Sei que boa parte da resistência à vacinação nos EUA não vem dos caipiras brancos da lenda e sim do Black Lives Matter (que decretou a vacina “racista”). Via Observador, a crônica semanal de Alberto Gonçalves:
Na
quinta-feira, aconteceu uma coincidência de dimensões cósmicas: a
“Sábado” e a “Visão” dedicaram as respectivas capas a reportagens sobre o
que a primeira revista chama “movimento negacionista”, e a segunda
“milícias negacionistas”. Ambas as revistas declaram ter infiltrado
repórteres no submundo do “negacionismo” nacional, tão secreto que até
agora ninguém dera por ele. Aliás, é possível que esse submundo nem
exista de todo, e se limite apenas a estagiários de jornalismo que se
espiam uns aos outros.
Ao
que sei, o “movimento”- ou as “milícias” – resume-se a um juiz que
apareceu nas notícias a discutir com a polícia e a um punhado de
transeuntes que destrataram o dr. Ferro por motivos em nada ligados à
Covid. Ouvi ainda falar nuns pequenos jantares onde algumas pessoas se
mostraram irritadas com a prepotência instalada a pretexto do vírus
chinês. E só. A “Sábado”, a “Visão” e a vasta maioria dos “media” andam
com falta de assunto. Em compensação, andam desesperadas por inventá-lo.
No mesmo dia, o editorial do “Público” cita a “Pasionária” da praxe
para jurar que, naquelas páginas, o “negacionismo” (que junta à
“superstição” e às “teorias da conspiração”) não passará. E os
noticiários televisivos estão repletos de “especialistas”, subsidiados
ou não pela Pfizer, a exigir a proibição sumária das “ideias
negacionistas”, cuja divulgação consideram um crime e um ataque à saúde
pública.
A
saúde alheia é a menor das preocupações desta gente. A maior é
desvalorizar o adversário sem precisar de argumentos, exibição de
preguiça que serve um de dois propósitos. Alguns dos que recorrem às
acusações de “negacionismo” são simplórios, pobres diabos que repetem o
que vêem nos “telejornais” e se convencem de que insultar o semelhante
os eleva de imediato a um patamar de discernimento e iluminação. O
problema são os restantes, os que usam a ladainha do “negacionismo” não
para impedir a progressão da Covid, mas para calar as dissensões face ao
poder político. Embora primitivo, o clássico método da difamação
costuma funcionar.
O
método consiste em atribuir ao contestatário, no caso ao
“negacionista”, uma série de crenças avulsas, bizarras e falsas, que
logo à partida o desqualificam de possuir uma opinião ponderada acerca
do tema em questão. Se um maluco julga que a Terra é plana, o que o
habilita a discordar do açaime nos supermercados? Sucede que, entre os
meus amigos, todos candidatos ao rótulo de “negacionistas”, nem um
ignora que a Terra é esférica, que o vírus chinês pode matar, que as
vacinas talvez moderem um risco praticamente restrito a certos pedaços
da população. Como eu, os meus amigos só desejariam que as costas da
Covid não fossem largas a ponto de justificar as falências, a
indiferença às demais maleitas, a supressão da democracia e a opressão
generalizada. Eles, como eu, só querem reduzir a Covid ao cantinho
esconso que a Covid merece. E a mania de uns chatos pensarem pelas
próprias cabeças não compromete a saúde pública: aborrece as nossas
estimadíssimas autoridades ou, no léxico da “Visão” e do prof. Salazar, a
“ordem estabelecida”. Dado que agitar o conceito de “obediência cega”
não é de bom tom, os lacaios da propaganda preferem legitimar-se com a
“ciência”.
Não
mencionarei o fervor de muitos destes “cientistas” em prol da
homeopatia, da acupunctura e de avanços similares. Ou a raiva com que
recusam os benefícios da energia nuclear. Ou a leviandade com que
rejeitam as determinações biológicas dos “géneros”. Ou a convicção com
que alertam para o carácter nocivo dos alimentos transgénicos. Ou a
inclinação para, das alunagens ao 11/9, engolirem tretas conspirativas
que deixariam às gargalhadas uma criança de 10 anos.
Não
é preciso. Basta notar que quem aponta o dedinho aos “negacionistas” é,
por regra não exaustiva, esquerdista. E isso sim, exclui qualquer um da
obrigação de interpretar a realidade com um mínimo de lucidez. É assaz
ridículo condenar o “obscurantismo” enquanto, por exemplo, se leva a
sério o sr. prof. dr. Louçã, um poço de dogmas medievais, ou o dr.
Costa, a incarnação do atraso de vida, ou o prof. Marcelo, que é o prof.
Marcelo. E é engraçado que a firme objecção a superstições de que fala o
director do “Público” não se estenda a superstições bem mais mortais do
que a Covid: tenho a impressão de que o diário nunca se coibiu de
publicar apologias do marxismo e bruxedos afins. Críticas ao
“certificado de vacinação”? Não passarão! Elogios ao sistema que
organizou o Gulag? Sintam-se em vossa casa! A credibilidade científica
de semelhante rapaziada rivaliza com a do professor Bambo.
Em
suma, desconheço se há “terraplanistas” ou “criacionistas” nos
perigosos gangues infiltrados pela “Sábado” e pela “Visão”. Porém, sei
duas ou três coisas divertidas. Sei que não cola colar os gangues à
“extrema-direita” e ao Chega, o qual esteve ano e meio indiferente aos
abusos perpetrados pêlos senhores que mandam. Sei que boa parte da
resistência à vacinação nos EUA não vem dos caipiras brancos da lenda e
sim do Black Lives Matter (que decretou a vacina “racista”). E sei que a
conversa do “negacionismo” é o típico monstro imaginário, criado para
desviar a atenção dos monstros que de facto ameaçam os portugueses: a
ignorância, a crendice, a trafulhice, a submissão, o oportunismo. E
contra isto não há testes que cheguem, vacinas que valham ou máscaras
que disfarcem.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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