O show de Lady Gaga e outras celebridades (como qualquer evento desse
tipo) reforçou uma única mensagem, que é a do "fique em casa". Guilherme
Fiuza, colunista da Gazeta:
A cantora Lady Gaga fez uma parceria com a Organização Mundial da
Saúde para a realização de um show virtual com o slogan "Juntos em
casa". Foi uma ação para reforçar a mensagem do isolamento social e para
arrecadar fundos para populações carentes atingidas pela epidemia. Na
véspera do seu agradecimento à cantora pela iniciativa, o diretor geral
da OMS, Tedros Adhanom, afirmou que o isolamento social total
(horizontal) é uma medida que não serve necessariamente para todas as
regiões do mundo.
A OMS nunca tinha sido tão explícita na relativização do lockdown.
Algumas semanas antes, Tedros fizera referência aos problemas da medida
para os que precisam circular diariamente para cavar sua subsistência.
Os defensores de medidas de circulação controlada – lockdown vertical –
citaram a fala do diretor da OMS para reforçar seus argumentos, mas a
entidade desautorizou essa interpretação – indicando que o problema dos
trabalhadores informais deveria ser compensado emergencialmente pelos
governos.
O novo "statement" de Tedros Adhanom sobre o assunto, porém, veio
modificar a diretriz do isolamento social em favor da sua flexibilização
– e dessa vez a entidade não desautorizou os entendimentos nesse
sentido. Ou seja: a OMS agora afirma que o distanciamento total não é a
medida recomendável para todas as regiões – devendo ser flexível
naquelas (especialmente nos países emergentes) onde, por exemplo,
crianças e adolescentes ficarão sem sua refeição diária se não puderem
ir à escola. Ou onde haja um contingente significativo de pessoas
dependentes de circulação física para obter o seu "pão diário" (palavras
de Tedros).
As ressalvas ao lockdown estão, naturalmente, inseridas no contexto
das medidas de higiene e distanciamento pessoal, não aglomeração e
isolamento dos grupos de risco – essas incondicionais e intocáveis. Ou
seja: dependendo das condições sociais e da evolução local da epidemia, a
OMS diz que o confinamento não só pode como deve ser parcial.
Até recentemente, quem propusesse esse tipo de flexibilização do
confinamento tendia a ser tratado como inconsequente, no mínimo. Em boa
medida ainda tem sido assim. Pode-se dizer que o tabu em torno do "fique
em casa" radical e inegociável provém da própria postura anterior da
OMS – cuja mensagem estabelecia o lockdown total como a única diretriz
cientificamente responsável. Esse rigor absoluto foi sedimentado com a
adesão das populações assustadas – e, portanto, determinadas à
tolerância zero com riscos – e também de governantes locais, divididos
entre os realmente comprometidos com a segurança da população e os que
viram aí uma oportunidade de exercício autoritário do poder (e,
eventualmente, de manipulação orçamentária).
O show de Lady Gaga e outras celebridades (como qualquer evento desse
tipo) reforçou uma única mensagem, que é a do "fique em casa" –
naturalmente sem espaço para esclarecer a flexibilização proposta pela
OMS. Essa flexibilização é necessária justamente para as populações
socialmente vulneráveis – aquelas às quais a campanha dos artistas
pretende ajudar. Ou seja: a boa arrecadação do evento "Juntos em casa"
possivelmente não irá suprir nem uma fração das perdas provocadas pelo
confinamento total (e a decorrente asfixia social) que o show ajudou a
perpetuar.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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