Por um instante, acreditei que haveria vida inteligente algures entre o
“feminismo” e o “machismo”. Já não acredito. Aliás, começo a não
acreditar em coisa nenhuma e a apreciar poucas. Coluna semanal de
Alberto Gonçalves (que gozará férias até o dia 27), via Observador:
É possível que deixar de fumar, de beber e de investir as poupanças
na roleta implique benefícios a longo prazo. Deixar de ver televisão
traz benefícios imediatos. O mais recente é ser poupado à catrefada de
programas dedicados à violação alegadamente cometida pelo futebolista
Cristiano Ronaldo em Las Vegas. Os ecos que me chegam (e sobram) pelo
Facebook dão-me conta de mesas redondas cercadas de especialistas
especializados em proferir atoardas. É daqueles casos em que imaginamos
exactamente o que estamos a perder: lixo.
Por regra, este alvoroço em redor dos abusos sexuais costuma
confrontar duas escolas de pensamento. A escola “machista” acha todas as
acusações infundadas e obra de galdérias interessadas em dinheiro e/ou
fama. A “feminista” considera todas as acusações verdadeiras e todos os
actos perpetrados a coberto de um “sistema” patriarcal e opressor. A
escola “machista” desvaloriza a autonomia e o arbítrio das mulheres. Por
diferentes caminhos, a “feminista” também. A escola “machista”,
informal e tosca, é irredutível nas suas convicções. A “feminista”,
organizada e metódica, tem dias.
Se, por exemplo, uma das medalhadas em sofrimento pelo #MeToo é
suspeita de marotices sobre um rapaz adolescente, boa parte do
“feminismo” decreta logo as denúncias falsas e indignas de sequer serem
levadas em consideração. E se, outro exemplo, as denúncias provêm de uma
americana que, em vez de comprometer um juiz escolhido pelo sr. Trump,
compromete o sr. Ronaldo, certo “feminismo”, pelo menos de extracção
caseira, sofre novo abalo e procede, hesitante, à desvalorização da
fêmea em causa para não desvalorizar o motor do orgulho pátrio. Aqui,
escusado notar, o “machismo”, que nunca hesita, fica a um passo de
propor o esquartejamento da tal senhora.
E andamos nisto, que me interessa tanto quanto as infusões de
camomila. Por um instante, acreditei que haveria vida inteligente
algures entre o “feminismo” e o “machismo”. Já não acredito. Aliás,
começo a não acreditar em coisa nenhuma e a apreciar poucas. Marxistas.
Budistas. Fascistas. Benfiquistas. Nacionalistas. Bairristas. Papistas.
Activistas. Ciclistas. Maoistas. Catequistas. Socialistas. Alquimistas.
Sambistas. Sindicalistas. Artistas. Bilharistas. Etc. Por definição
tácita, os “istas” deste mundo são criaturas com desesperada necessidade
de pertença a algo que os transcenda, em quantidade e, pensam eles, em
qualidade. Pode ser uma ideologia, um culto, um clube, uma associação,
um tique partilhado por um grupinho razoável.
Cumpre-me informar que jamais senti semelhante carência. Se sentisse,
estaria tramado, visto não me ocorrer um único critério que me
aproxime, por acordo ou telepatia, de qualquer amontoado de gente. Assim
por alto, sou, porque calhou, homem, caucasiano, português,
heterossexual e ateu. Existe alguma afinidade inata ou adquirida que me
vincule aos restantes homens, caucasianos, portugueses, heterossexuais e
ateus? A resposta é não. Ou não, cruz credo. Ou não, a que propósito? A
“identidade”, que em décadas esmagou a luta pela igualdade a benefício
da histeria pela “diferença”, é um delírio infantil, e as políticas que a
utilizam são uma fraude concebida para arregimentar pasmados.
A “integração” em bandos afinal abstractos, fundamentada em
características fortuitas como a naturalidade, o sexo ou a cor da pele,
será na melhor das hipóteses um descanso para cabecinhas desnorteadas.
Na pior, serve para as cabecinhas se sentirem superiores, exigirem
privilégios e proibições, alimentarem conflitos e, em última instância,
dividirem sociedades sustentadas pelos sempre débeis laços
civilizacionais de modo a facilitar o reinado de oportunistas, súmula
competente dos “istas” em geral.
Acerca do assunto – ou da falta dele – na ordem do dia, eis a minha
opinião: não tenho. Vejam lá (de que maneira?) se o sr. Ronaldo é
culpado e, se sim, prendam-no. Ou apurem (de que maneira?) se a senhora é
mentirosa e, então, prendam-na a ela. Ou enviem o prof. Marcelo para
distribuir comendas por ambos. Ou vão dormir e não incomodem com
indigências as raras pessoas que não querem ser incomodadas com
indigências, por acaso uma “identidade” que eu assumiria sem esforço nem
vergonha.
Nota de rodapé:
Em Tancos, um crime foi deliberadamente encoberto, o que constitui
outro crime. Felizmente, ninguém que importe soube de nada. Nem o
ministro (que, em seu abono, nunca sabe de coisa alguma), nem o
primeiro-ministro (ele seja cego, surdo e – peço a Deus – mudo), nem Sua
Excelência, o Comandante Supremo e Impecável das Forças Armadas (aquele
senhor das “selfies”). É uma sorte tremenda, dado que a evidente
inocência destas personalidades permite-lhes continuar a mandar
competentemente no país em vez de irem parar ao olho da rua ou, fosse
este um lugar diferente (digamos), à cadeia. Na cadeia está uma figura
menor, cujo nome não recordo e cuja ausência não perturba a nossa
imparável marcha rumo ao ridículo, perdão, à glória final.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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