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| Piratas de alto mar: comandos iranianos se preparando para atacar petroleiro. |
O leão hoje desdentado, que durante 150 anos dominou a região, tem que
engolir ato de pirataria contra dois petroleiros; agora, 17 'espiões'
irão para forca. Coluna de Vilma Gryzinski:
Os vídeos liberados pelo governo iraniano são inacreditáveis. Forças
especiais, de balaclava e gritando Allahu Akbar, descem de rapel de um
helicóptero e tomam o alvo.
Apesar da encenação, não foi nenhum ato heroico. Os comandos da
Guarda Revolucionária Islâmica tomaram um navio comercial, o petroleiro
Stena Impero, sem proteção nem defesa.
Os momentos dramáticos foram registrados em conversas por rádio.
Impotente, à distância, o comandante de uma fragata de guerra da
Marinha Real apela, educadamente ao oficial iraniano a bordo de uma das
lanchas usadas para o ato de pirataria: “Por favor, confirmem que não
pretendem infringir a lei internacional e abordar ilegalmente o MV Stena
Impero”.
Todos os sistemas de localização do petroleiro foram desligados
minutos depois. Um segundo navio sob bandeira britânica foi desviado
praticamente ao mesmo tempo.
Os tripulantes estavam “bem”, informou o regime iraniano.
Só poderiam estar. O objetivo do regime é esticar mais um pouco a
corda já altamente tensionada que mantém o estado de alta ansiedade no
Golfo Pérsico, o ponto fulcral do trânsito marítimo de petróleo.
Quem não tem um futuro nada brilhante são os 17 “espiões da CIA”,
iranianos que trabalhavam em setores militares e foram presos sob a
acusação de passar informações para o inimigo. Alguns já foram
condenados a pena de morte.
Acuados pelas sanções que o governo Trump aumentou depois de tirar os
Estados Unidos do acordo nuclear, os iranianos querem mostrar que seus
oponentes também terão que pagar um preço.
Como bons e ousados jogadores, escolheram o momento certo para atacar
os ingleses: a transição entra o desmilinguido governo de Theresa May e
a ascensão de seu substituto, Boris Johnson, a ser formalizada amanhã.
May nem estava mais indo a Downing Street, o chanceler Jeremy Hunt
estava em campanha na tentativa de ganhar de Boris a liderança do
Partido Conservador e do governo e até a estrutura permanente de defesa
refletia os sinais inevitáveis da falta de liderança.
Os principais integrantes do governo que sai têm horror agora pouco
disfarçado ao governo Trump e recusaram a proposta americana de fazer um
esquema conjunto de proteção ao trânsito dos petroleiros que garantem o
funcionamento de metade do mundo.
Ferraram-se. As decisões frouxas ou erradas redundaram em humilhação
nacional: não foi a bandeira de May ou de Hunt a baixada nos navios
pirateados, substituída pela do Irã, mas a do Reino Unido da
Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.
Depois que acontece, não dá para fingir engrossar o tom como fez Hunt, falar em sanções e outros blablablás.
Ou tentavam recuperar os navios na marra – o que o Reino hoje não tem
condições de fazer, ainda mais considerando-se que deflagraria uma
guerra – ou ficavam esperando o Irã magnanimamente liberar os
petroleiros.
COSTA DOS PIRATAS
Durante 150 anos, desde 1820 até o fim dos últimos resquícios
coloniais, em 1971, a Grã-Bretanha dominou o golfo, o gargalo marítimo
onde ficam os países árabes hoje independentes, convivendo
desarmoniosamente com o Irã, então chamado Pérsia.
Mesmo antes que a fabulosa quantidade de petróleo da região começasse
a jorrar, a posição estratégica para a navegação já provocava
encrencas.
Costa dos Piratas era como os ingleses chamavam a faixa litorânea. A
tribo Qassami controlava o Estreito de Hormuz, cobrando pedágio para a
travessia. Também pirateava um navio aqui e outro ali.
Entre 1815 e 1816, os tripulantes indianos de três navios do Império, com bandeira britânica, foram massacrados.
As tribos árabes não reconheciam os “idólatras” seguidores do
hinduísmo como súditos do trono britânico e reservavam a eles o castigo
previsto para quem não fosse das religiões monoteístas.
Uma força-tarefa da Marinha Real, com ingleses, sepaios indianos e
aliados locais, detonou, literalmente, a cidade costeira de Ras Al
Khaimah.
