imaginar que alguma
discussão econômica séria vai pautar o grande debate eleitoral,
especialmente no caso de medidas duras que o País precise tomar. Oxalá
isso acontecesse. A campanha seria muito mais positiva.
Agora, entre os candidatos da chamada terceira via, qual deve ser a pauta, de acordo com essa pesquisa que o sr. mencionou?
Do
lado da terceira via, você tem uma narrativa do (ex-juiz e ex-ministro
da Justiça e Segurança Pública) Sergio Moro (pré-candidato pelo Podemos)
dizendo “o Brasil precisa retomar o combate à corrupção”, “a Lava Jato
foi um movimento inédito na história do Brasil, que levou à condenação
de grandes políticos e empresários, mas foi abortado, em boa medida,
pelo sistema político, e é preciso retomar o seu fôlego”. Agora, na
faixa da terceira via, haverá também uma narrativa tradicional, que eu
chamaria de “gerencialista”, típica do chamado centro liberal, cujo
principal representante é o (governador paulista) João Doria, do PSDB,
ainda que não só ele. O partido Novo também apresenta esse viés. A
narrativa “gerencialista” retoma de certo modo a lógica de que “Brasil
precisa de um choque de capitalismo”, que foi a bandeira levantada pelo
(ex-senador e ex-governador de São Paulo) Mário Covas (1930-2001), na
campanha de 1989.
O que exatamente seria essa narrativa “gerencialista” associada ao Doria e ao partido Novo?
Seu
foco são os temas de modernização do Estado e de eficiência das
políticas públicas. A equipe econômica de Doria, já na arrancada da
campanha, dá sinais claros de que suas propostas vão seguir nesta
direção, reforçando a responsabilidade fiscal e a necessidade de se
avançar no programa de reformas e de abrir a economia. É uma agenda
forte no mundo empresarial, no mercado, entre os economistas e em uma
certa elite intelectual, mas tem um alcance menor na sociedade – e tem
alguns problemas. É uma agenda que diz: “É preciso adotar medidas duras e
impopulares para o Brasil deslanchar”. Além de mexer com interesses
corporativos bem estabelecidos na sociedade, não é propriamente uma
agenda sexy e mobilizadora. O (ex-presidente Michel) Temer implementou
essa pauta, porque não tinha ambições eleitorais e podia correr o risco
de adotar medidas consideradas “impopulares”, ainda que fundamentais
para a modernização do País.
O que leva o sr. a dizer que essa agenda “gerencialista” não é “sexy” e é pouco atraente para a sociedade?
Nossa
experiência eleitoral recente, as pesquisas e a simples observação do
debate pré-eleitoral indicam isso. A agenda “gerencialista” é, sem
dúvida, a pauta necessária para o Congresso Nacional. Diria que ela é
central para a retomada da economia, dentro de visão de longo prazo para
o País, mas envolve temas complicados e notícias duras no curto prazo.
São questões difíceis de abordar numa campanha de massas. Em 2018, foi
assim. O Bryan Caplan, autor do livro The Myth of The Rational Voter (O
mito do eleitor racional), mostra que muitos dos temas da agenda
“gerencial” ou de mercado vão contra as intuições do eleitor médio. Um
dos vieses tradicionais dos eleitores é a tendência de sempre desconfiar
ou não entender bem os ganhos de médio e longo prazos da economia de
mercado. Outro é achar que a tecnologia destrói empregos. Ou que a
economia está sempre piorando. Imagine o quanto é difícil dizer numa
campanha eleitoral que “precisamos ir além na reforma trabalhista,
flexibilizando mais alguns pontos da legislação, para estimular a
competição e a produtividade, mas no longo prazo todos irão ganhar”. Ou
então “vamos abrir a economia e será ótimo que as nossas empresas
concorram com o pessoal que vem de fora”. Será que esse tipo de
discussão está na cabeça das pessoas? Eu me lembro do (ex-governador de
São Paulo) Geraldo Alckmin, do Henrique Meirelles (ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda) e do João Amoêdo (fundador
do partido Novo) tentando colocar essa discussão na pauta em 2018. Não
vingou. A pergunta é: será que neste ano vai ser diferente?
Provavelmente, não.
Agora,
quando falei que alguns analistas estão dizendo que as questões
econômicas vão pautar as eleições, estava me referindo a coisas mais
básicas, como salário mínimo, renda, desemprego, inflação, preços de
alimentos, juro alto, e não a aspectos de política econômica macro,
coisa de economista.
