A Companhia das Índias Orientais, criada pela Holanda, expandiu o comércio mundo afora. Rafael Azevedo para a Gazeta do Povo:
Enquanto
o Brasil, em pleno século XXI, ainda não forneceu saneamento básico
para a metade de sua população, no século XVI a maioria dos moradores
dos Países Baixos desfrutava de saneamento e condições de higiene
superiores as dos brasileiros. Em 1650, pelo menos metade dos holandeses
viviam nas cidades (no Brasil, a população urbana só superou a rural na
década de 1970). Além disso, a país estava enriquecendo graças ao
intenso comércio interno e externo, proteção à propriedade privada, um
mercado financeiro exuberante e uma agricultura que usava métodos
modernos. A receita dos neerlandeses (os habitantes dos Países Baixos)
chamou a atenção até de Adam Smith, autor de "A Riqueza das Nações".
Tudo
começou longe dali, com a conquista de Constantinopla pelos turcos em
1453. O fim do Império Bizantino praticamente acabou com o acesso dos
europeus à Rota da Seda, ao Oriente e por tabela a uma série de bens e
produtos que vinham movimentando a economia da Europa havia séculos.
Espanhóis, portugueses, italianos, franceses e ingleses se viram então
forçados a procurar outros caminhos para o Oriente. Com os holandeses
não foi diferente. Mas em vez de adotarem uma tática expansionista e
imperialista, seus governantes, cientes de sua incapacidade de competir
militarmente com as potências da época, procuraram abrir as novas rotas
fazendo o que sabiam fazer melhor: o comércio.
Havia
uma grande diferença entre os holandeses e seus rivais europeus.
Enquanto Espanha e Portugal, as grandes potências navais de então,
priorizavam a conquista, o foco holandês era o comércio. Não por acaso
ouviram de um de seus “parceiros comerciais” locais durante uma
expedição comercial à África: “seu Deus é o ouro”. Os beligerantes
ingleses e espanhóis construíam navios mercantes que podiam ser
convertidos em navios de guerra. Já os holandeses se esforçavam em fazer
navios mercantes que pudessem ser cada vez mais rápidos e com maior
capacidade de carga.
Claro
que isto não significou que os holandeses abriram mão de tentar ser
também uma potência colonialista, e tão brutal, se necessário, quanto as
outras; pelo contrário: como nós brasileiros bem sabemos, por 30 anos,
de 1624 a 1654, os Países Baixos tiveram uma das experiências mais bem
sucedidas de europeus no Novo Mundo, centrada em torno de Mauritsstad
(atual Recife), na qual trouxeram para este rincão atrasado do globo que
moramos uma série de conceitos que portugueses e, depois da União
Ibérica, espanhóis, nos negaram, como a liberdade religiosa e comercial.
A
corte de Maurício de Nassau também cruzou o Atlântico com uma série de
diversos artistas e intelectuais consigo, deixando um legado que, embora
não tenha sido de todo esquecido, especialmente no Brasil, acabou por
se apagar num misto de nostalgia e vergonha pela perda da colônia — o
que faz com que até hoje o período não seja devidamente abordado nos
livros escolares dos Países Baixos. Além do Brasil, os holandeses
tiveram uma série de colônias, mas em menor escala do que seus vizinhos
europeus. Entre as que deixaram um legado maior em sua história e até
mesmo na cultura atual do país, podemos citar o Suriname e a Indonésia.
A criação da Companhia das Índias Orientais
Mas
foi através da exploração comercial que os Países Baixos imprimiram seu
legado pelo mundo. Em 1595, já atraídos pelo mercado de especiarias,
que rendiam um rebanho inteiro em troca de um mísero pacotinho, uma
expedição de navegadores holandeses saiu pelo mundo afora, seguindo as
rotas já abertas pelos portugueses em torno do Cabo da Boa Esperança e
indo além, chegando até mares que, embora já dantes navegados, ainda
tinham sido pouco explorados, até a ilha de Java.
Ainda
que pouco mais de dois terços da tripulação não tenham chegado com vida
ao seu destino original, a carga que trouxeram serviu como consolo.
Segundo Stephen R. Bown, autor especializado na história das viagens de
exploração do período, quando estas especiarias chegavam, “o que valia
uma cesta de arroz na Indonésia custava uma fortuna em prata na Europa”.
