Existem jornalistas que são excelentes guias para o mundo, contanto que você acredite exatamente no contrário do que escrevem. Theodore Dalrymple via Oeste:
Existem
pessoas que são geniais no fracasso. Conheço algumas cuja habilidade de
perder dinheiro em um mercado em alta não se equilibra pela habilidade
de ganhar dinheiro em um mercado em baixa: elas só perdiam dinheiro em
todas as circunstâncias. Essas pessoas não tinham déficit de
inteligência nem mesmo de informação; na verdade, pareciam ter uma
vontade de fracassar, como se o sucesso fosse um tanto vulgar. Como
seres humanos, não eram pessoas não atraentes.
Sugeri
que um deles escrevesse uma newsletter financeira, colocando a ressalva
de que os leitores deveriam fazer exatamente o oposto do que quer que
fosse recomendado. Mas é provável que até mesmo isso tivesse um mau
resultado, porque, assim que todo mundo fizesse o oposto dos conselhos
dele, que seriam supostamente ruins, essas recomendações se mostrariam
boas e, portanto (diante da ressalva), ruins.
Existem
jornalistas que são excelentes guias para o mundo, contanto que você
acredite exatamente no contrário do que escrevem. Entre eles figura um
certo tipo de correspondente estrangeiro britânico que está sempre em
busca de algum lugar no qual projetar seus sonhos permanentemente
utópicos e adolescentes. Com frequência, são figuras de classe alta,
talvez envergonhados das próprias origens privilegiadas, pelas quais
buscam se redimir apoiando revoluções em outras partes.
Entre
eles, por exemplo, estava um homem chamado Basil Davidson, que tinha
uma espécie de genialidade para elogiar ditadores que se deleitavam, ou
estavam prestes a se deleitar, com o genocídio, a fome em larga escala
ou com a fuga de boa parte da população. Ele elogiou Tito enquanto o
ditador consolidava seu poder por meio de um massacre. Elogiou a China
comunista pouco antes do Grande Salto para a Frente, que causou uma das
piores crises de fome da história da humanidade. E, talvez o mais
bizarro, viu na revolução da Guiné-Bissau a esperança de um mundo
melhor. Esse homem fazia os Quatro Cavaleiros do Apocalipse parecerem
arautos de boas-novas.
Outra
figura como essa foi Richard Gott, um especialista em América Latina,
editor literário do jornal de esquerda-liberal The Guardian, que nunca
conheceu um movimento literário latino-americano que ele não aprovasse,
incluindo o Sendero Luminoso, que era claramente marxista com tendência a
Pol Pot. Ele escreveu que o Sendero Luminoso não ia tomar o poder, ia
simplesmente assumir o poder quando o Estado peruano entrasse em
colapso, e claramente achava que isso seria uma coisa boa. A essa
altura, ele estudava os movimentos de guerrilha latino-americanos fazia
30 anos, provando que a esperança nunca deixa de brotar no peito de um
ideólogo.
Um
dos livros do senhor Gott me faz sorrir, não porque o autor fosse
intencionalmente um humorista (apoiadores de revoluções raramente o
são), mas por causa de seu título maravilhosamente absurdo. O livro se
chama In the Shadow of the Liberator: Hugo Chávez and the Transformation
of Venezuela (Na Sombra do Libertador: Hugo Chávez e a Transformação da
Venezuela, em tradução livre). Foi publicado em 2000.
Não
se pode negar que Hugo Chávez de fato transformou a Venezuela. Ele
instituiu os tipos de política que, se tivessem sido adotadas no Oceano
Pacífico, mais cedo ou mais teriam causado uma escassez de água salgada.
Não é exatamente um segredo que a antiga elite política da Venezuela
era ruim, mas não é preciso ser Nostradamus para prever que Chávez seria
muito pior. Na verdade, era preciso ser um especialista como Richard
Gott para não prever isso.
O
que me traz ao Afeganistão. Minha breve jornada por lá tem mais de 50
anos. Naquela época, eu não passava de um jovem imaturo que sabia pouco
ou nada de história. Mas até mesmo eu podia ver que o Afeganistão — um
país de paisagens magníficas e selvagens, e homens magníficos e
selvagens — não era exatamente um bom candidato para a democracia
parlamentar ocidental. Os obstáculos para isso eram óbvios e numerosos; e
quando certos representantes americanos demonstraram surpresa que o
regime e seu Exército, fartamente munido de tecnologia militar, tivesse
entrado em colapso tão rápido diante de um pequeno exército de fanáticos
barbudos, só consegui ficar impressionado com sua falta de realismo.
Os
Jogos Olímpicos de 1980 foram realizados em Moscou antes que tivesse
havido qualquer melhora real nas relações entre Oriente e Ocidente. Na
época, a ortodoxia entre os especialistas era que a União Soviética
duraria para sempre, o que significa um século ou dois. Apenas um
pequeno número de observadores — entre os quais estavam Andrei Amalrik e
Olivier Todd — não acreditava nisso. A maior parte dos especialistas
achava que a União Soviética estava no auge de seu poder, com muitos
Estados-satélite pelo mundo, em vez de estar em vias do declínio.
Um
jornalista esportivo britânico que não era conhecido por suas
sofisticadas análises dos eventos mundiais, que não sabia nada sobre a
União Soviética e nunca soube nada, deu uma olhada no Aeroporto de
Moscou e afirmou: “Isso não pode continuar”. Olhar para o Aeroporto de
Moscou foi o suficiente para que ele constatasse que toda a estrutura da
União Soviética devia estar economicamente podre. O país estava
tentando se exibir, mas não conseguia nem erigir um vilarejo de
Potemkin. O jornalista esportivo enxergou algo em poucos segundos que
departamentos universitários inteiros não entenderam depois de décadas
de estudo.
Não
estou sugerindo que o conhecimento detalhado de outro país (ou, na
verdade, de qualquer outra coisa) não valha nada, que tudo o que alguém
precisa fazer para entender o mundo é olhar em volta por alguns minutos e
tirar conclusões sobre problemas complexos. O que estou dizendo na
verdade é que é possível alguém, ou um grupo de pessoas, estudar algo
por muitos anos e continuar sendo totalmente irrealista sobre isso,
enxergar os detalhes sem o mais óbvio padrão para os detalhes. Na
verdade, grupos de especialistas podem estar tão grosseiramente errados
quanto indivíduos mal informados. Eles se confirmam em seus erros e têm
medo de fugir à regra em relação aos colegas.
O
ingrediente que falta é o bom senso. Descartes nos diz, ironicamente,
claro, que o bom senso é tão amplamente distribuído que ninguém acha que
precisa ter mais. Como aumentar o bom senso no mundo? Existem
especialistas no assunto?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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