A existência de um inimigo comum faz com que as pessoas coloquem de lado as diferenças e se unam contra a ameaça. O risco aqui é combater o rival e ficar como ele. Artigo do professor Adriana Gianturco para a revista Oeste:
O
historiador romano Salústio acreditava que o metus hostilis (medo do
inimigo) fomentasse a coesão social e que sua ausência gerasse
discórdias internas. Segundo ele, a vitória de Roma sobre Cartago gerou
um vácuo que levou ao seu declínio. É o two-level game de Putnam.
A
existência de um inimigo comum faz com que as pessoas coloquem de lado
as diferenças, foquem nas semelhanças e se unam contra a ameaça. Como
notoriamente falou Condoleezza Rice: “Precisamos de um inimigo comum
para nos unir”. Somos seres tribais, “o inimigo do meu inimigo é meu
amigo!”.
Estudos
psicológicos mostram que atitudes negativas contra terceiros criam uma
ligação maior que atitudes positivas (Bosson, 2006). A identidade se
cria na contraposição.
O
que uniu os nazistas foram os judeus, o que uniu os Aliados foram os
nazistas, o que uniu comunistas e socialistas foram os ricos, o que uniu
os EUA foram os comunistas e a URSS.
A
guerra das Falklands fez aumentar a popularidade de Margaret Thatcher, e
a guerra no Kosovo, a de Bill Clinton. É o efeito rally ‘round the
flag: durante uma guerra, não se troca de comandante. E, ao contrário,
depois da queda do Muro de Berlim, mais presidentes dos EUA passaram por
processos de impeachment do que nos dois séculos precedentes. Mas, com a
implosão da URSS, o escritor John Updike se pergunta: “Sem Guerra Fria,
qual sentido de ser norte-americano?”.
O historiador Rossiter já escreveu: “Nada como um inimigo para acelerar uma nação no caminho da autoidentificação”.
Mas
nem sempre. Depois do 11 de setembro, o número de norte-americanos que
colocaram a bandeira fora de casa subiu vertiginosamente para 82%, mas,
no longo prazo, a Guerra ao Terror não gerou maior coesão social, nem
tendo sido atacados em pátria. O inimigo não era um país oficial e
definido, era disperso demais. A Guerra Fria nos uniu, mas a Guerra do
Vietnã nos dividiu. Não há garantias.
Mas
a falta de um inimigo comum faz com que se olhe para dentro, e
inevitavelmente se notarão diferenças intragrupais. Essa falta foi um
dos fatores que contribuíram para as recentes divisões e a polarização
no Ocidente. A ausência de inimigos externos incentiva a encontrar
inimigos internos. A ausência de guerras (externas) permite o surgimento
de guerras civis. E já se fala de woke civil war.
A
geração dos anos 1920 teve os nazistas da Segunda Guerra Mundial, seus
filhos tiveram os comunistas na Guerra Fria e seus netos, sem inimigos
nem guerras, encontraram uma causa maior (as pessoas não aceitam a
pequenez da própria vida) na desigualdade, no racismo, no machismo e
outros problemas dos EUA. Politicamente correto, social justice
warriors, apropriação cultural, mansplaining, racismo estrutural, teoria
de gênero foram os meios usados e as bandeiras ao redor das quais se
uniram contra uma parte da sociedade norte-americana. A primeira geração
da História criada sem bullying canalizou suas frustrações nos
linchamentos virtuais e cancelamentos seriais. Há algo de catártico no
linchamento: se gera coesão social, as pessoas se sentem boas e
desafogam os próprios instintos negativos. Alguns falam de “necessidade
de ter aliados e inimigos”.
O
inimigo pode ser real ou imaginário, ou até criado intencionalmente (a
“hipótese do bode expiatório”), mas com certeza há sempre uma discussão a
respeito.
Antes
da eleição de Trump, os EUA viam como maior inimigo a Rússia de Putin.
Foi Trump a entender de onde vinha a maior ameaça e direcionar os
holofotes para Pequim. E hoje sempre mais se fala de “Segunda Guerra
Fria”, com a China. Faltam ainda as guerras periféricas. O dinamismo e o
protagonismo de Xi Jinping (veja a relação com Hong Kong, Taiwan,
Austrália e Suécia, a ação no Mar do Sul da China, etc.) também ajudaram
muito a entender quem é o verdadeiro maior rival da superpotência
norte-americana. Trump denunciou a crescente influência chinesa nas
organizações internacionais (a estratégia de deixar o PCC entrar na
governança global multilateral para que aprendesse as regras e os
hábitos das democracias liberais não funcionou, vide OMS), e a
estratégia foi abandoná-las. Mas isso deixou ainda mais espaço ao
adversário. Em lugar de isolar o rival, se autoisolou! O diagnóstico
estava certo, o remédio, errado.
Agora
Biden, com o Summit for Democracy, está tentando fazer o contrário:
unir as democracias e isolar a China. Não é tarefa fácil, até quando a
China continuar a representar uma série de incríveis oportunidades
econômicas, muitos países continuarão a escolhê-la como parceiro. China,
Japão, Coreia do Sul, Austrália e outros acabaram de assinar um novo
acordo comercial (RCEP). Ou seja, não depende só de nós.
Ao
mesmo tempo, do ponto de vista político, a China está gerando sempre
mais inimizades ao redor do mundo (Índia, Chile, Suécia, Austrália,
Japão, Coreia do Sul), exatamente como consequência dessa atitude mais
“ativa e altiva”. Afinal, seus aliados atuais parecem ser só Coreia do
Norte e Venezuela.
O
cenário mais provável é que esse Summit acabe em nada de concreto. Mas,
ao mesmo tempo, iniciativas como essa, QSD (ou Quad), Aukus, ou a
vacina da diplomacia entre EUA, Índia e Austrália, mostram, pelo menos,
uma tomada de consciência. Nos principais países, esquerda e direita
concordam. Alguns ainda não entendem, mas campos de
concentração/reeducação, trabalho escravo, censura, desigualdade,
racismo, xenofobia, machismo, direitos humanos das minorias étnicas e
religiosas, direitos das mulheres e dos gays, falta de democracia, rule
of law, privacidade são temas caros a todos, e, se focar nisso, eles
também podem convergir.
Sun
Tzu sugeriu que, “para entender o inimigo, você precisa ficar como
ele”; Nietzsche e Marco Aurélio alertam exatamente contra esse perigo.
Na
pandemia, as democracias liberais ocidentais imitaram os lockdowns do
regime totalitário chinês; os Bancos Centrais norte-americanos e
ingleses estão já estudando a hipótese de criar criptomoedas estatais,
como a Yuan Digital; Biden já sugeriu a Boris Johnson que deveriam
elaborar uma iniciativa similar à Nova Rota da Seda; o crescimento do
PIB per capita chinês fascina a opinião pública de alguns países pobres.
O risco aqui é combater o rival e ficar como ele: planejamento central
compulsório, totalitarismo high-tech e falta de liberdade, o que o
historiador escocês Niall Ferguson chama de “osmose de guerra”. Uma
vitória assim não seria uma vitória.
Adriano Gianturco é professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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