É hora de combater as falácias sobre o setor que mais se destaca na economia nacional. Reportagem de Branca Nunes, publicada pela Oeste:
Um
misto de preconceito, desinformação e má vontade. É esse coquetel que
deforma o agronegócio aos olhos de boa parte dos brasileiros. Para
combater essas lendas urbanas — ou lendas rurais —, surgem novas
publicações, sites e associações que procuram mostrar o rosto real de um
setor que todos os anos brinda o país com números crescentemente
animadores. É o caso das Mães do Agro, grupo formado por agricultoras
que decidiram agir depois de constatar, por exemplo, que os livros
didáticos usados por seus filhos responsabilizavam o trabalhador do
campo pelo desmatamento e vinculavam o trabalho escravo à existência de
grandes propriedades rurais.
Nessa
onda, nasceu também o site Todos a Uma Só Voz, lançado em 23 de
fevereiro deste ano. “Nosso objetivo é conversar com todos aqueles que
compõem a extensa cadeia produtiva do agro, desde a dona de casa até o
produtor rural, passando pelas indústrias, supermercados, feirantes,
donos de restaurante etc.”, resumiu Ricardo Nicodemos, coordenador do
movimento e vice-presidente executivo da Associação Brasileira de
Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA). “É surpreendente o número de
pessoas que desconhecem o universo do agronegócio. Recentemente,
perguntaram a crianças onde era feito o leite de caixinha que elas
bebiam. A resposta foi: ‘No supermercado’.” Uma das seções do site
aborda justamente “os mitos e verdades do agro”. Lá estão respostas a
perguntas como “O boi é responsável pelo aquecimento global?”. Ou: “Os
frangos são cheios de antibióticos?”.
Também
é esse o tema do livro Agricultura: Fatos e Mitos — Fundamentos para um
Debate Racional sobre o Agro Brasileiro, escrito pelos
engenheiros-agrônomos Xico Graziano, professor da FGV, Décio Luiz
Gazzoni, pesquisador da Embrapa, e Maria Thereza Pedroso, também
pesquisadora da Embrapa e ex-assessora técnica da liderança do PT na
Câmara dos Deputados. “Existe uma elite da elite que não precisa se
preocupar com dinheiro e não se importa com questões humanitárias”,
observou Graziano. “Um pessoal que curte o retrógrado, que acha bacana
produzir o próprio alimento, como se isso fosse viável para a maioria da
população. Avançamos tanto que eles querem viver na Idade Média.”
Graziano
salienta que nada disso tem a ver com ideologias, mas com crenças que
incluem a demonização dos transgênicos, dos agrotóxicos e de tudo aquilo
que é considerado — equivocadamente — o oposto da agricultura orgânica e
familiar. “Os agrotóxicos não aparecem entre as maiores causas de
câncer, segundo a OMS, e em nenhum lugar do mundo relatam-se problemas
de saúde relacionados aos transgênicos”, desmitificou Graziano.
A seguir, Oeste lista cinco grandes mentiras acerca do agronegócio.
1. O produtor rural é quem mais desmata o meio ambiente
O
Brasil é hoje o país com a maior quantidade de áreas preservadas. Elas
ocupam quase 564 milhões de hectares e cobrem 66,3% do território
nacional. Desse total, 10,4% são unidades de conservação; 13,8%, terras
indígenas; e 16,5%, as chamadas terras devolutas e não cadastradas.
Outros 25,6% — ou seja, um quarto do país — estão em propriedades rurais
privadas. “É como se existissem miniparques nacionais dentro de cada
fazenda”, explicou Evaristo de Miranda, chefe-geral da Embrapa
Territorial, um dos maiores conhecedores da preservação e da
sustentabilidade da produção agropecuária nacional.
Em
média, os produtores rurais brasileiros preservam 50% de sua
propriedade — a porcentagem, determinada por lei, varia de acordo com o
Estado: em São Paulo, por exemplo, são 20%; na Amazônia, 80%. Isso não
ocorre em nenhum outro lugar do planeta.
