São os preconceitos e o obscurantismo de um obtuso e sua família que definem a política contra a covid, acusa Fernando Gabeira no Estadão:
Quando
desistiu do cargo de ministro da Saúde, a dra. Ludhmila Hajjar afirmou
que o panorama no Brasil é sombrio. Diria que é singularmente sombrio,
por algumas razões. O Brasil é o único país que teve quatro ministro
diferentes durante a pandemia. E desponta como o segundo colocado no
mundo em número de mortos, que deve chegar próximo dos 300 mil neste fim
de semana.
Para
completar o quadro, uma nova variante do coronavírus não só tem
contribuído para expandir o vírus, esgotando os leitos de hospital, mas
também vai devastando uma parte da juventude, setor da população que
estava mais protegido na primeira onda da pandemia.
Apesar
de toda a gravidade do momento, a dra. Ludhmila tinha esperanças.
Afinal, fora chamada para conversar sobre o cargo pelo presidente
Bolsonaro. Isso significava, aparentemente, que o próprio governo queria
mudar. Convocava uma especialista para quem a política do governo
contra a covid-19 é um conjunto de erros.
A
dra. Ludhmila foi massacrada pelas hostes bolsonaristas e o presidente
recuou. Ela falava uma linguagem muito próxima do que dizem os médicos e
a maioria esmagadora dos políticos. E, consequentemente, muito distante
da família Bolsonaro e de seus dogmas diante da pandemia.
Embora
não tenha sido escolhida para o ministério, a dra. Ludhmila, em curtas e
fragmentadas declarações, acabou reafirmando uma série de pontos vitais
no combate ao coronavírus, uma espécie de consenso nacional do qual só
não participam a família Bolsonaro e seus seguidores.
Ponto
decisivo no seu programa de trabalho era criar um comitê de crise que
atendesse governadores e prefeitos 24 horas por dia. Uma resposta ao
clamor de todos por uma coordenação nacional.
Outra
indicação importante é a ideia de ser preciso adotar medidas de
isolamento social, mesmo que se chegue necessariamente a um lockdown em
todo o País, grande e complexo demais para ser abordado com uma única
medida.
Admitir
que não existem remédios eficazes contra a covid-19 não significa que
se deva deixar de buscar contatos com todo o mundo científico, com
abertura a todas as iniciativas que se mostrem eficazes e seguras. Mas
tudo dentro de uma linha de raciocínio que privilegie a vacina.
Esse
ponto de intensificar a vacinação como saída não só para poupar vidas,
como retomar a economia, é tão consensual que o próprio governo
Bolsonaro decidiu adotá-lo depois de meses de hesitação e sabotagem. O
ex-ministro Mandetta calcula que era possível começar a vacinação nos
últimos meses de 2020 se o governo tivesse aproveitado a oportunidade.
Perdemos meses e continuamos perdendo tempo, apesar da contratação de
545 milhões de doses.
Ao
falar do tratamento da covid, a dra. Ludhmila mencionou também a
necessidade de protocolos e treinamento adequado. Há gente morrendo
porque foi intubada de forma equivocada.
Acrescentaria
a isso algo que ela não mencionou, mas circula nos meios
especializados: a necessidade de contratar mais gente, no mínimo 50 mil
novos funcionários. De fato, as equipes de trabalho estão esgotadas,
física e psicologicamente.
Um
ponto novo no debate foi incluído também nas declarações da dra
Ludhmila: a necessidade de um esforço nacional para recuperar vítimas de
covid-19, tratar as sequelas, propiciar que voltem ao trabalho. É uma
tarefa também para o SUS, uma vez que milhares de pessoas não têm
recursos para pagar um processo de reabilitação. Os preços são muito
altos. Na briga de governo federal e Estados para que Brasília pagasse
leitos de UTI, ficou claro que um único leito desses custa R$ 1.600 por
dia. Sem o SUS os pobres morreriam nas enfermarias.
Um
novo ministro da Saúde foi escolhido e esses temas foram varridos para
debaixo do tapete, ao menos por enquanto. O ministro Marcelo Queiroga
não tem projeto próprio. Já disse que executará uma política do governo.
É uma versão mais palatável do general Pazuello: um manda, o outro
obedece. No fundo, Queiroga está dizendo a mesma coisa, sem refletir
como é limitada uma política de governo definida pelos preconceitos e
pelo obscurantismo de Bolsonaro.
O
presidente sempre subestimou a pandemia, sempre considerou um ato
contra o seu governo restringir a circulação de pessoas, sempre
acreditou em remédios milagrosos, em vez de investir na vacina, que
bombardeou das trincheiras da ideologia e da pura superstição.
O
fato de ter-se recusado a aceitar os seus erros e investir na mudança
personificada pela dra. Ludhmila mostra também como Bolsonaro está
isolado. Nem os presidentes da Câmara e do Senado, ambos eleitos com seu
apoio, o acompanham em sua política contra a pandemia.
Ainda
não se percebeu que a tão decantada frente ampla existe de uma forma
que beira o consenso quando se trata da pandemia. Bolsonaro está só com
sua família e a minoria de seguidores. A existência de um quase consenso
dessa importância é animadora, mas o fato de instrumentos tão poderosos
estarem nas mãos de um presidente obtuso torna o panorama sombrio.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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