No aniversário de João Paulo II, a mensagem sempre contemporânea do papa cujo legado vai muito além da religião.
Ana Paula Henkel via Oeste:
Antes
da 1ª Guerra Mundial, o território polonês foi dividido entre os
impérios alemão, russo e austro-húngaro. Essas potências, juntamente com
França e Grã-Bretanha, lutavam pelo domínio do continente. Embora a
Polônia não existisse como Estado independente, sua posição geográfica e
suas terras entre as potências em combate foram testemunhas de muitas
batalhas e terríveis perdas humanas e materiais entre 1914 e 1918. No
rescaldo da guerra, após o colapso dos impérios, a Polônia se tornou uma
República independente.
No
país ainda devastado, a jovem Emilia Kaczorowska descobre que está
grávida e é aconselhada a abortar. Se prosseguisse com a gravidez,
poderia perder a própria vida. “Sua gestação está seriamente em risco e
não há possibilidade de concluí-la, nem de você ter um filho saudável”,
disse um dos melhores médicos da região onde morava. Além do quadro
clínico complexo, Emilia estava em uma nação ameaçada por
instabilidades, conflitos armados e invasões. De modo que o aborto
parecia mesmo uma solução plausível. Apoiada pelo marido, a jovem
aceitou o risco e decidiu ter o bebê, ainda que lhe custasse a vida. Em
18 de maio de 1920, na cidade de Wadowice, após meses de angústia e uma
gravidez delicada, nasceu Karol Józef Wojtyla.
Como
toda criança, Karol adorava praticar esportes como futebol e esqui.
Ainda na adolescência, desenvolveu o gosto pelas artes. Como ator e
dramaturgo, chegou a participar de diferentes grupos teatrais. Sua
paixão pelo palco era profundamente ligada ao desejo de manter vivas a
cultura e as tradições polonesas.
Em
1939, com a invasão alemã da Polônia na 2ª Guerra Mundial, a
universidade na qual o jovem Karol estudava foi fechada, e ele, obrigado
a se alistar no serviço militar e trabalhar em uma mina de calcário.
Aos 20 anos, já não tinha por perto mais nenhum membro da família. Todos
estavam mortos. Nos anos seguintes, interessado na vida sacerdotal, o
jovem polonês se dedica aos estudos de forma clandestina, absolutamente
secreta e escondida dos alemães. Em janeiro de 1945, as tropas nazistas
deixam a cidade e a vida no seminário volta ao normal. A ordenação
sacerdotal de Karol Wojtyla acontece no ano seguinte, em 1º de novembro
de 1946.
E aqui começa uma nova história para o jovem polonês e para o mundo.
Em
1958, então com 38 anos, Karol Wojtyla é ordenado bispo auxiliar de
Cracóvia. Nove anos depois, é nomeado cardeal pelo papa Paulo VI. Após
onze anos de intenso trabalho e defesa da fé como cardeal, a Igreja o
escolhe para uma nova missão. Ele é eleito papa pelo segundo conclave
papal de 1978 — convocado após a morte precoce de João Paulo I, que
liderou a Igreja Católica por apenas 33 dias, depois de suceder a Paulo
VI. Os sinos da Basílica de São Pedro, no Vaticano, anunciavam que Karol
Wojtyla, agora João Paulo II, era o novo pontífice.
Os
católicos amam o papa João Paulo II por sua santidade, como
demonstrado, entre outras formas, por seu evangelismo pregado na
premissa do amor ao próximo e pela longa resistência no papado, apesar
de sua doença. Para historiadores seculares, no entanto, nenhuma das
realizações do santo papa, beatificado em 2011 e canonizado em 2014,
parece maior do que seu papel no final da Guerra Fria e na queda do
comunismo soviético.