“Os
agricultores dedicam parte significativa de seu patrimônio pessoal para
a preservação do meio ambiente sem receber nada por isso”, observou
Miranda. “Gastam recursos financeiros próprios para manter essas áreas
preservadas e, apesar de tudo isso, não param de ser criticados. Se lá
ocorrer uma queimada, se alguém cortar uma árvore ou se entrar gado numa
área de preservação permanente, mesmo quando o dono da terra não tem
absolutamente nada a ver com isso, ele será responsabilizado e multado.”
Segundo
cálculos da Embrapa Territorial baseados no preço da terra em cada
município, os proprietários rurais imobilizaram cerca de R$ 3,5 trilhões
de seu patrimônio pessoal e fundiário em benefício do meio ambiente em
áreas dedicadas à preservação da vegetação nativa. Para manterem e
conservarem essas áreas e sua vegetação, esses produtores têm gastos —
pagos do próprio bolso — superiores a R$ 15 bilhões por ano em aceiros,
cercas, vigilância, plantios etc.
“Os
fazendeiros dos Estados Unidos, antes e hoje, são considerados
‘desbravadores’ do território, chamados de ‘pioneiros da pátria’”,
escreveu Xico Graziano. “Nunca, jamais, foram os produtores rurais
norte-americanos considerados ‘criminosos ambientais’.”
2. O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo
Embora
em rankings que levam em consideração a quantidade total de agrotóxicos
utilizada o Brasil apareça entre os primeiros colocados, a situação
muda completamente quando o critério é o volume de defensivos agrícolas
por hectare. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura (FAO), o país está na 44ª posição, com
consumo relativo de 4,31 quilos de pesticidas por hectare cultivado em
2016.
Entre
os países europeus que utilizam mais defensivos que o Brasil, aparecem
Holanda (9,38 kg/ha), Bélgica (6,89 kg/ha), Itália (6,66 kg/ha),
Montenegro (6,43 kg/ha), Irlanda (5,78 kg/ha), Portugal (5,63 kg/ha),
Suíça (5,07 kg/ha) e Eslovênia (4,86 kg/ha). O banco de dados da FAO
fornece estatísticas de 245 países desde 1961.
Explica-se
uma das razões de o consumo total de defensivos no Brasil ser alto pela
ocorrência de duas e até três safras ao ano, enquanto em boa parte dos
países há apenas uma safra ou no máximo duas. Além disso, em países de
clima frio, as pragas são inativadas nos períodos de inverno intenso.
3. Carne faz mal à saúde
Segundo
a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 29,3 kg de carne bovina
foram consumidos por habitante em 2020. “De acordo com o artigo “Beef:
nutrition facts and potential health benefits”, do portal Nutrition
Advance, uma porção de 170 gramas de carne bovina cozida, cuja
composição é 80% de carne magra e 20% de gordura, fornece 36,5g de
proteína ao corpo”, relatou uma reportagem do Todos a Uma Só Voz. A
mesma porção contém 26% da quantidade de ferro que um ser humano precisa
ingerir por dia, além de 100% da vitamina B12 necessária.
Já
a carne de porco, a mais consumida no mundo segundo a FAO, é a melhor
fonte de vitaminas do complexo B, ferro, potássio e zinco. Ainda
conforme o Todos a Uma Só Voz, os avanços tecnológicos empregados pelos
suinocultores brasileiros fizeram essa carne perder 10% de colesterol,
14% de calorias e 31% da gordura. A lenda segundo a qual a carne suína
transmitiria cisticercose, entre outras doenças, também é mito. “Hoje,
com o controle do sistema de criação, da alimentação e da água fornecida
aos animais, é praticamente nulo o risco de o animal ter contato com
essas doenças”, disse a reportagem. “Além disso, as carcaças são
inspecionadas individualmente no frigorífico [selo do SIF – Serviço de
Inspeção Federal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
Mapa] com o objetivo de identificar se existem animais contaminados.”