Nos anos que se seguiram, 65 outros navios holandeses foram para o
Oriente, retornando com cravo, canela, gengibre, noz-moscada, entre
outros.
Em
1602, então, o governo holandês resolveu estimular uma união dos
esforços de todos os comerciantes (e, como todo governo, tirar algum
proveito disso), e permitiu a criação da VOC, Vereenigde Oostindische
Compagnie – "Companhia Unida das Índias Orientais” – e equipou-a com um
exército de soldados e burocratas para estabelecer entrepostos e
assegurar seu domínio sobre as rotas comerciais abertas.
Em
1614, no entanto, vendo essas rotas sendo gradualmente ameaçadas pelas
potências europeias, especialmente os ingleses, o governo neerlandês
resolveu apontar um contador, já com uma certa experiência no mundo das
navegações, para ser diretor-geral da companhia. Jan Pieterszoon Coen
era um calvinista ferrenho, a ponto de adotar o lema “Não se desespere,
não poupe seus inimigos, pois Deus está conosco”. Rapidamente
estabeleceu à força monopólios da Companhia com seus contatos na
Indonésia, obrigando-os a vender seus produtos por preços mais baratos
do que os oferecidos pela concorrência.
Entre
seus métodos de persuasão estavam a tortura e a morte de qualquer
comerciante local que aceitasse as ofertas feitas por chineses ou
indianos de arroz em vez da lã e do veludo que os holandeses traziam (e
eram completamente inúteis diante do clima tropical local), e a queima
de campos de cultivo usados pelos rivais, para provocar deliberadamente a
escassez de determinados produtos. O grau de brutalidade de Coen, se já
não estivesse suficiente explícito nos massacres de portugueses e
ingleses recorrentes durante suas empreitadas, ficou evidente num
célebre episódio em que ele encontrou a filha de 12 anos de um colega
que estava sob seus cuidados dentro de seu quarto com um soldado de 15
anos, e imediatamente mandou que ele fosse decapitado e ela chicoteada.
Globalização
A
despeito de qualquer violação cometida por seus líderes e funcionários,
a Companhia das Índias Orientais rapidamente se tornou a empresa mais
rica e poderosa do mundo, estendendo seus tentáculos para outros ramos,
como a construção, fabricação de bebidas alcoólicas, vidro, cultivo de
tabaco e refino de açúcar. Estima-se que três quartos de todos os navios
cargueiros circulando pelo mundo em meados do século XVII pertencessem à
Companhia.
Seus
lucros ajudaram a trazer ainda mais riquezas a uma nação já próspera, e
a financiar uma era de ouro na arte, arquitetura, e ciência, que nos
legou artistas como Rembrandt, Vermeer, filósofos como Descartes (apesar
de francês, passou grande parte de sua vida adulta na Holanda), e
cientistas como van Leeuwenhoek. Foi o primeiro exemplo cabal do que
viríamos a descrever mais tarde como globalização.
O
legado da VOC – efetivamente, a primeira multinacional do mundo –
esteve longe de se restringir às fronteiras dos Países Baixos. O vinho
da África do Sul, por exemplo, é um de seus maiores legados, graças às
vinícolas construídas por seus membros durante o período em que os
holandeses estiveram naquele país. Da mesma maneira, o desenvolvimento
extraordinário de Taiwan nos dias de hoje tem sua origem durante a
passagem da Companhia pela ilha, que até então não passava de um lugar
habitado por tribos aborígenes. A empresa holandesa começou a
estabelecer fazendas e trazer imigrantes chineses para trabalhar nelas.
Rejeição ao poder centralizado
Claro
que essa prosperidade não teria sido possível se o país não tivesse
anteriormente um período de prosperidade que permitisse o surgimento e
desenvolvimento de todas essas condições para ela.
A
região onde hoje se encontram a Holanda e a Bélgica, era habitada por
uma tribo céltica, os batávios, que já tinha uma longa tradição de
confecção de produtos têxteis, exportados em grande quantidade para os
romanos. Apesar de terem sido descritas por Júlio César como uma das
tribos mais ferozes da Gália, rapidamente se integraram ao mundo romano
depois de terem sido subjugadas.
