O falastrão que odeia leitura e a mulher que não fala coisa com coisa nasceram um para o outro. Augusto Nunes para a revista Oeste:
Em
16 de maio de 1990, depois que seu filho Christian matou com um tiro na
cabeça Dag Drollet, namorado da irmã Cheyenne, Marlon Brando isolou-se
numa sala da casa em Beverly Hills até chegar a hora da entrevista
coletiva. Caminhou em direção aos jornalistas e, antes que as perguntas
começassem, disse uma frase que parecia ter acabado de sair do script de
um filme em que o filho de um grande ator mata com um tiro na cabeça o
namorado da irmã:
— A tragédia bateu em minha porta.
Quem
pronunciou as seis palavras exemplarmente encadeadas? Um homem golpeado
pelo drama terrível? Ou o gênio das telas interpretando o personagem?
Jamais se saberá. “O grande ator não é gente como a gente, é outra
coisa, muito misteriosa”, dizia o jornalista Paulo Francis. “E Marlon
Brando é o melhor de todos os tempos.” Para amparar a avaliação, Francis
evocava a cena de O Último Tango em Paris em que o protagonista chora
ao lado do túmulo de sua mulher. “Era mais que um choro, era um uivo”,
deslumbrava-se meu amigo. “Era uma tristeza fora do alcance do homem
comum. Nem o mais inconsolável dos viúvos conseguirá chorar daquele
jeito.”
Francis
talvez mudasse de ideia se testemunhasse a performance de Lula no dia
em que Dilma Rousseff enviuvou da Presidência da República, ao fim do
casamento de cinco anos infelizes para quem consegue enxergar um palmo
adiante do nariz. Nunca antes neste país, ou nunca antes neste mundo,
viu-se alguém tão desoladoramente arrasado quanto o fabricante do poste
que instalou no coração do poder até que se consumasse o despejo.
Encerrado o velório sem cadáver no Palácio da Alvorada, um punhado de
militantes do PT acompanhou por alguns metros a partida da mulher
demitida pelo impeachment. Perdido no grupo de carpideiras, um Lula
catatônico zanzava à deriva, com o olhar de quem sobe os degraus do
cadafalso, o rosto castigado por rugas recém-nascidas e vincos que
avisavam: nunca mais apareceria por ali sequer o esboço de um sorriso.
A
passagem do tempo, o cerco movido pela Lava Jato, a temporada na
cadeia, a namorada nova — essas e outras ocorrências desviaram as
preocupações para outras direções. O sofrimento causado pelo calvário de
Dilma agora parece suportável. Mas o luto continua. Na semana passada, a
ex-presidente revisitou a memória do seu criador durante outra
discurseira, de novo marcada pela insistência em algemar a liberdade de
expressão com o que já se chamou “controle social da mídia” e
ressuscitou rebatizado com outro codinome: “regulação da mídia”. Vistos
de perto, tanto o controle quanto a regulação têm cara de censura, jeito
de censura — e são isso mesmo: variações da velha censura, sempre
camuflada por fantasias em farrapos. “A imprensa precisa respeitar
limites”, berrou o palanque ambulante para outra plateia amestrada. “Não
podemos esquecer que a mídia apoiou descaradamente o golpe contra Dilma
Rousseff.”
Aos
olhos malandramente estrábicos do ex-presidente presidiário, a queda de
Fernando Collor em 1991 não tem parentesco com golpe nenhum. Com o
apoio do PT, a bancada majoritária dos descontentes apenas utilizou o
instrumento do impeachment, prescrito pela Constituição. Tampouco pode
ser considerada golpista a campanha “Fora FHC”, deflagrada em janeiro de
1999, semanas depois da segunda vitória de Fernando Henrique sobre Lula
no primeiro turno. E só negacionistas, terraplanistas ou genocidas
ousam enxergar algum tipo de golpe na pilha de pedidos de impeachment
erguida pelas tribos derrotadas em 2018. A coisa só se transforma em
conspiração fascista se o alvo desfila na ala dos democratas que não
admitem discordâncias nem toleram o convívio dos contrários. Dilma
Rousseff é o mais vistoso destaque desse monumento ao cinismo.