Considero
estas questões como sociais. Elas estão no radar das pessoas, porque a
eleição vai acontecer ainda num cenário de inflação e de juros altos,
embora eventualmente em declínio. O problema é que há um certo risco aí
de o debate enveredar pelo populismo, de um candidato dizer que isso
está acontecendo por causa desta ou daquela reforma, que precisa ser
revista, ou prometer um programa de transferência de renda ainda mais
robusto que o que temos hoje. Não digo que isso irá acontecer, mas é um
risco. O Lula, obviamente, é o candidato que tem a sua história mais
associada a esses temas e uma narrativa econômica vinculada a conceitos
como crescimento, salário mínimo, trabalhador, renda, pobreza. Isso
remonta a sua história no sindicalismo e à memória positiva de seu
governo. Ele não é um personagem da guerra cultural e fala com um País
que a esquerda hoje tem dificuldade em falar. Diria que a pauta social,
em sentido amplo, é uma espécie de chão da fábrica do Lula, tanto quanto
a agenda conservadora no plano comportamental é para o Bolsonaro. Ele
se sente bem falando de armas, do combate às políticas de gênero, da
soberania nacional, do risco das reservas indígenas, da “nossa”
Amazônia. A defesa que ele passou a fazer mais recentemente das
“liberdades” e mesmo a agenda econômica liberalizante ficam estranhas em
Bolsonaro. Soam distantes de suas convicções, além de ter um apelo
eleitoral duvidoso, como falei há pouco.
Como o sr. vê as perspectivas dessas narrativas nas eleições de 2022? Quais devem se sobressair?
Acredito
que, neste início de ano, três grandes narrativas surgem como as mais
potentes. Uma, como falamos, é a que olha para trás, que é a narrativa
do Lula, dizendo “nós precisamos retomar algo que perdemos, precisamos
de uma liderança que em algum momento entregou algo positivo para o
País”. O Lula tem 45% ou 48%, nas pesquisas, sem deixar claro o que vai
fazer no governo. Há muita gente preocupada com o teto de gastos,
horrorizada com a quebra feita pela PEC dos Precatórios, apreensiva com a
continuidade das reformas, mas não dá lá muita bola quando o Lula diz
que é contra o teto e que vai reverter a reforma trabalhista. Muita
gente faz o seguinte raciocínio: “O Lula já disse muito coisa nessa
linha, mas depois teve aquela boa gestão econômica com o (Antonio)
Palocci (ex-ministro da Fazenda), lá atrás”. O Lula é um extraordinário
estrategista e sabe lidar bem com a ambiguidade. Acena para a esquerda
na segunda-feira e na terça, para o Geraldo Alckmin. De certo modo,
entende a complexidade brasileira. Ele pode até manter seu apoio a
ditaduras latino-americanas, porque sabe que, no fundo, ninguém está
preocupado com isso. Seu governo está fortemente associado a um momento
positivo da vida brasileira, independentemente de ele ter se beneficiado
do ciclo de alta das commodities no mercado internacional. Acredito que
o Lula também venceu o jogo no tema da corrupção. As decisões do
Supremo equivalem, de modo geral, no debate público mais amplo, a um
atestado de idoneidade para ele. Não entro no mérito se a decisão foi
certa ou errada, mas é um fato. Esse cenário, evidentemente, pode mudar
com o debate eleitoral. É o que nós vamos ver nos próximos meses.
Fora a narrativa do Lula, que outras devem se destacar e ter mais alcance na campanha?
