Ao longo dos milênios, ocorreram variadas mudanças na cosmovisão do homem, e à medida que ia ficando mais confiante na racionalidade, iam se popularizando concepções de Deus como uma espécie de relojoeiro que ordenou o mundo. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
O
tema da origem da religião é bem antigo na história da filosofia. Há
ateus cientificistas que acham que a religião é uma irracionalidade
condenável e datada, fruto da ignorância. Por incrível que pareça, esse
jeito de pensar é tão velha quanto Cristo: consta já no De rerum natura,
obra escrita no século I pelo epicurista Tito Lucrécio Caro. Para ele, o
conhecimento das coisas da natureza faria sumirem as angústias
religiosas e existenciais. Bastava compreendermos que tudo é átomo e
movimento, que a ordem surge do caos do movimento dos átomos, e seríamos
felizes. Quando morrêssemos, não iríamos penar no Hades: deixaríamos de
existir e todo sofrimento cessaria. Os deuses existem, mas não apitam
na natureza, nem ligam para nós: vivem em eterno deleite, sem se
preocupar com nada.
Sem
dúvida Lucrécio, redescoberto na Renascença pelo secretário de um falso
papa, foi uma peça chave na História da ciência. Encontra-se nele,
rascunhada, a ideia de ordem não-planejada a ser desenvolvida por
Darwin. Os átomos foram importante para Galileu, que jogou fora a
filosofia geocêntrica de Aristóteles junto com a sua crença nas quatro
substâncias. Graças ao legado transmitido por Lucrécio, os
renascentistas puderam pensar que coisas do mundo não eram todas
compostas pelas substâncias água, terra, fogo e ar, senão por átomos
combinados.
Mas
hoje sabemos que todas as explicações físicas de Lucrécio para os
fenômenos naturais estavam erradas. (Ele era muito detalhista na
descrição dos movimentos e formatos dos átomos, que eram figurinhas
geométricas.) Portanto Lucrécio falhou no seu principal propósito, que
era assegurar a felicidade através do conhecimento: afinal, até se o
efebo tiver ficado feliz, não foi por causa da veracidade das suas
explicações atômicas.
A natureza regida por intenções racionais sobre-humanas
Por
outro lado, até mesmo em matéria de religião Lucrécio não deixou de
apontar algo interessante: o homem vê a natureza caótica, e logo crê que
exista algo parecido com uma intenção humana por detrás dos fenômenos
naturais. O Padre Malebranche (1638 – 1715), por mais que detestasse os
epicuristas, apontava essa inclinação natural ao homem de enxergar
humanidade na natureza. O homem desenha um sol, e não raro põe nele dois
olhos, nariz e boca. A criança, ao se machucar num objeto, logo fica
braba com o objeto, achando-o mau. Um cristão, como Malebranche, não
teria problemas em dar razão a Lucrécio no que concerne à origem da
religião falsa, dos pagãos. E, depois do pio Malebranche, o cético David
Hume (1711-1776) escreveria a sua História Natural da Religião,
retomando a ideia de ambos os filósofos, segundo a qual o homem,
ignorante das causas naturais, acha que o sol, a lua, o mar, os ventos,
são como gente, e agem com vontade. Por isso, diz Hume, o homem antigo
fazia oferendas e sacrifícios a divindades naturais para conseguir boas
colheitas. Se via o sol destruir a plantação que o rio ajudou a criar,
pensava que o Sol tinha uma rixa com o Rio.
Como
a natureza humana é uma só, essa mesma humanização da natureza atua no
religioso cristão. Ao longo dos milênios, ocorreram variadas mudanças na
cosmovisão do homem, e à medida que ia ficando mais confiante na
racionalidade, iam se popularizando concepções de Deus como uma espécie
de relojoeiro que ordenou o mundo. Mas como as culturas e os homens
variam, de modo que os Deus dos teólogos newtonianos coexiste com o Deus
das velhinhas católicas e seu séquito de santinhos especializados em
causas particulares.
De
um jeito ou de outro, a natureza é regida pela vontade de um ser
sobre-humano: seja ela um relógio engendrado por um Artífice, seja a
cura de um mal nas vistas, arranjada por Santa Luzia. A meu ver, essa
constante humana mudou, e há aqueles que acham que tudo o que acontece
no mundo é fruto da ação governamental ou política. Ou seja, que tudo,
tudo mesmo, é político.
A história de uma canção
“Súplica
Cearense” é uma música cuja história serve bem para mostrar uma mudança
de mentalidade recente. Famosa na voz de Luiz Gonzaga, retrata as
preces não atendidas do roceiro cearense. Ele reza da maneira mais
contrita, mas o sol só castiga a terra já muito seca. Por que não chove?