Caso
efetivamente ache que a sucessora comandou um governo admirável, caso
acredite mesmo que perdeu o emprego porque só pensava nos pobres, Lula
não pode perder a chance de reparar a injustiça na eleição do ano que
vem. Como se sabe, os institutos de pesquisa já entregaram a faixa
presidencial ao chefe do maior esquema corrupto da História. Que tal
completar a chapa com Dilma candidata a vice — e, por que não?,
ceder-lhe metade do mandato para que conclua a obra rudemente
interrompida? Dois anos no poder não são pouca coisa, atesta o resgate
parcial do besteirol acumulado por Lula em 2003 e 2004. Extraídos de
excelente artigo de Dora Kramer, os momentos aqui reproduzidos avisam
que, perto do colecionador de diplomas de doutor honoris causa, Jair
Bolsonaro é um apóstolo do politicamente correto.
Ao
sancionar o Estatuto do Idoso, Lula exortou os aposentados a “não
ficarem em casa atrapalhando a família”. Ao recepcionar portadores de
deficiências físicas, o presidente animou-se ao reconhecer um deles:
“Estou vendo o Arnaldo Godoy sentado, tentando me olhar, mas ele não
pode me olhar porque é cego. Estou aqui à tua esquerda, viu, Arnaldo?”.
Numa audiência concedida a atletas que disputavam vagas na delegação que
viajaria para a Grécia, Lula desejou-lhes sorte na Paraolimpíada de
“Antenas”. Com a mesma delicadeza foi contemplado o gênero feminino.
Depois de esquecer Marisa Letícia dentro de um carro na Espanha,
procurou redimir-se num falatório no Rio: “A galega engravidou no
primeiro dia porque pernambucano não deixa por menos”. Disposto a deixar
claro que nunca foi preconceituoso, viu em Pelotas, no interior gaúcho,
“um polo exportador de viados”. (Assim mesmo: com i.)
Entre
uma grosseria e um pontapé nas boas maneiras, caprichou no espetáculo
da ignorância. Aboliu 3.000 quilômetros de fronteira ao anunciar que,
além do Chile e do Equador, também a Bolívia não estava na lista dos
países vizinhos do Brasil. Na Síria, dissertou sobre um certo
“continente árabe” e ergueu um brinde com bebida alcoólica ao
presidente, que é abstêmio por motivos religiosos. Poderia ter evitado
algumas agressões a conhecimentos elementares se não achasse que
“leitura é pior que exercício em esteira”. A catarata de cretinices
prosseguiu, mas deixou de inundar o noticiário jornalístico para abrir
espaço ao cortejo de escândalos que começou com o Mensalão, chegou ao
clímax com o Petrolão e só cessou quando o Supremo Tribunal Federal
resolveu atender ao apelo de Romero Jucá e estancou a sangria.
Também
Dilma Rousseff mereceu a carteirinha de sócia do clube dos incapazes
capazes de tudo. Entre incontáveis espantos, a inventora do dilmês
enxergou um cachorro (oculto) por trás de cada criança. Compreendeu que
tudo seria diferente se fosse possível estocar vento. Aconselhou Barack
Obama a evitar que a pasta saia do dentifrício. Descobriu que o
coronavírus é esperto, solerte e ataca na horizontal. Ensinou que é mais
sensato dobrar metas inexistentes. E, na mais assombrosa de suas
façanhas, provou que é possível presidir o país — durante cinco anos —
sem falar coisa com coisa, sem declamar uma única frase com começo, meio
e carregando na cabeça baldia um neurônio solitário.
Nascidos
um para o outro, Dilma merece ser vice de Lula e Lula merece ter Dilma
como vice. Quem não merece essa dupla de nulidades arrogantes é o Brasil
que pensa e presta.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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