Outra
narrativa que surge com potência é a do Bolsonaro. Além de privilegiar
pontos como “não me deixaram governar” e “houve a pandemia, o sistema, o
Supremo, e eu preciso de mais uma chance”, a narrativa do Bolsonaro
deve focar no argumento clássico de qualquer candidato à reeleição:
“Quatro anos estão longe de ser o suficiente, preciso completar a minha
obra”. Obviamente, haverá a tradicional apresentação das “conquistas” do
governo, centrada na agenda de infraestrutura e de parcerias com o
setor privado, coordenada pelo ministro Tarcísio (Gomes de Freitas, da
Infraestrutura), e em alguns ganhos regulatórios, como os marcos do
saneamento e das ferrovias. É previsível também que ele se volte ao
público conservador e ao chamado “bolsonarismo identitário”, que é o
público que esteve nas ruas, nas motociatas, nos aeroportos e nas
manifestações de 7 de setembro. É a sua base de segurança, que ele
considera como sendo suficiente para ir ao segundo turno. O sinal de que
ele deve seguir esse caminho foi a indicação do André Mendonça (ex-advogado-geral
da União) para o STF, que representou um momento de reconexão do
Bolsonaro com o público conservador. Teve um simbolismo aí. A oposição
satirizou a vibração da Michelle Bolsonaro, mas isso tem um significado
para o público evangélico. A rigor, a grande entrega do Bolsonaro para o
público conservador foi o André Mendonça. Ele vai dizer “olha, fiquem
comigo, porque sou a melhor chance de vocês terem mais ministros no
Supremo”, “eu sou a chance dessa agenda conservadora ter algum avanço,
mesmo que seja pequeno”, “a gente já viu que o Congresso é difícil, que o
País é difícil, mas do outro lado tem o Lula”. O grande problema de
Bolsonaro é ir além disso. Sua rejeição, hoje, está acima dos 60%. Ele
perdeu o eleitor médio, ou grande parte dele. No momento, parece um
candidato forte para ir ao segundo turno, mas frágil para ganhar a
eleição. De novo, o debate eleitoral pode alterar isso, mas é o quadro
que está aí.
Na
economia, qual deve ser a narrativa do Bolsonaro, já que ficou claro
que ele não se identifica de fato com a agenda liberalizante defendida
pelo ministro Paulo Guedes?
Uma
questão relevante é saber se Bolsonaro irá manter ou não o Paulo Guedes
como formulador da política econômica e seu interlocutor com o mercado.
Será que, hoje, o Paulo Guedes tem condições de ser e será o avalista
do programa econômico do Bolsonaro? A minha impressão é de que o
Bolsonaro não tem alternativa. É difícil que ele disponha de um
economista da estatura do Paulo Guedes para cumprir essa missão. Agora,
se isso se confirmar, acredito que o Paulo Guedes terá de ir ao mercado e
dizer: “Olha, as nossas privatizações não deslancharam, as reformas
administrativas e tributárias não andaram, mas agora tudo isso irá
andar”. Não será um trabalho fácil, mas acho que ele vai dizer que,
apesar das dificuldades, o governo conseguiu aprovar a Lei da Liberdade
Econômica, a reforma da Previdência, a autonomia do Banco Central e o
novo marco do saneamento. Deverá ressaltar também a aceleração das PPPs
(Parcerias Público Privadas) e retomada da economia no pós-pandemia. A
esquerda dirá que tudo foi uma política neoliberal irresponsável e o
centro liberal dirá que foi uma agenda pífia, que deixou para trás
reformas importantes, que nenhuma privatização relevante foi entregue e
coisas do gênero. O governo, provavelmente, vai responder dizendo “nós
fomos atropelados pela maior pandemia dos últimos 100 anos, que perdura
até hoje”. Mas a verdade é que o próprio governo perdeu a crença na
agenda de reformas e a pauta de Paulo Guedes nunca foi, de fato, a pauta
do governo.
E, entre as narrativas da terceira via, qual deverá ser a dominante, na sua avaliação?
Uma
das incógnitas da campanha é saber se a agenda ética e moralizadora,
que põe a corrupção no centro do jogo e é herdeira da Lava Jato, está
viva o suficiente e será capaz de alterar o cenário eleitoral. Disso vai
depender muito do futuro da candidatura do Moro. Ele está fazendo um
esforço para ampliar a sua pauta, na direção do centro liberal. O
convite ao economista Affonso Celso Pastore é um sinal importante desta
estratégia. É um aceno para uma parcela do eleitorado que historicamente
seguiu o PSDB. Um dos grandes problemas da terceira via, hoje, é o fato
simples de que Lula vem ocupando boa parte de seu espaço. Vem,
literalmente, encurtando o seu terreno. O namoro com o Alckmin cumpre
esse papel. A perspectiva de uma chapa Lula-Alckmin lança a seguinte
questão para os eleitores que estão mais ao centro: “Se eu tenho a
chance de votar nesse sujeito aqui, que fez uma aliança com o PSDB
histórico, com setores reformistas representados pelo Alckmin, por que
vou apostar em um candidato que aparece com 3% ou 5% nas pesquisas, cuja
viabilidade eleitoral é remota? Então, acredito que a gente caminha
para mais uma eleição polarizada. Só que, desta vez, o Lula está sabendo
ocupar os espaços ao centro, coisa que Bolsonaro terá muita dificuldade
em fazer.
