O filhinho Archie perdeu o título de príncipe por ser mestiço? Isso é falso, o que levanta dúvidas sobre outros trechos da entrevista explosiva. Vilma Gryzinski:
O
que aconteceu com toda certeza e foi confirmado, em termos indiretos:
Thomas Markle, o pai de Meghan, recebeu dinheiro de um tabloide para ser
fotografado como se fosse um flagrante roubado.
Esta
é a traição à própria filha mencionada por Meghan, em tom
compreensivamente magoado. Já era um fato conhecido e foi esmiuçado num
processo que ela abriu contra o Daily Mail por ter publicado uma carta
dela ao pai, queixando-se exatamente de suas atitudes.
Meghan
ganhou o processo, agora em trânsito para a segunda instância, mas está
mais difícil ganhar a opinião pública no reino que ela convenceu o
marido, Harry, a abandonar, para ir morar na Califórnia e fazer carreira
no show business.
A
dramática entrevista a Oprah Winfrey, na qual se coloca como vítima tão
hostilizada que chegou a pensar em suicídio, tem trechos pouco
convincentes ou sujeitos a contestação. Entre os mais relevantes:
–
O filhinho do casal, Archie, foi rejeitado como príncipe, um título a
que teria direito como neto do futuro rei Charles e que lhe garantiria
segurança bancada pelo Estado.
Meghan
mais do que insinuou que foi por racismo que seu filho foi “o primeiro
membro de cor dessa família a não receber o tratamento igual ao que
outros netos teriam”.
E, ainda por cima, houve “preocupações e conversas sobre o quanto sua pele seria escura”.
Na
primeira questão, não está correto. Na segunda, só Harry, a quem as
tais “preocupações” foram manifestadas, poderá dizer – e, eventualmente,
enfrentar o contraditório, o que dificilmente aconteceria.
Atrás
das câmaras, ele disse a Oprah que ação racista não partiu de sua avó, a
rainha, Elizabeth nem de seu avô, o príncipe Philip.
Isso
deixa um vasto campo aberto. Por que Harry não incluiria na isenção o
próprio pai, Charles? Denunciar erros e até crimes, como o racismo, sem
nomear os autores permite especulações infindáveis – um dos tropeços
éticos do anonimato.
Sobre
o título de príncipe negado a Archie, existe uma regra de mais de cem
anos: data de 1917 a carta-patente do rei George V estabelecendo que
filho e netos de um monarca têm direito ao tratamento de príncipe ou
princesa.
Exceção: o neto mais velho do príncipe de Gales, o título do primeiro na linha de sucessão.
Como
Archie é bisneto, ele só ganharia o “príncipe” diante de seu nome
quando Elizabeth morrer – ou abdicar, até agora fora de questão – e seu
avô, Charles, subir ao trono.
Em
2012, a rainha Elizabeth assinou outra carta-patente estabelecendo que a
menininha a caminho para William e Kate seria princesa. Se não fosse
isso, Charlotte não teria o título nem seria tratada como sua alteza
real, ao contrário do irmão, George.
Talvez
esteja aí a origem da rivalidade: Harry e Meghan podem achar que os
filhos de William, futuro rei, depois do pai, são tratados com mais
privilégios. Mas não é possível dizer que ele foi deliberadamente
discriminado.
Meghan
insinuou várias vezes na entrevista a Oprah que a “tradição” de dar o
tratamento de príncipe seria mudada por motivos raciais.
–
Funcionários da família real encarregados da relação com a imprensa
sempre defendiam Kate, mas deixaram Meghan na mão quando ela era atacada
injustamente.
Um
exemplo, dado por Meghan: o desentendimento entre as duquesas quando
foi feita a prova de roupa das daminhas de honra, incluindo Charlotte,
aconteceu de forma inversamente à plantada na imprensa por “fontes”.
Quem
saiu chorando foi Meghan, afirma a própria. Sentir-se desprotegida, sem
poder ter sua própria voz, foi um dos motivos de sua angústia.
“Foi
só depois que casamos e tudo começou a realmente piorar que entendi que
não apenas não estava sendo protegida, mas eles estavam dispostos a
mentir para proteger outros membros da família”, espetou Meghan, nada
sutilmente.
Vários
jornalistas que cobrem a família real dizem que aconteceu exatamente o
oposto: integrantes da equipe de imprensa sempre tentavam, com grande
esforço, desmentir o que poderia ser negativo para Meghan e ressaltar os
fatos positivos.
Um
exemplo: o caso das três funcionárias que se queixaram de ter sofrido
assédio moral por parte de Meghan foi completamente abafado. Só aflorou
agora, pouco antes da entrevista a Oprah, como uma forma meio apelativa
de apresentar um retrato mais negativo dela.
Teoricamente, as queixas deveriam ter sido investigadas na época..
“A
instituição protegia Meghan o tempo todo”, disse uma fonte desse meio
ao Telegraph. “Todos os homens de terno cinza que ela odeia não fizeram
nada para proteger (as autoras das reclamações)”.
–
Também pegou mal Harry, que odeia a imprensa, compreensivelmente,
considerando-se que sua mãe morreu cercada por paparazzi, dizer que
existe um “tratado invisível” entre a família real e os repórteres.
Para
ser bem tratados, membros da família real dão “festas” para os
repórteres durante viagens, uma alegação totalmente desmentida.
O
que acontece, como no mundo da política, é que os assessores de
imprensa da família real estabelecem relações de confiança com
repórteres – e são cobrados por eles para dar informações que procuram
apresentar sempre de forma favorável a seus representados.
Durante
viagens oficiais, muitas vezes é o embaixador britânico no país
visitado que dá uma recepção à imprensa. Todo mundo sabe seu papel e não
está envolvida nenhuma troca ilegítima, embora as partes sempre contem
que uma cobertura mais favorável vá manter as portas abertas. Quando é
desfavorável, como inevitavelmente acontece, faz parte do jogo não
fechá-las.
Quem
aprendeu a entender como a coisa funciona foi a mãe de Harry. Diana
captou as trocas envolvidas e se tornou mestra em plantar as versões que
a interessavam, principalmente as que prejudicavam Charles, o marido
infiel.
Durante
anos, manteve em sigilo que foi ela quem deu as principais informações
para a biografia escrita pelo jornalista Andrew Morton.
– Harry e Meghan se casaram em segredo, só os dois, três dias antes da cerimônia oficial?
Isso
deixaria o arcebispo da Cantuária, máxima autoridade eclesiástica, em
posição altamente incômoda. Pelos regulamentos da Igreja Anglicana, são
necessárias duas testemunhas para a celebração do sacramento, que só
pode acontecer numa igreja ou num espaço consagrado.
– Meghan não fazia a menor ideia de como era a família real, seus protocolos e suas exigências, como afirmou a Oprah?
Amigas
de adolescência dizem que ela sempre foi fascinada pela família real,
tinha a biografia de Diana na estante e sonhava ser a “princesa Diana
2.0”, segundo uma delas, Ninaki Priddy.
Assistiu, em prantos, as cerimônias fúnebres para a princesa morta e queria passar uns tempos em Londres.
Meghan
teria enfeitado um pouco – ou talvez mais do que isso – os dois anos
que passou como membro em tempo integral da família real? Seu sofrimento
foi tão profundo que pensou em suicídio? Sofreu discriminação até em
relação ao filho que levava no ventre?
Agora que expôs tudo, ou o que pensa ser tudo, o público vai julgar.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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