A porta famosa da casa número 10 de Downing Street pode revelar
surpresas políticas ou se abrir para desastres. O novo primeiro-ministro
pode ter isso tudo. Artigo de Vilma Gryzinski:
“Eu sou chamado repetidamente e insidiosamente de primeiro e único ministro.”
Ah, imaginem o que é entrar num lugar que já foi ocupado por um homem
capaz de uma reclamação assim. E isso muito antes de Winston Churchill,
o maior de todos os frasistas.
A frase é de Robert Walpole, o homem que efetivamente se tornou o
primeiro “primeiro ministro” , entre 1721 e 1742. O cargo era Primeiro
Lorde do Tesouro, designação que continua até hoje a fazer parte do
título de primeiro-ministro.
Walpole recusou o presente pessoal feito pelo rei George III, as três
casas da Rua Downing. Só foi morar lá sob a condição de que voltassem
ao Tesouro público depois de sua morte.
Quando fizer seu discurso de posse na frente da porta do Número Dez,
como os ingleses resumem o endereço famoso de tijolinhos pretos
(pintados dessa cor para manter o visual coberto de fuligem do passado),
Boris Johnson terá sobre os ombros 300 anos de pronunciamentos
célebres, tiradas brilhantes, carreiras fracassadas, duas guerras
mundiais, a ascensão e o fim do império.
E um bocado de fofocas. As três casas, mais uma mansão que dava para o
Parque St. James, foram unificadas num labirinto de corredores,
escritórios onde trabalham os funcionários permanentes do serviço
público e os nomeados políticos, salões muito mais grandiosos do que
aparece normalmente nas fotos e um jardim torpedeado pelo IRA quando
John Major era primeiro-ministro.
Para quem acha Brasília sufocante pela proximidade entre os
estamentos do poder e seus agregados não sabe o que é Downing Street.
De um lado do número 10 (mais o 11 e o 12), fica a casa ocupada pelo
líder do partido majoritário. Do outro, o do ministro do Tesouro. A
residência do primeiro-ministro pega um pedaço do primeiro andar do
número 10 e do 12.
Às vezes, trocam. David Cameron, com três filhos pequenos, ficou na
residência do ministro do Tesouro, com acomodações maiores. Tony Blair
também fez uma troca assim.
Margaret Thatcher, que era uma anfitriã preocupada com todos os
detalhes, das flores aos drinques, interrompeu certa vez uma recepção a
associações acadêmicas conservadoras.
Embalados pelo ambiente e a bebida farta, parlamentares do partido do
governo ignoraram o sino avisando que era hora de atravessar o parque e
votar numa sessão da Câmara dos Comuns. Foram rudemente chamados à
realidade: “Todos os parlamentares conservadores façam a bondade de se
retirar imediatamente”, disse ela.
“Nós vamos continuar aqui e aproveitar.”
Os parlamentares desceram correndo a famosa escadaria central, com a
parede pintada de amarelo vivo para destacar os retratos de todos os
primeiros-ministros, desde Robert Walpole.
Nesse vespeiro em que nem a mais completa fleuma inglesa consegue
separar vida particular e social da tenda dominante da política, Boris
Johnson vai introduzir um elemento extra: a namorada, Carrie Symonds, 24
anos mais jovem e primeira companheira não casada a morar em Downing
Street.
Carrie tem temperamento forte e quase entornou o caldo de Boris com
uma briga de casal gravada por vizinhos esquerdistas que chamaram a
polícia e passaram o áudio para o Guardian.
ARMADILHAS
Com uma disciplina que os tolos acreditam ser incapaz de ter, Boris
Johnson simplesmente não respondeu a nenhuma pergunta, dúvida ou
abertura sobre sua vida particular durante a campanha que fez junto ao
eleitorado do Partido Conservador.
Incrivelmente, escapou de todas as armadilhas enquanto os
influenciadores de esquerda mais do que insinuavam que ele teria um
histórico de violência doméstica. Na briga com Carrie, é ela quem grita.
Como ex-assessora de imprensa do partido, ela tem experiência em
lidar com crises de imagem, mas quase piorou ainda mais a situação ao
“plantar” uma foto em que o casal aparecia conversando idilicamente num
cenário campestre.
A armação foi amplamente ridicularizada, Todo o episódio teve pouco
peso para os membros registrados do Partido Conservador – 160 mil -, na
maioria focados numa única coisa: Boris Johnson como o candidato
realmente comprometido em fazer a separação entre a Grã-Bretanha e a
União Europeia.
Todo o establishment – no lugar onde esta palavra nasceu como
sinônimo de classes dominantes -, incluindo uma ala do Partido
Conservador, trabalha 24 horas por dia contra o Brexit.
O Parlamento já bloqueou a opção “saída a seco”, ou seja, sem acordo,
e a União Europeia não vai negociar de maneira alguma mudanças no
malfadado entendimento que acabou selando o desastroso fim do governo de
Theresa May.
Boris certamente tem um plano, embora um sarcástico colunista do
Telegraph tenha dito que a época em que governos tinham planos parece
ter ficado para trás.
E certamente tem uma boa noção do peso histórico acumulado pelo
Brexit, os três anos perdidos por Theresa May e a revolta dos eleitores,
traídos pelo não cumprimento do referendo ou irados com uma saída que
não desejam.
Terá as condições objetivas e a capacidade política de enfrentar isso tudo?
Diante da personalidade assombrosa de Winston Churchill, na narrativa
popular ficou completamente apagada a figura de Clement Attlee, o líder
trabalhista que participava como vice-primeiro-ministro do governo de
união nacional durante a II Guerra – e que o derrotaria na inacreditável
eleição de 1945.
Uma ministra trabalhista, Ellen Wilkinson, comparou assim os dois estilos:
“Quando o senhor Attlee preside o gabinete na ausência do
primeiro-ministro, o gabinete se reúne na hora marcada, cumpre
sistematicamente a agenda, toma as decisões necessárias e vai para casa
depois de três ou quatro horas.”
“Quando o senhor Churchill preside, nunca chegamos até a agenda e não
decidimos nada. Mas vamos para casa à meia-noite, conscientes de ter
participado de um momento histórico.”
Ah, se Boris, que já teve a ousadia de escrever um livro considerado
bom sobre Churchill, conseguisse um centésimo dessa centelha.
Larry, o atual felino de uma longa sucessão de caçadores oficiais de
ratos de Downing Street, estará olhando tudo o que Boris fizer. E o
resto do Reino. Poucos, como ele, tiveram a chance de abrir a porta de
carvalho negro com a aldrava de leão e entrar para a história.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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