Para o professor Bolívar Lamounier - em artigo publicado pelo Estadão -, temos pela primeira vez uma ótima chance de liquidar o patrimonialismo. Que assim seja:
No século 19, a democracia liberal apenas engatinhava, mas sua morte já era dada como iminente. Um caso de mortalidade infantil.
Nunca é demais lembrar que a democracia liberal (ou representativa)
só começa a se configurar no século 19. Cento e cinquenta anos atrás,
com a parcial exceção do Reino Unido e dos Estados Unidos, o mundo se
dividia em países desabridamente autoritários e em embriões de
democracia. Estes últimos existiam em sociedades oligárquicas, nas quais
o jogo político se limitava a pequenos grupos de elite – proprietários e
“notáveis” –, a uma minúscula parcela da população habilitada a votar e
a uma vasta maioria analfabeta, empregada em atividades rurais e
completamente excluída da vida pública. Tomando a nuvem por Juno, os
críticos do liberalismo julgavam estar vendo um cemitério, quando, na
verdade, se tratava do início de uma construção cheia de opções e
possibilidades.
Nas primeiras décadas do século 20, na esteira da Revolução Russa e
da ascensão do fascismo, passou-se a entender que a causa mortis da
democracia seria sua congênita debilidade. Anêmica, ela não teria como
resistir à maré montante dos embates entre capital e trabalho. A 2.ª
Guerra Mundial liquidou o fascismo como forma de organização política,
mas fortaleceu o comunismo soviético, dando ensejo a um terceiro
prognóstico para o fim da democracia. A radicalização ideológica entre
direita e esquerda, engendrada internamente em cada país e turbinada de
fora para dentro pela guerra fria entre Estados Unidos e URSS, seria a
nova causa mortis. Esse prognóstico tinha mais substância, basta lembrar
as tragédias a que sucumbimos, Brasil, Argentina e Chile, aqui mesmo,
no Cone Sul latino-americano. Fato é, no entanto, que a democracia
representativa, bem ou mal, ressuscitou. Atualmente, os piores casos de
antiliberalismo político devem-se muito mais à propensão tirânica de
certos líderes – Hugo Chávez e Nicolás Maduro, na Venezuela; Viktor
Orbán, na Hungria; Recep Erdogan, na Turquia – do que a causas
supostamente universais.
No presente momento, com o mundo engolfado na monstruosa pandemia de
covid-19, ninguém se surpreenderá com o reaparecimento dessa antiga
discussão. Agora, já mais que centenária, é plausível considerar que a
democracia liberal integra um grupo de altíssimo risco. Não poucos
autores já quebram a cabeça em busca de um título, esfalfando-se para
não recair no consagrado Crônica de uma Morte Anunciada. O mais invocado
é uma reversão da interdependência mundial, cada país se ensimesmando,
cuidando mais de seus problemas internos e alterando o papel do Estado
na economia. Em recente entrevista ao Washington Post, Henry Kissinger
insistiu na perda de hegemonia dos Estados Unidos, vale dizer, na
redução do poder relativo de seu país em relação às outras grandes
potências – em relação à China, notadamente –, uma vez que isso
significaria a debilitação do ideário liberal perante o regime
ferreamente totalitário de Xi Jinping.
Parece-me fora de dúvida que o mundo pós-pandêmico passará por
grandes transformações, mas não necessariamente desafios que ponham em
xeque a própria sobrevivência da ordem liberal-democrática. Os autores
que cogitam de uma forte presença do Estado e certa ressurreição do
nacionalismo precisam se lembrar de que nenhuma democracia e nenhum
sistema político jamais se configurou como um embate entre massas
“equipotentes”, iguais em peso e massa, como bolas numa mesa de bilhar.
Entre o tosco clientelismo da política local (quem nomeia a professora
rural, o agente dos correios, etc.) e o topo, no qual grandes
organizações públicas e privadas fixam prioridades e executam as medidas
necessárias à acumulação de capital, a distância é imensa. No Brasil,
por exemplo, minha intuição é de que tal estrutura permanecerá, mas pela
primeira vez teremos uma ótima chance de liquidar o patrimonialismo (o
sistema dos “amigos do rei”) e alterar decisivamente a estrutura do
investimento público. Em vez de desperdiçar recursos de maneira
criminosa – na construção de estádios, por exemplo –, haveremos de
entender que nossas prioridades “acumulativas” terão que ver com ciência
e tecnologia, biotecnologia, saneamento básico, ampliação dos serviços
de saúde e, naturalmente, educação básica. Chance, também, de levarmos a
sério o imperativo da reforma política. No quadro dessa reorientação, a
transparência e as divergências próprias da democracia serão uma grande
alavanca, e não um obstáculo, como cinicamente afirmam os pregoeiros do
autoritarismo.
Muitas vezes o barato sai caro. Atentando apenas para os ínfimos
custos de produção chineses, o mundo deixou a cargo daquele país
praticamente toda a produção de insumos médicos. Se os governantes dos
países democráticos tiverem alguma coisa entre as duas orelhas, tratarão
de alterar o quanto antes esse modelo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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