Em
9 de novembro de 1989 caía o Muro de Berlim, sinalizando o absoluto
colapso do comunismo na Europa Oriental. Foi um momento lembrado
vividamente por aqueles que atravessaram a devastação e os horrores do
regime. Porém, poucos se lembram do evento crucial alguns meses antes,
em junho de 1989, quando a Polônia finalmente realizou eleições livres e
justas. Os comunistas não conquistaram um único assento no Parlamento.
Com os resultados impressionantes do pleito, todo o bloco do leste foi
destruído, com destroços espalhados até a base do Muro de Berlim. A
Polônia havia se tornado um pavio aceso nos fundamentos da Cortina de
Ferro.
Uma
pessoa que não se surpreendeu com o catalisador das eleições polonesas
foi o primeiro papa polonês da Igreja, seu primeiro papa eslavo e seu
primeiro papa não italiano em 455 anos. Uma década antes daquelas
eleições históricas, quando questionado sobre qual país queria visitar
primeiro, João Paulo II não hesitou na resposta. Planejou ansiosamente
um retorno triunfante à sua pátria. As autoridades comunistas também
planejaram a viagem. Esconderam do mundo os detalhes da santa visita ao
país tomado pelos marxistas, numa vã tentativa de parar o que parecia
ser inevitável.
A
recepção ao papa foi colossal. Um milhão de pessoas entoavam nas ruas
da capital polonesa: “QUEREMOS DEUS! QUEREMOS DEUS!”. A Polônia mostrava
ao mundo que não se entregaria aos comunistas. A Praça da Vitória em
Varsóvia era, até ali, conhecida como um símbolo de resistência ao
totalitarismo da 2ª Guerra Mundial. Na visita de João Paulo II,
tornou-se símbolo de resistência ao totalitarismo da Guerra Fria.
Foi
durante sua homilia, escrita pelo papa à mão e que ele sabia de cor,
que o filho polonês entregou uma mensagem não apenas para os católicos
ou para os cristãos em geral. A mensagem também atingia os comunistas
ateus que fecharam as portas do diálogo, das fronteiras, dos sistemas
econômicos, das culturas e civilizações sob seu controle: o poder
salvador da fé cristã fará seu sistema colapsar. E isso foi apenas o
início de uma avalanche contra o mundo comunista. A declaração mais
significativa na homilia, a afirmação política mais forte do pontífice
em todos os nove dias no país, onde 13 milhões de pessoas o seguiram,
era categórica: “Não pode haver Europa justa sem a independência da
Polônia marcada em seu mapa!”.
Foi
um tiro ouvido em Moscou. Nada mais precisava ser dito. O Kremlin
sabia, e os poloneses também, que era uma declaração significativa. Ali
estava uma voz que não devia — e não podia — ser suprimida. Ali estava
uma voz que não tinha medo; como nas palavras da frase que ele usou em
inúmeros e inesquecíveis discursos e que se tornaram uma de suas marcas
registradas: “Non abbiate paura!”. Não tenham medo.
Após
a visita de 1979, era impossível para a Polônia permanecer a mesma. No
ano seguinte, o sindicato Solidariedade foi fundado no estaleiro de
Gdansk, espalhando-se por todo o país e reunindo mais 10 milhões de
membros, um terço da força de trabalho local. Historiadores acreditam
ser seguro afirmar que o Solidariedade foi o maior movimento de protesto
não violento da História. Mesmo que os não crentes fossem proeminentes
na liderança do sindicato, sua natureza católica e cristã era
inconfundível. Os trabalhadores em greve não queriam apenas ganhos
materiais ou políticos. Cobravam que o governo respeitasse sua dignidade
e os direitos dados por Deus. Durante os protestos do Solidariedade, os
trabalhadores rezavam e os padres celebravam missas. Imagens de João
Paulo II e da Virgem Negra de Czestochowa eram carregadas por todo o
país.