4. O agronegócio está nas mãos de poucos
Com
mais de 5 milhões de propriedades rurais, a agronegócio brasileiro é um
dos principais pilares da economia, representando 23% do PIB nacional.
Em 2020, o faturamento foi superior a R$ 870 bilhões e movimentou cerca
de US$ 100 bilhões em exportação por ano.
Em
31 de dezembro de 2019, a agropecuária brasileira empregava 1,48 milhão
de trabalhadores. Um ano depois, eram 1,6 milhão. O resultado positivo
ocorreu num ano em que 8 milhões de empregos formais (17% do total)
foram destruídos pelas medidas de restrição impostas para conter a
pandemia de coronavírus.
5. Quanto mais cresce a produção de alimentos, maior é o desmatamento
De
importador de alimentos na década de 1970, o Brasil se tornou um dos
grandes exportadores — além de atender amplamente à demanda interna.
Como mostrou a reportagem “O extraordinário momento do agronegócio”,
publicada na edição 22 da Revista Oeste, nos últimos 50 anos a produção
de alimentos subiu 500%, com aumento de apenas 60% de área plantada. Em
1975, por exemplo, quando as plantações de grãos ocupavam 40 milhões de
hectares, a produção não atingia 40 milhões de toneladas. Hoje, a área
de cultivo chega a 65 milhões de hectares e a produção foi multiplicada
por seis. Nas últimas três décadas, todo ano diminui a área de pastagens
no Brasil e aumenta o rebanho, graças aos ganhos de produtividade.
O
Brasil produz anualmente 240 milhões de toneladas de grãos, 41,5
milhões de toneladas de frutas, 665 milhões de toneladas de
cana-de-açúcar, 33,6 bilhões de litros de leite, 40 milhões de toneladas
de mel e 4 bilhões de dúzias de ovos. Em 2019, foram abatidos 40
milhões de bovinos, 37 milhões de suínos e 6 bilhões de aves. Apesar dos
números surpreendentes, apenas 7,6% do território nacional é cultivado —
enquanto países da Europa passam o arado em mais de 50% de suas terras.
Isso sem considerar as pastagens. E mantemos 66,3% da vegetação nativa.
Não
é só a Embrapa. A ONU também atesta: o Brasil tem a maior rede de áreas
terrestres protegidas do planeta. Comparado aos grandes países, com
mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil é de longe o que
mais protege seus ecossistemas: 30% do território, contra uma média de
10% naqueles países. O relatório de 2016 do Programa de Meio Ambiente da
ONU sobre as áreas protegidas do planeta, em sua página 32, afirma:
“The most extensive coverage achieved at a regional level is for Latin
America and the Caribbean, where 4.85 million km2 (24%) of land is
protected. Half (2.47 million km2) of the entire region’s protected land
is in Brazil, making it the largest national terrestrial protected area
network in the world” [A cobertura mais extensa alcançada em nível
regional está na América Latina e no Caribe, onde 4,85 milhões de
quilômetros quadrados (24%) das terras estão protegidos. Metade (2,47
milhões de quilômetros quadrados) de toda a área protegida da região
está no Brasil, tornando-a a maior rede nacional de áreas protegidas
terrestres do mundo].
Todos
esses tópicos, bastante complexos, serão abordados de forma detalhada
em reportagens futuras da Revista Oeste. De acordo com o IBGE, em 2020 o
PIB brasileiro recuou 4,1%. O único setor que apresentou resultado
positivo foi a agropecuária. Em vez de encolher, a produção do campo
cresceu 2% — enquanto isso, registrou-se queda na indústria (-3,5%) e
nos serviços (-4,5%). Assim como em todos os setores, existem diversas
questões no agronegócio que precisam ser superadas. Apesar disso, os
números positivos mostram que os benefícios do agro ultrapassam dezenas
de vezes qualquer um de seus problemas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI





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