"Vamos, pois, continuar a imaginar as mesmas coisas, mesmo que em
perfeito divórcio da realidade. Até porque aprender coisas novas implica
ter de aprender também palavras novas e conceitos diferentes, e a
preguiça é muita. Mais vale persistir no discurso antigo. Não dá
trabalho e não traz chatices. O resto é pouco importante. 2019 vai ser a
cara chapada de 2018". Texto irônico do professor Paulo Tunhas,
publicado no Observador:
É sempre a mesma coisa. Uma pessoa começa finalmente a habituar-se a
um ano, à custa de trabalho, paciência e algum sofrimento até, e, zás!, o
ano muda. Daqui a uns poucos dias temos um 2019 fresquinho e
espreitam-se as novidades. Novidades haverá, sem dúvida, boas e más, mas
aposto que 2019 será muito parecido com 2018. Sempre foi assim. O
passado está prenhe do futuro e o futuro guarda os traços familiares do
passado, para o perpetuar. Seguem-se alguns exemplos, mundiais e locais,
a título de ilustração desta verdade insofismável.
O fascismo continuará o seu avanço. Poderá mudar uma cara ou
outra, mas a essência, por detrás da aparente diversidade das suas
manifestações, permanecerá idêntica. A identidade encontra-se, de resto,
garantida à partida, já que ela é postulada por um acto de vontade e
não deduzida de factos empíricos. Bolsonaro cairá no esquecimento?
Outros aparecerão, pelo menos tão fascistas quanto ele. Provavelmente,
muito mais fascistas do que ele. E isso um pouco por todo o lado.
A espécie, no seu conjunto, perseverará no progresso em direcção ao aprimoramento moral.
Trata-se de um movimento estranhamente complementar do antecedente. O
fascismo avançará, mas, ao mesmo tempo, as nossas exigências morais, em
todos os domínios, tenderão a aumentar. Das alterações climáticas à
conduta sexual, passando pelo uso da linguagem, o coração da humanidade
falará com uma única voz, cada dia mais consciente e nítida. Guterres,
nas Nações Unidas, subirá ao púlpito as vezes que for preciso para, com
sagrada eloquência, nos instruir, e, para os mais distraídos viajantes
que liguem no carro a TSF, Fernando Alves cumprirá, com não menos
brilho, idêntica função.
A União Europeia vencerá, como sempre, todos os obstáculos.
Continuaremos, é verdade, a passar por momentos angustiantes, ditados
maioritariamente pelo avanço do fascismo, mas, em parte em resultado dos
progressos do Bem no coração humano, a União Europeia, lugar de eleição
desse mesmo Bem, saberá vencer todas as dificuldades que se lhe
coloquem. A bicicleta continuará a rolar a toda a velocidade. Um braço
ou uma perna perdidos aqui e ali não farão falta. Lembram-se do
cavaleiro negro do filme dos Monty Python? Não era esse género de coisas
que o demovia da sua ilustre missão. E quem era ele comparado com
Jean-Claude Juncker?
O governo de Portugal continuará a virar a página da austeridade.
Desde que, em tempos idos, espantámos o mundo com a singularidade e a
profundidade da nossa “via original para o socialismo”, não cessamos de
inovar teoricamente no que respeita aos processos de aprofundamento da
nossa felicidade colectiva. Menos do que uma originalidade acidental,
António Costa é o herdeiro de uma fecunda tradição e o preclaro Jeremy
Corbyn não se enganou em apontá-lo como exemplo para os povos. A página
da austeridade continuará a ser virada com afinco e proveito para todos
nós. Dificuldades? Há-as, sem dúvida, como golpes de vento que parecem
trazê-la de novo ao nosso olhar, os irritantes. Puro efeito de
superfície. O progresso é inexorável e realizado sem artifícios alguns
ou artimanhas duvidosas. Só criaturas com défice de atenção que não se
conseguem concentrar na leitura não se dão conta da evolução.
A direita teimará, inconsolável, no retorno aos anos da troika,
que chamou a Portugal e à qual jurou manter-nos indissociavelmente
ligados, numa política anti-patriótica. A direita é o contrário da
esquerda. Milita contra a felicidade e o progresso moral e acolhe com
indisfarçável gozo o ascenso do fascismo no mundo. Naturalmente, deseja o
mal sob as suas várias formas. Delicia-se no populismo, de que é
depositária exclusiva. Inventa continuamente problemas e dificuldades e
nega as óbvias soluções que se encontram já escritas no coração humano
com as letrinhas todas e que a esquerda sabe ler de olhos fechados. E o
pior é que o faz com esmero e método. Ah, se ao menos usasse esse seu
talento ao serviço do Bem! Mas nunca o usou no passado e não o usará
certamente no futuro.
Fomos os maiores, somos os maiores, seremos os maiores.
Marcelo Rebelo de Sousa lembrou-o em visita aos Estados Unidos: os
Estados Unidos são grandes, mas Portugal é maior. Provou-o dando uma
lição de história ao ignorante presidente daquele país de ignorantes,
com o qual nem sequer tirou uma selfie. Em 2019 continuaremos os
maiores. O que faremos, ninguém o sabe. Mas no campo da ciência e da
cultura, por exemplo, todas as possibilidades são reais. Uns dizem que
será o nosso teatro a espantar o mundo, outros o cinema, ouros ainda
sugerem a física nuclear. Os mais ambiciosos falam do rap. Não importa.
Alguma coisa será. Menos do que os maiores é que não podemos ser. Nunca
pudemos, e 2019 não saberá ser excepção.
Tudo isto é imaginário? Que mal faz? Apesar de tudo, como é bom de
ver, a ideia segundo a qual um novo ano anuncia por si mesmo novos
inícios é igualmente imaginária. Vamos, pois, continuar a imaginar as
mesmas coisas, mesmo que em perfeito divórcio da realidade. Até porque
aprender coisas novas implica ter de aprender também palavras novas e
conceitos diferentes, e a preguiça é muita. Mais vale persistir no
discurso antigo. Não dá trabalho e não traz chatices. O resto é pouco
importante. 2019 vai ser a cara chapada de 2018.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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