Olhando para o cenário hoje, então, o sr. não vê muita chance de o Moro ou o Doria chegar ao segundo turno?
O
Moro teve um crescimento quando lançou a candidatura, mas vem tendo
dificuldades para continuar crescendo. Não estou dizendo que ele não
possa crescer. Mas é difícil. Ele precisa de estrutura partidária, de
uma aliança política grande, de um argumento mais abrangente do que esse
de ter sido o juiz da Lava Jato. A pauta anticorrupção é insuficiente
para alavancar uma candidatura. Não é a grande pauta brasileira hoje.
Então, o Sérgio Moro vive esse dilema. Ele é um quadro preparado e sua
candidatura tem charme, apelo, história, mas a campanha presidencial
exige mais do que isso. No caso do Doria, vejo um desafio ainda maior.
Como já falamos, ele terá de encontrar uma forma de mostrar para um
eleitorado de massa, que não é o de São Paulo, que o Brasil precisa de
um gestor e de uma agenda modernizante. Seus argumentos mais forte são
“eu fiz a vacina, nós temos o Butantan" e "São Paulo cresce mais do que o
Brasil”. O problema é que isso pode parecer algo arrogante. O Doria
também quebrou pontes com o eleitorado conservador e vai precisar desse
eleitorado se quiser tirar o Bolsonaro do jogo e ir para o segundo
turno. Ele tem estrutura, discurso e coisas para mostrar. Será um
desafio e tanto.
O
sr. disse que a pauta “gerencialista” não tem apelo eleitoral, mas em
2018 o grupo que a defende acabou sendo o fiel da balança, ao apoiar o
Bolsonaro no segundo turno.
E
pode fazer a diferença de novo agora. O chamado mercado, um amplo
conjunto de forças econômicas, empresas, operadores dos mais variados
setores da economia, talvez até preferisse o Doria: Mas o pessoal diz o
seguinte: “O Doria tem mais a nossa cara, defende as nossas pautas, sem a
instabilidade e as vacilações de Bolsonaro. Só que ele tem apenas 5%
nas pesquisas”. O mercado, em geral, tem uma percepção muito pragmática
da política. Isso significa que eles vão pesar dois fatores. De um lado,
algum compromisso com as reformas; de outro, a viabilidade eleitoral.
Não é um voto ideológico. Se o Doria tivesse 15% nas pesquisas, o
candidato do mercado seria ele. Como não tem, uma parte pensa: “O
Bolsonaro tem 25% e bem ou mal tem o Paulo Guedes lá, que fez a reforma
da Previdência e deu autonomia para o Banco Central”. Outra parte tenta
imaginar um Lula moderado, com alguém como o Meireles no comando da
economia. Então, é difícil quebrar a polarização, pois ela realimenta a
“fuga do centro” e alimenta a si mesma. A gente tem de lembrar também
que o chamado centro liberal, no Congresso, votou quase sempre com o
governo, na agenda econômica. Apoiou a nova Lei das Ferrovias, a
autonomia do Banco Central, a reforma da Previdência, o marco
regulatório do saneamento e outras medidas liberalizantes. O desafio de
Moro e Doria agora é mostrar são competitivos. Ultrapassar a barreira
dos dois dígitos nas pesquisas, e a partir dai entrar no jogo de
verdade. Mas não vai ser fácil romper essa polarização. Durante vinte
anos, nós ficamos numa polarização PT/PSDB. Foi muito difícil quebrar
isso. Quem quebrou foi o Bolsonaro, porque o clima do País mudou, porque
o PSDB, assim como o PT, também cansou, por causa dos escândalos que
atingiram o Aécio Neves (ex-governador
de Minas e ex-presidente do PSDB), por “n” razões. Mas durou seis
longas eleições. Quem é mais à direita, antipetista, pode até achar o
Bolsonaro inviável. Mas, quando olha para o outro lado e vê o Lula, o
Bolsonaro volta a se tornar uma “bola de segurança”. Com o Lula,
acontece isso também, mas em escala bem menor.
Em
2018, o Bolsonaro se colocou contra a “velha política” e no governo
acabou se aliando ao Centrão. Até que ponto isso também deve afetar a
narrativa do Bolsonaro nestas eleições?