Porque ele deve ter rezado da maneira errada e desagradado Deus. Então
pede desculpas pela própria reza: “Ó Deus, se eu não rezei direito, o
senhor me perdoe/ Eu acho que a culpa foi/ desse pobre que nem sabe
fazer oração/ Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água/ e ter
lhe pedido cheinho de mágoa/ pro sol inclemente se arretirar.” A
tragédia é que não choveu. Não há nenhum responsável por isso senão Deus
ou o próprio roceiro, que não soube pedir direito pela chuva.
Essa
música foi composta, por incrível que pareça, por um comediante.
Gordurinha (1922-1969), natural da chuvosa Salvador, se mudou para o Rio
de Janeiro e fez sucesso na capital durante a época do rádio.
Certamente se deparou com as levas de cearenses esfaimados, que deixaram
suas propriedades para trás após muitas súplicas não atendidas. A
chegada ao Sudeste é só um capítulo da longa história de fome do árido
Ceará, que inclui também a colonização da Amazônia durante o ciclo da
borracha. O Acre já estava cheio de cearenses quando ainda era
território da Bolívia.
Gordurinha
gravou a música em 1960, parecendo um meio de caminho entre o chorinho
tão querido dos cariocas e o forró ao gosto do eu lírico. Em 66, o
artista paraense Ary Lobo faz uma versão bem carioca, com mais jeito de
chorinho, que foi título de seu LP e parece ter feito muito sucesso.
Como era época de inovações, a música ganha uma introdução de teclado.
Somente em 79, com Gordurinha já morto, Luiz Gonzaga grava 'Súplica
Cearense', agora toda ambientada ao sertão, sem chorinho. Mantém a
introdução que apareceu com teclado em 66, mas toca-a com uma sanfona,
que soa solene e dramática. Com ele, tanto faz se a música foi composta
em 1960 ou 1860: tudo o que tocasse soava arcaico. Por definição, Luiz
Gonzaga cantava clássicos.
Mas
em 2008, O Rappa resolve não só gravar a música, como mexer na letra, e
não só mexer na letra, como cometer um videoclipe. Agora a Súplica
Cearense é ambientada em “Canudos, 1897”. O Ceará não só anexou
Canudos, como ganhou em 1897 incríveis tanques de guerra inventados na I
Guerra Mundial. A música sobre a tragédia natural do roceiro que espera
a chuva precisou ser reinterpretada como a tragédia política do
sertanejo revoltado que recebe tanques da primeira guerra e policiais
malvados de capacete para destruir tudo porque sim. Para não deixar
dúvidas, O Rappa acrescenta a estrofe: “Ganância demais/ Chuva não tem
mais/ Roubo demais/ Política demais/ Tristeza demais/ O interesse tem
demais!” Uma tragédia de origem natural precisa ganhar uma chave
política para fazer sentido! Parece que, se não existissem Estado ou
política, não haveria seca.
Ciência milagrosa
Então
ficamos assim: o homem sempre olhou para a natureza e acreditou que
forças divinas ou mágicas estavam por detrás das coisas que afetam a
nossa felicidade. Após a revolução industrial, surgiu um homem
excessivamente otimista quanto à Ciência, que crê que tudo pode ser
resolvido caso gente sábia e mui científica ganhe poderes absolutos
sobre a sociedade. Por que não choveu no Ceará? Porque a Ciência não
recebeu 1.538,7% do PIB (número com vírgula, portanto científico,
encontrado pelos economistas da UNICAMP), do contrário Átila já estaria
voando numa nuvenzinha mágica científica que ele inventou para fazer
chover no Ceará.
O
pio roceiro rezava e plantava. O devoto da Ciência clama por
totalitarismo, já que um outro humano é entendido como Ser superior,
capaz de resolver os males da terra.
Vejam
bem: eu não estou dizendo que a ciência não pode nada, nem que devemos
todos ficar impassíveis perante males naturais que nos aflijam, como a
seca ou o coronavírus. Digo somente que a fé de muita gente é
erroneamente direcionada para a ciência, que não é capaz de resolver
tudo ao mesmo tempo agora, nem de evitar 100% das mortes de uma doença
nova que se espalha na natureza. No fim, as campanhas emotivas por
fechamento de comércio lembram mais o homem primitivo que mata alguém em
sacrifício para ter uma colheita, do que um cientista interessado em
usar a razão para encontrar a melhor solução possível, cônscio de não
haver solução perfeita.
Mas
não terminemos a história da Súplica Cearense em 2008, com O Rappa.
Fica o registro de que em 2017 uma interpretação saiu do forró e
conseguiu escapar da sombra de Luiz Gonzaga. Esta aqui, de Xangai, ficou bem bonita e dramática só com voz e violão.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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