Os
comunistas temiam o pavio da liberdade e fé que João Paulo II acendia
por onde passava. Em 1981, enquanto cumprimentava os fiéis diante das
câmeras de TV na Praça de São Pedro, o papa foi baleado por Mehmet Ali
Agca, um agente búlgaro. O assassino treinado esperou o dia todo por sua
chance. Usando arma semiautomática, disparou quatro tiros à
queima-roupa, atingindo o papa na mão e no abdômen. O pontífice desabou
nos braços de seus assessores, enquanto fiéis agarraram o autor dos
disparos, impedindo uma tentativa de fuga. O médico responsável pela
cirurgia de João Paulo II disse que a bala que cortou o abdômen não
atingiu sua veia abdominal principal por 5 ou 6 milímetros. Se aquela
veia tivesse sido cortada, o papa teria sangrado até a morte em cinco
minutos. Em 1983, João Paulo II visitou Ali Agca na prisão para
perdoá-lo. (Dê uma chegadinha ali no YouTube e assista às fortes imagens
do atentado, mas também do perdão e amor ao próximo de uma maneira
poucas vezes vista na humanidade.)
Foi
também em 1983 que o papa visitou a Polônia pela segunda vez, logo
depois que o governo local impôs a lei marcial para suprimir o movimento
pela democracia. O papa se reuniu com o general Wojciech Jaruzelski e
pediu a outros países que suspendessem as sanções econômicas. Ele também
defendeu publicamente os sindicatos independentes como porta-vozes da
luta por justiça social. Nos anos seguintes, o papa continuou a
encorajar o movimento pela democracia com discursos semanais no rádio em
polonês. Em 1989, num contexto de movimentos de abertura do líder
soviético Mikhail Gorbachev, o governo polonês concordou com a
realização de uma mesa-redonda de negociações com representantes do
Solidariedade e da Igreja Católica.
Como
resultado dessas negociações, as eleições de junho de 1989 levaram à
formação de um novo governo, liderado por um primeiro-ministro não
comunista. Em poucos meses, o Muro de Berlim caiu e os regimes
comunistas ruíram na então Checoslováquia e na Romênia. A busca pela
independência de outros Estados do bloco soviético e nas repúblicas sob
controle do Kremlin finalmente levou ao fim da União Soviética, em 1991.
“Tudo
o que aconteceu na Europa Oriental nestes últimos anos”, escreveu
Gorbachev em 1992, “teria sido impossível sem a presença desse papa e
sem o importante papel, incluindo o papel político, que ele desempenhou
no cenário mundial.”
Não
dá para descrever o legado de Karol Wojtyla em apenas um artigo. Há
incontáveis vertentes a ser abordadas, como sua amizade com o presidente
norte-americano Ronald Reagan e com a primeira-ministra britânica
Margaret Thatcher, relacionamento que foi estratégico para o fim da
Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim. Como um líder religioso, o papa
levou multidões a professar a fé cristã por todo o mundo, abalando as
bases ateístas do comunismo. João Paulo II foi muito mais que um papa. O
bebê que quase não nasceu, e depois arriscou a própria vida, viajou o
mundo inteiro, estabeleceu diálogo com outras religiões e chefes de
Estado. Ele nos mostrou que acima de crenças e ideologias está a defesa
inviolável da liberdade.
Com
a alma forjada na severidade de reais conflitos, São João Paulo II foi
excepcionalmente preparado para enfrentar o comunismo. A Polônia perdeu a
2ª Guerra Mundial duas vezes, primeiro para os nazistas e depois para
os comunistas. Quando menino, Karol Wojtyła viveu sob a opressão de
ambos. Muito antes de se tornar papa, havia concluído que o conflito com
o comunismo era, em última análise, um conflito no reino espiritual.
Para
nós, que vivemos em tempos estranhos, com ordens executivas draconianas
e projetos de tirania espalhados pelo mundo sob um falso manto de
bondade e preocupação em meio a uma pandemia, a mensagem ressoa
insistentemente, como os sinos da Basílica de São Pedro ao anunciar um
novo papa: non abbiate paura.
BLOG ORLANDO TAMBOSI


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