O
Bolsonaro sempre foi um integrante do sistema. Ele se apresentou como
um candidato do anti-establishment, mas foi rapidamente reabsorvido, no
plano operacional da política, mas também no plano simbólico. O ápice
disso foi o ingresso no PL, um partido do Centrão. Hoje, objetivamente
falando, quem sustenta politicamente o governo Bolsonaro é extrato mais
tradicional do sistema político brasileiro. Por aí, ele realmente perdeu
o charme. Acho que, nestas eleições, aqueles fenômenos das grandes
candidaturas alternativas, do qual o (ex-governador Wilson) Witzel (que
sofreu impeachment), no Rio de Janeiro, talvez tenha sido o exemplo mais
notório, mas houve muitos outros, como o (governador mineiro Romeu)
Zema e vários parlamentares, na Câmara dos Deputados, terão mais
dificuldade para se eleger. De alguma forma, o sistema retomou o
controle do jogo, no interesse do governo e em certa medida sob o
comando do próprio governo. No sistema político brasileiro quem comanda a
agenda política do Congresso é o governo. O presidente é o príncipe do
sistema. Esse é o nosso modelo de “presidencialismo de coalização”. O
Bolsonaro iniciou o governo contrariando essa norma e está terminando
perfeitamente ajustado a esse padrão. O governo começou sem base no
Congresso e está terminando com base. É uma base um tanto disforme, mas
ela existe, está lá. Tem sido majoritária. Seu grande operador hoje é o
(deputado) Arthur Lira presidente da Câmara. Nós voltamos a um padrão de
coalizão majoritária no Congresso, a um custo muito alto. Acho que o
maior símbolo disso são as emendas de relator, o fundão eleitoral. Mas
está lá a coalizão governamental. O governo ganhou o comando das duas
casas, especialmente a Câmara dos Deputados.
Uma
última pergunta: neste cenário que o sr. traçou aqui, que é bem
complicado, dá para enxergar uma luz no fim do túnel? O que pode surgir
de bom desse caldeirão de narrativas?
Eu
não vejo nenhuma razão para um otimismo exagerado nem para um
pessimismo exagerado. Acredito que o País fez algumas reformas
importantes nos últimos anos, deixou de fazer outras reformas
importantes, e assim vamos. Nós não somos a Nova Zelândia nos anos 1980.
Não somos um país que está dando um salto, como a Coréia do Sul deu.
Somos um país em que é difícil fazer reformas. Mas estamos muito longe
também de ser uma Venezuela. Estamos mais próximos do grupo que tem o
Peru, o México, a Colômbia e o Chile, que são países que, em maior ou
menor escala, têm uma política fiscal relativamente arrumada, banco
central independente, programas de natureza social relativamente
robustos. Na minha visão, o Brasil soube dar conta da tarefa
democrática, fez um pacto nos anos 1980, fez uma Constituição, vai para a
sua nona eleição, com todos os problemas que a gente conhece. Nenhuma
democracia é perfeita, muito menos a nossa, que é jovem. Mas, de alguma
maneira, nós soubemos lidar com a tarefa democrática nesses 35 anos. Só
que, em relação à modernização do País, acho que não. Esse é o grande
desafio brasileiro, a chamada tarefa de modernização. O Brasil é um país
que fracassou socialmente. Nós ainda temos 13% da população vivendo
abaixo da linha de extrema pobreza. Nós temos uma das piores educações
públicas dos países medidos pelo Pisa, que é um teste da OCDE
(Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com alunos
de 15 anos.
A que o sr. atribui essa dificuldade toda para o País avançar?
O
(economista) Marcos Mendes, meu colega no Insper, tem razão. O Brasil é
um país difícil para fazer reforma, porque tem uma classe dirigente
atrasada, um Estado grande, regulador, intervencionista, que gera
corporações fortes. Nós temos o Judiciário e o Congresso mais caros do
mundo em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). Um parlamentar no
Brasil custa 528 vezes a renda média do País. Em segundo lugar, vem a
Argentina, com 228 vezes, e a média das grandes democracias é 40. O
Brasil é esse país. Até hoje, não conseguimos botar um teto de verdade
nos vencimentos do funcionalismo público. A grande questão é se o Brasil
vai entrar num processo mais acelerado de reformas ou vai continuar
patinando. O Brasil não decidiu ainda se quer ser um país capitalista,
aberto, moderno e competitivo. Esse é o ponto. Essa decisão não foi
tomada. O Brasil patina nessa discussão. Essa deveria ser a grande
discussão das eleições.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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