Os Qassimi sofreram cerca de mil baixas, contra quatro do lado dos
ingleses. Hoje Ras Al Khaimah é um dos sete milionários integrantes dos
Emirados Árabes Unidos.
O poderio imperial era exercido através do Residente Político, um
emissário baseado na Pérsia. A derrocada do Império Otomano, no começo
do século XX, valeu muitas décadas extras de presença britânica nos
protetorados do Golfo.
Os antigos protegidos, bilionários mas populacionalmente
insignificantes, hoje esperam dos Estados Unidos o escudo para as
ambições dos eternos rivais persas.
Donald Trump segue uma política que tem um padrão, embora seus opositores internos e externos digam que não: morde e assopra.
Quer forçar assim uma renegociação do acordo nuclear, com mais
garantias de que o regime islâmico não possa retomar o programa bélico.
As outras potências envolvidas no acordo não o abandonaram,
submetendo-se à chantagem iraniana de aumentar a quantidade e o grau de
urânio enriquecido.
Com a agressão iraniana aos dois petroleiros de bandeira britânica,
os outros países europeus precisam se decidir: aceitam a agressão, na
categoria de ato de guerra, ou descem do muro.
Usar navios-tanque como alvos foi uma das muitas barbaridades
ocorridas quando Irã e Iraque – este na condição de iniciador – travaram
uma guerra pavorosa de 1980 a 1988.
Num de seus fenomenais erros de cálculo, Saddam Hussein esperava que o
Irã retaliasse aos ataques contra seus petroleiros fechando o Estreito
de Ormuz e assim provocar a intervenção direta dos Estados Unidos.
O Irã estava fraco, ainda sob o efeito do caos da revolução islâmica,
havia um enorme apoio internacional assumido ou implícito ao Iraque.
Resistiu a um custo enorme em vidas.
O mesmo regime que foi tão brutalmente atacado organizou uma rede
clandestina de terrorismo, principalmente através de suas criaturas, os
xiitas libaneses do Hezbolá.
SOLO CONSPURCADO
Os crimes na sua conta vão desde as inúmeras intervenções no Líbano
até o atentado contra a Amia, a associação judaica na Argentina – acabam
de ser completados os 25 anos da atrocidade.
Diretamente ou por seus intermediários, o Irã matou muitos americanos
no Iraque, interferiu brutalmente para manter o regime sírio e detonou
todas os caminhos para um entendimento entre Israel e palestinos.
Agora, chantageia o mundo com o programa nuclear e sequestra petroleiros. Conta com as fragilidades políticas dos adversários.
Donald Trump, já mergulhado na campanha pela reeleição, não pode
restaurar uma presença militar maciça no Oriente Médio sem um grave
prejuízo político.
Vai fazendo a conta gotas. Primeiro, mais mil soldados no Iraque; agora, 500 para a Arábia Saudita.
Só para lembrar: o motivo principal alegado por um certo saudita
chamado Osama Bin Laden para colocar a Al Qaeda em pé de guerra depois
da saída russa do Afeganistão foi a presença de militares americanos
“conspurcando” o solo onde nasceu o Islã.
O fato de que estavam salvando a Arábia Saudita – e todo seu petróleo – de cair nas mãos do Iraque não contou.
Israel também está em tensão pré-eleitoral e na Grã-Bretanha o novo primeiro-ministro assumirá em condições nada tranquilas.
Boris Johnson, sob pressão contraditória do eleitorado conservador e
do establishment apavorado, tem que cumprir a promessa de fazer o Brexit
até 31 de outubro ou sucumbir logo no começo. Agora, tem a encrenca de
dois petroleiros sequestrados. E ainda precisa administrar como a
namorada vai se instalar no número 10 da Downing Street com o menor
escarcéu possível.
Os radicais do regime iraniano estão comemorando. Mostraram a
impotência do antigo império, assustaram todo mundo que precisa do
petróleo do Golfo e ainda vão ter uns enforcamentos celebratórios para
intimidar a massa.
É aí, claro, que mora o perigo.
Um regime iraniano triunfante não vai ficar calminho, contando as vitórias. Nem Trump vai deixar que fique.
Tendo cancelado um ataque retaliatório, ele não pode dar uma segunda
demonstração de fraqueza. Já viu qual foi o resultado da primeira.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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