Para o tribunal governado por Gilmar Mendes, todos são inocentes. Menos Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Augusto Nunes para a revista Oeste:
Não
sabia que as atribuições do Ministério Público eram tão múltiplas e
essenciais até aquela tarde em que acampei na sala do fórum de Itápolis
reservada ao promotor de Justiça. Com 30 e poucos anos, só então
descobri que meu irmão mais velho era muito mais que a figura que
apontava o dedo acusador para o réu, ou o livrava da cadeia, nas sessões
do tribunal do júri. Nas cinco horas seguintes, enquanto examinava
processos, ele costurou três acordos entre patrão e empregado,
reaproximou dois casais desavindos, consolou mães de preso, socorreu
meia dúzia de miseráveis e, sobretudo, ouviu. Ninguém sabia ouvir um
sem-ouvinte como Flávio Nunes da Silva.
No
fim do expediente, entrou na sala um nissei com o paletó no ombro e o
nó da gravata já desfeito, com cara de quarentão recente. Era o juiz de
Direito. Os dois conversaram meia hora com o desembaraço de amigos de
infância. O promotor disse que pediria a absolvição por falta de provas
de alguém prestes a ser julgado. O juiz comentou outro caso em que lhe
parecia evidente a culpa do réu. Acabou aí a pauta profissional e
entraram os assuntos gerais. Fiquei sabendo que o convívio da dupla fora
intensificado graças aos frequentes churrascos promovidos por um grupo
de festeiros bons de papo, garfo e copo. Conversavam muito, comiam
bastante e, sobretudo, bebiam como gente grande.
Também
fiquei sabendo que o apreço por vinho e cerveja resultara num clássico
do humor forense, protagonizado pelo juiz e pelo dono do bar mais
movimentado da cidade, que fazia parte do grupo atraído por
churrasqueiras. Semanas antes, o dono do bar aparecera no fórum para
depor num inquérito judicial que tinha como indiciado um amigo da
testemunha. Ainda no preâmbulo da inquisição, acompanhada pelo meu
irmão, o juiz perguntou se o indiciado tinha mesmo o hábito de beber.
Tinha, confirmou o depoente. Muito?, quis saber o juiz. Com um movimento
de braço que abarcou os representantes do Judiciário e do Ministério
Público, o depoente recorreu à comparação que lhe parecia bastante
precisa: “Ele bebe que nem nós, doutor”. Depois de alguns segundos de
silêncio, o juiz recuperou a oriental serenidade, voltou-se para o
escrivão e ditou:
— O depoente afirma que o indiciado bebe moderadamente.
Lembrei-me
dessa história, e da fraternal convivência entre o juiz e o promotor de
Itápolis, quando a imprensa velha se entregou ao surto de orgasmos
provocados pela divulgação de mensagens trocadas por integrantes da
Operação Lava Jato. Li todo o material furtado pela quadrilha de
hackers, comprado pelo site The Intercept e reproduzido por jornais
agonizantes em julho de 2019. Só consegui enxergar um grupo de
procuradores e juízes federais justificadamente entusiasmados com a
chance de drenar o pântano da roubalheira institucionalizada — e felizes
com os caprichos do destino. A operação nasceu em 17 de março de 2014,
concebida para investigar uma rede de lavagem de dinheiro que usava
postos de venda de combustível e lava-jatos. Os homens da lei logo
toparam com um doleiro, Alberto Youssef, que mapeou dutos criminosos que
levavam à Petrobras. Por essas trilhas transversais as apurações
conduziram à descoberta do Petrolão, cuja devassa fez da Lava Jato a
mais bem-sucedida operação anticorrupção de todos os tempos.
Meu
irmão morreu grávido de orgulho com os feitos da nova geração do
Ministério Público. Se as trapaças da sorte os tivessem depositado em
Curitiba na segunda década do século 21, ele e o juiz amigo também
traduziriam em ansiosos recados digitais o desejo de que a varredura das
catacumbas continuasse avançando. Como tantos milhões de brasileiros,
Flávio se deslumbrara especialmente com dois assombros. Primeiro: a Lava
Jato provara que é possível pôr em prática o preceito constitucional
segundo o qual todos são iguais perante a lei. Segundo: também ficara
claro que há na cadeia lugar para todos, aí incluídos presidentes da
República que tratam o Código Penal a socos e pontapés. O Brasil parecia
efetivamente ter encontrado a rota segura. Mas o sinal vermelho fora
acionado já em maio de 2016 pela frase do senador Romero Jucá: “É
preciso estancar a sangria”. Antes que a Lava Jato chegasse ao Congresso
e ao Supremo Tribunal Federal, dispensou-se de dizer o líder no Senado
de todos os governos. Passados cinco anos, o tribunal que soltou o
bandido persegue o juiz que o prendeu, a Procuradoria-Geral da República
quer prender o procurador federal que insistia em engaiolar corruptos, o
ex-presidiário virou candidato a presidente, a Odebrecht quer de volta a
parte do dinheiro roubado que devolveu e Renan Calheiros é relator de
uma CPI. Os inventores do faroeste à brasileira acham mesmo que só há
idiotas na plateia.
O
Saidão do Supremo é tão abrangente que inclui os ainda presos, os que
usam tornozeleira eletrônica, os processados e os que enfrentam perigo
de cadeia. Graças ao Timão da Toga, estão longe de celas Lula, José
Dirceu, Dilma Rousseff, Gleisi Hoffmann, os Odebrecht, Antonio Palocci,
Guido Mantega, Erenice Guerra, os presidentes e diretores da Petrobras
na Era PT, Lulinha, Renan Calheiros, Renanzinho, Silvinho Land Rover,
Edinho Silva, Rosemary Noronha e seus bebês gatunos, os irmãos Vieira
Lima e a mãe da dupla, Miriam Cordeiro, João Santana, Fernando Collor,
Joesley e Wesley Batista, Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Jader Barbalho,
Hélder Barbalho, Eike Batista, Delúbio Soares, João Paulo Cunha, José
Genoíno, André Vargas, os sobrinhos de Lula, Waldemar Costa Neto, Edison
Lobão, Edison Lobinho, Zeca Dirceu, Fernando Pimentel, Luiz Marinho,
João Pedro Stédile, Ideli Salvatti, Paulo Okamoto, Zeca do PT e todos os
tesoureiros do PT, fora o resto. Dessa turma eu não compraria, mesmo em
suaves prestações, sequer um anzol de pesca.
Mas
topo comprar à vista qualquer carro usado posto à venda por Sergio Moro
e Deltan Dallagnol. Só eles foram contemplados com a condecoração moral
reservada a quem consegue o aparentemente impossível: num Brasil
infestado de sumidades da vigarice, ladrões compulsivos, estupradores
patológicos, cafajestes irremediáveis, assassinos de nascença e demais
representantes das ramificações da grande tribo dos bandidos sem
conserto, todos premiados pela maioria dos ministros com o direito
perpétuo de circular por aí, Moro e Deltan estão condenados à danação
eterna pelo braço do Supremo governado por Gilmar Mendes.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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