Com
o fim do Império Romano, passaram a fazer parte de diversas entidades
medievais, como o Reino dos Francos, o Sacro Império Romano-Germânico, e
o Ducado da Borgonha. Durante todo este tempo, a indústria têxtil
continuou a ser a principal força motriz financeira da região, o que fez
com que o país, ainda à procura de independência das forças que o
dominavam, desenvolvesse uma espécie de dependência dos britânicos pela
lã necessária para a confecção destes produtos têxteis – devido à
dificuldade de se criar rebanhos extensos num terreno situado
praticamente abaixo do nível do mar.
Isso
deu origem a um movimento coletivo e construção de diques, inicialmente
com a intenção de proteção contra ataques estrangeiros, especialmente
de vikings, mas depois para conseguir mais terras aráveis, e que
propiciou uma espécie de revolução agrária que teria consequências
permanentes na história do território.
Para
a construção desses diques formaram-se comunidades independentes do
governo, que criaram um sistema totalmente revolucionário de
administração compostas por representantes de cada uma das regiões, com
funcionários e servos próprios, e com autoridade para cobrar impostos e
atuar judicialmente, minando gradualmente qualquer tipo de poder central
existente à época – em contraste com o que acontecia no resto da
Europa.
Muitos
desses representantes tinham assistentes que eram eleitos pelos
próprios habitantes dessas regiões. Assim, a estrutura social dos Países
Baixos gradualmente se tornou totalmente diferente do resto da Europa
da época. Ao mesmo tempo, foi surgindo uma distinção cada vez mais
crucial para o desenvolvimento do próprio país: enquanto o Sul, que
acabou por se tornar a parte flamenga da Bélgica, continuou dependente
da produção de lã, o Norte procurou encontrar outras formas de
sobrevivência, entre elas a pesca do arenque.
Agricultura moderna
O
fato de os terrenos obtidos a partir da construção de diques serem
pesados para a produção, apesar de relativamente férteis, forçou os
habitantes locais a, se não desenvolverem, pelo menos passarem a adotar
com mais intensidade tecnologias novas, como o arado mais pesado, de
metal, puxado por cavalos mais fortes. Esse arado rapidamente permitiu
que os Países Baixos se tornassem já no século XI um dos países com uma
agricultura mais destacada da Europa.
Além
disso, em vez de deixar a terra descansar por um ano após a colheita,
os holandeses passaram a plantar grãos ricos em nitrogênio (nabos,
trevos e ervilhas), que melhoravam o solo para o próximo cultivo e ainda
por cima forneciam alimento para os rebanhos.
Apesar
disso, não eram capazes de produzir trigo; mas como a quantidade de
grama que surgiu nestas terras era abundante, rapidamente o país se
tornou um expoente na produção de laticínios, e logo estabeleceu um
comércio com as nações vizinhas, especialmente com os países bálticos,
seus principais fornecedores de grãos.
Viver
num país tão próximo ao mar e cortado por canais e rios também teve
suas vantagens. O transporte marítimo e fluvial logo se tornou uma das
especialidades dos neerlandeses, e o custo de se transportar mercadorias
por água chegava a ser um décimo do que por terra. A longa experiência
na pesca do arenque tida pelos holandeses no Mar do Norte serviu como
uma mão na roda nessa hora.
O
fato de que essa terra recuperada pelos diques era tão difícil de ser
trabalhada, e requeria uma mão de obra especializada e capacitada,
impediu o domínio dos que nela trabalhavam por senhores feudais, como
aconteceu no resto da Europa. As propriedades rurais eram detidas quase
sempre por quem trabalhava nelas, ou no máximo por pequenos
proprietários que contratavam, a salários relativamente altos, alguém
para trabalhar nelas. A alta produtividade agrícola fez com que uma
grande parcela da população fosse liberada das atividades braçais e
passasse a se dedicar ao comércio e às finanças, provocando um êxodo
urbano que foi ainda maior nos Países Baixos que nos países vizinhos.
Vida nas cidades e salários altos
No
fim do século XVI, o grau de urbanização dos Países Baixos tinha subido
dos 10% de três séculos antes, um número praticamente equivalente ao
resto da Europa, para um índice que variava de 40 a 60% de sua população
local, uma estatística que ultrapassava até mesmo os lugares mais
desenvolvidos da Europa na época, como o norte da Itália e sua vizinha
(e antigo membro dos Países Baixos) Bélgica.
