BLOG ORLANDO TAMBOSI
Não excluo que nos próximos Jogos Olímpicos todos tenham direito, logo de início, a uma medalha de ouro. João Pereira Coutinho via FSP:
1.
Estou cansado de Naomi Osaka. Estou cansado da multidão que aplaude
Naomi Osaka sempre que ela desiste de jogar porque, sei lá, as coisas
não correm do jeito que ela quer.
Aconteceu agora, na terceira rodada do US Open: Osaka perdeu, e perdeu bem, apesar das mil acrobacias teatrais durante o jogo para mostrar ao mundo a sua frustração.
Depois, em lágrimas, confessou que não sabe quando voltará a jogar. Como ela mesma afirmou em entrevistas, sente-se ansiosa quando o fracasso bate à porta.
Antigamente,
números desses eram recebidos com indiferença. Minto. Eram recebidos
com críticas: um jogador de alta competição não vale apenas pelo apuro
técnico; vale também pela capacidade incomum de suplantar as limitações e
as fraquezas mais mundanas.
Hoje, o roteiro é conhecido: o atleta é apresentado como um mártir da alta competição, submetido a torpezas jamais imaginadas na história humana.
O mesmo aconteceu, tempos atrás, com a ginasta Simone Biles, que desistiu dos Jogos Olímpicos para proteger a sua “saúde mental”. Os elogios foram fartos.
E,
que eu me lembre, só o jornalista Brendan O’Neill desafinou do coro em
editorial para a revista britânica Spiked: a desistência de Biles era
triste, não heroica, escreveu. E mais triste ainda era a celebração unânime da vitimização sobre o heroísmo, acrescentava.
Concordo
com O’Neill. Aliás, se as coisas continuarem assim, não excluo que em
próximos Jogos Olímpicos o sistema de medalhas seja abolido —e todos os
participantes tenham direito, logo de início, a uma medalha de ouro só
por terem tido a coragem de comparecer.
Ponto prévio: a saúde mental não é brincadeira.
Brincadeira? Sou a última pessoa do mundo a brincar com o assunto e o
meu rosto poderia ser a capa do “Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais”.
Mas não sou atleta de alta competição. E não creio que Naomi Osaka, ou outros como ela, sejam mártires de coisa nenhuma.
Para
começar, não consta que Osaka seja obrigada a jogar tênis. Não há
relatos de que a sua família tenha sido sequestrada numa caverna para
que ela se arraste pelo planeta inteiro de raquete na mão.
Se
jogar e perder é um destino insuportável, e se a pressão esportiva e
midiática não contribui para o seu sã equilíbrio, há mil carreiras
alternativas para uma mulher privilegiada como ela.
O
mesmo não pode ser dito de incontáveis mulheres que sofrem na pele as
agruras de uma existência pobre e de um trabalho precário —e não têm
outra alternativa de vida.
Por
outro lado, existe na atitude de Osaka uma essencial desonestidade: ela
perdeu a terceira rodada do US Open porque a canadense Leylah Fernandez
jogou magistralmente bem.
Culpar
as pressões da mídia, ou o sistema desumano da alta competição, pelos
nossos fracassos pessoais é uma forma perversa de sujar o sucesso dos
outros. O sucesso daqueles que enfrentaram os mesmos medos e desafios
—e, apesar disso, tocaram no dedo da excelência.
Eis,
no fundo, a atitude típica do ressentido, que prefere tocar fogo em
tudo para não se confrontar com as suas próprias limitações.
2. Depois da vitória do Talibã no Afeganistão, alguma mídia começou a falar de um personagem enigmático: o “Talibã moderado”.
Quem seria esse ser? Um cavalheiro barbudo que aprendeu maneiras nas escolas de etiqueta do Paquistão?
Alguém
disposto a celebrar a diversidade e a inclusão nomeando várias mulheres
para o governo e permitindo, uma vez por ano, uma parada LGBTQIA+ nas
ruas de Cabul?
Não sei. O que sei é que o personagem ainda não apareceu. A mesma mídia que acreditava na retórica “delicodoce” do grupo começa nesse momento a reportar as suas habituais barbaridades.
Nada
que incomode alguns cérebros brilhantes. Como a ministra da Igualdade
da Espanha, que tratou logo de relativizar o assunto. “Em todos os
países as mulheres são oprimidas”, respondeu Irene Montero. O que
permite concluir que o Afeganistão não é muito diferente da Espanha em
matéria de direitos femininos.
Moral da história? Quando as mulheres afegãs têm esse tipo de amigas no Ocidente, elas não precisam de inimigos no Oriente.

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