a União Europeia procura-se tornar a Europa mais independente da Rússia do ponto de vista energético, mas com consequências para a sua ambiciosa agenda verde. Inês Domingos para o Observador:
“Os mais fortes de todos os guerreiros são esses dois – Tempo e Paciência.”
Lev Tolstoi, Guerra e Paz
Esta
semana o Fórum Económico Mundial publicou o inquérito anual sobre os
riscos da próxima década. Sem surpresa, e refletindo a crescente
preocupação com temas não estritamente económicos, os riscos ecológicos
estão no topo da tabela e os riscos sociais vêm logo a seguir. Em décimo
lugar aparece o risco de confronto geoeconómico, o que sendo um lugar
de destaque ainda assim parece um pouco otimista à vista dos últimos
desenvolvimentos da crise com a Rússia.
A
Ucrânia tem sido o palco de um confronto, não só armado, mas que também
se tem jogado na economia e no digital. Na passada sexta-feira, um
ciberataque deitou abaixo várias páginas de internet do Governo
ucraniano. Estes ataques não são novidade. Já em 2017 a Ucrânia foi o
principal alvo do ataque informático NotPetya. As crises energéticas têm
sido frequentes, com quebras de eletricidade em 2015 e 2016. Mais
recentemente, desde a pandemia, a Rússia tem pressionado a Alemanha a
aprovar o gasoduto Nordstream 2, que permitirá reduzir
significativamente as suas exportações de gás através da Ucrânia.
Atualmente, segundo a International Energy Agency, a Rússia poderá estar
a reter um terço da produção que poderia enviar para a Europa, ao mesmo
tempo que reduz as reservas que detém em território europeu para criar
uma maior pressão sobre os preços. No mercado de futuros ICE, o contrato
para fornecer gás em janeiro de 2023 tem um preço superior a 65
euros/MWh, mais de três vezes superior ao preço de janeiro de 2021 de 17
euros/MWh.
A
pressão russa não é de hoje, pelo menos no que diz respeito aos
ciberataques e à desinformação para afetar eleições no estrangeiro. Mas
durante muito tempo foi tratada como um problema isolado. O arsenal que
foi construindo com tempo e paciência só agora está a ser ativamente
contrariado pelos países ocidentais. Mas nem sempre de forma muito
coerente. Se por um lado, o Governo alemão tem atrasado a inauguração do
Nord Stream 2, a Ministra da Defesa ainda na quinta-feira procurou
separar as questões do início da operação do novo gasoduto do conflito
com a Ucrânia.
Na
União Europeia, procura-se tornar a Europa mais independente da Rússia
do ponto de vista energético, mas com consequências para a sua ambiciosa
agenda verde. Com efeito, no dia 1 de janeiro a Comissão Europeia
iniciou um processo de consulta para alterar a taxonomia verde europeia,
isto é, o conjunto de regras que determinam o que é um investimento
verde, de forma a incluir o gás natural e a energia nuclear, sob certas
condições, como energias de transição para uma economia verde. Desta
forma cria um incentivo aos investimentos nas plataformas de gás,
nomeadamente no mar do Norte, e procura moderar os desincentivos à
utilização de energia nuclear. No longo prazo, os incentivos às energias
renováveis podem diminuir de forma drástica as necessidades de
importações energéticas.
A
Europa precisa de tempo e paciência para conseguir reduzir a
dependência energética da Rússia e ficar com uma posição mais
confortável para defender os direitos dos cidadãos que se encontram na
esfera de influência da Rússia. Mas o tempo está a escassear, com a
ameaça de conflito iminente nas suas fronteiras, e a paciência está a
ser duramente testada pelas empresas e famílias na Europa que vêm os
preços energéticos em máximos de sempre.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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