Diversos
fatores propiciaram isto. O elevado grau de conforto e higiene
existente nas cidades do país, em comparação com as do resto do
continente; o talento e vocação para o comércio, a grande especialização
dos seus profissionais e a quantidade de excedentes disponíveis, fruto
do alto nível de sua produção agrícola e da abundância de produtos que
chegavam de todas as partes do mundo em seus portos.
Boa
parte da população passou a se dedicar à construção de barcos e outras
atividades industriais (ou pré-industriais, para ser mais preciso). Os
salários aumentaram cada vez mais, a ponto de que, no século XVI, quase
metade de toda a força de trabalho dos Países Baixos era formada por
trabalhadores assalariados, e essas relações entre contratante e
contratado eram totalmente distintas do resto do continente, com
diversos aspectos que consideraríamos modernos, como discussões
salariais formais, com base em salários diários, semanais ou mensais, e
até mesmo equipes que recrutavam trabalhadores para ofícios específicos.
Desenvolveu-se também um mercado de capital que tinha como
característica básica o fato de que um grande número de participantes de
capital modesto tinham acesso a um crédito de longo prazo a juros
pequenos.
Enquanto
boa parte dos agricultores europeus ainda produzia para a própria
subsistência ou para a do seu senhor, cerca de 85 a 90% de tudo que era
produzido pelos holandeses era destinado ao mercado, não só local, mas
externo. Como resultado óbvio, os “senhores” locais e governantes
passaram a perder importância para os detentores de poder mercantil.
E
embora, como em todo o resto do mundo, o comércio do país ainda
sofresse com taxas e impostos pagos em todo tipo de transação comercial,
as barreiras impostas aos empreendedores eram significativamente
menores do que no resto da Europa.
Da
mesma maneira, os direitos absolutos e exclusivos a uma propriedade de
terra eram incomparáveis ao resto do continente, protegidos pelas
autoridades locais de uma maneira que nunca tinha sido vista antes,
especialmente a partir do século XIV. A proteção se estendia tanto a
proprietários de terra contra locatários inadimplentes quanto
compradores cujo contrato não fosse seguido à risca por quem lhes tinha
vendido uma propriedade, e era aplicada tanto a poderosos quanto aos
mais humildes. Havia um interesse claro em se manter um equilíbrio entre
todas as instituições e setores da sociedade.
Em
suma, foi uma sociedade forçada a se organizar por conta própria, na
ausência de um poder autocrático que insistisse em impor à população
local leis arbitrárias.
República dos Sete Países Baixos Unidos
Apesar
disso, os Países Baixos ainda faziam parte do grande império dos
Habsburgo, embora tivessem sempre sido preservados das decisões centrais
por fazerem parte de um condado local.
Em
1555, a Casa dos Habsburgo se dividiu entre duas facções, uma
austro-alemã, e outra espanhola, e coube aos Países Baixos ficar sob o
domínio do espanhol Filipe II. Diante das medidas ferrenhas contra a
Reforma Protestante do monarca ibérico, a população local,
majoritariamente calvinista, sentiu finalmente o peso de uma medida
autocrática imposta por um governante opressor, e, naturalmente, se
revoltou.
Durante
pouco mais de trinta anos os holandeses suportaram o jugo de seus
dominadores católicos, até que em 1588 foi fundada a República dos Sete
Países Baixos Unidos, enquanto a parte Sul, basicamente a atual Bélgica,
continuou dominada pela Espanha até ser sucessivamente conquistada pela
Áustria e pela França.
Adam
Smith definiu a República dos Países Baixos como “o exemplo primordial
de uma sociedade puramente comercial”. Ele destacou o fato de país obter
"não só toda a sua riqueza, mas boa parte de sua subsistência
necessária, do comércio exterior”. Para ele, a Holanda era,
"proporcionalmente ao tamanho de seu território e ao número de seus
habitantes, de longe o país mais rico da Europa, (...) com a maior
parcela no comércio de transporte da Europa”.
Falando
da segunda metade do século XVIII, ele ainda ressaltava a importância
dos Países Baixos no comércio europeu, estimulados pelo fato de que
baixas taxas de juros deixavam que a burguesia local não deixasse seu
dinheiro parado, e investisse-o em empreitadas mercantis: “Lá é fora de
moda não ser um homem de negócios. A necessidade fez com que todos os
homens se tornassem um, e, assim como em todos os lugares, são os
costumes que regulam a moda”.
Para
ele, a forma republicana de governo era a principal base da grandeza
atual da Holanda: “os proprietários de grandes capitais, as grandes
famílias de comerciantes, costumam ter na administração desse governo ou
uma participação direta ou uma influência direta. Em nome do respeito e
da autoridade que essa situação lhes propicia, dispõem-se a viver num
país em que seu capital lhes gera lucros menores, se eles mesmos o
investem, e juros menores, se eles mesmos o emprestam; num país, além
disso, no qual o rendimento bastante módico que retiram de seu capital
lhes permitirá comprar uma quantidade de artigos necessários e úteis à
vida muito menor do que seria possível comprar em qualquer região da
Europa. Apesar de todas essas desvantagens, a residência dessas pessoas
ricas necessariamente mantêm no país um certo grau de atividade”.
Bolsa de Valores
Com
a independência, o surgimento da Companhia das Índias Orientais, e o
desenvolvimento do comércio exterior dos Países Baixos com todo o mundo e
o seu domínio quase que total no comércio de especiarias, o capitalismo
mercantilista holandês trouxe consigo uma série de melhorias que
levaram o país avançar a um ritmo maior que o resto da Europa.
Em
1602 surgiu a Bolsa de Valores de Amsterdã, considerada a mais antiga
do mundo, fundamentada principalmente nas viagens para as terras
recém-descobertas, que eram financiadas por investidores que mitigavam o
risco dessas jornadas ao investir uma fração de seu capital nessas
empreitadas, colhendo o lucro dos sucessos.
As
especulações financeiras logo saíram do espectro das viagens marítimas e
passaram para o comércio de trigo, arenque, óleo de baleia, e até mesmo
tulipas. A Holanda até mesmo teve o primeiro crash da bolsa: no começo
da década de 1630, quando o preço do bulbo da tulipa estava tão
supervalorizado que uma quantidade cada vez maior de pessoas os comprava
antes mesmo que elas nascessem, dando como garantia suas casas,
propriedades e indústrias, na esperança de obter um lucro maior. Não só
as tulipas eram sobrevalorizadas. As ações da Companhia das Índias
chegaram a valer o equivalente a atuais 7,9 trilhões de dólares, um
valor cinco vezes maior que o PIB do Brasil em 2020, que foi de US$ 1,42
trilhão.
Mas
em 1637, depois de anos em que famílias de classe média e até mesmo
pobres tinham se empolgado com os preços crescentes das tulipas e
resolvido investir no preço da commodity, veio a dúvida sobre esse
aumento que nunca chegava, deixando milhares na miséria e outros tantos
perdendo suas fortunas. Em 1609 foi criado também o Banco de Amsterdã, o
primeiro “Banco Central” nos modernos atuais, que introduziu o conceito
de depósitos bancários como forma de pagamento. O crash também motivou
toda uma série de medidas de proteção aos investidores e credores,
muitas das quais permanecem conosco até hoje.
Ainda
assim, a sociedade neerlandesa era uma das mais igualitárias do mundo,
talvez influenciada pela mentalidade calvinista além de toda a questão
histórica e sócio-política. Ainda que não fosse difícil de se
diferenciar a casa de um banqueiro da de um pescador às margens de um
canal em Amsterdam, todos dispunham das mesmas benesses e de um nível de
vida relativamente alto, perante o resto não só do mundo, como até
mesmo da Europa, e dos mesmos direitos perante à lei e à sociedade. As
principais cidades do país, como Amsterdã, Roterdã, Haia, que já eram um
exemplo de civilização e higiene diante da realidade assustadora
europeia nos séculos anteriores, agora tinham se tornado praticamente
cidades-modelo.
Como
nada dura para sempre, a Revolução Francesa, as Guerras Napoleônicas, e
a ascensão da Inglaterra como potência suprema mundial, acabaram por
reduzir gradualmente os Países Baixos à posição de um país coadjuvante,
se tanto. Ainda assim, a herança que esse período legou ao país é
enorme, especialmente na mentalidade da população, que conseguiu sair
praticamente ilesa de diversas crises ao longo dos últimos séculos,
especialmente graças à sua capacidade de se manter relativamente frugal,
sabendo quando apertar o cinto e como controlar seus gastos. E, acima
de tudo, por apostarem na liberdades econômica e civil e na força do
capitalismo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário