![]() |
| Kristina Timanovskaya |
O caso de Kristina Timanovskaya não foi o último. Iana Maksimova, atleta de pentatlo que treina na Alemanha, já anunciou que não regressará à Bielorrússia por temer pela vida. José Milhazes para o Observador:
Os
Jogos Olímpicos de Tóquio vieram confirmar duas teses importantes: o
desporto continua a ser uma forma de guerra no tabuleiro geopolítico
mundial e não deixaremos de assistir a fugas de desportistas, à
semelhança da atleta bielorrussa Kristina Timanovskaya, enquanto
existirem regimes autoritários e ditatoriais.
Timanovskaya
não se encontrava na lista dos cerca de mil atletas bielorrussos que,
no ano passado, dirigiram uma carta ao ditador Alexandre Lukachenko a
exigir a realização de eleições presidenciais livres e transparentes,
depois do escrutínio sujo que lhe deu 80% dos votos em Agosto do ano
passado.
Esta
é uma das razões que leva a pensar que Kristina Timanovskaya não
tencionava utilizar os Jogos Olímpicos para provocar um escândalo
político e não regressar à Bielorrússia.
Outra
razão é o teor da sua mensagem no Instagram quando soube por terceiros,
e não pela via oficial, que tinha de participar na estafeta 4×400
metros para substituir uma colega que fora afastada da prova por
desrespeitar as regras de controlo de doping. Ela utiliza palavras duras
para criticar a decisão dos representantes do Comité Olímpico da
Bielorrússia em Tóquio: “Fizeram porcaria e decidiram emendar à bruta”,
“porque é que devemos responder pelas asneiras deles?”.
Claramente,
Timanovskaya não esperava que as suas críticas provocassem uma
tempestade tão grande no Comité Olímpico da Bielorrússia, dirigido
(imaginem por quem?) por Victor Lukachenko, um dos filhos do ditador.
A
situação deteriorou-se quando a atleta se recusou a pedir desculpa
publicamente aos dirigentes bielorrussos e foi retirada da prova de
atletismo de 200 metros “devido ao seu estado emocional e psicológico” e
obrigada a regressar à Bielorrússia. No aeroporto, Kristina tomou a
decisão final depois de uma conversa que teve com o treinador de
atletismo da selecção bielorrussa e com o vice-director do Centro de
Preparação Olímpica da Bielorrússia. O conteúdo da conversa com a atleta
foi gravado e publicado nas redes sociais e as declarações dos
funcionários bielorrussos são uma mistura de ameaças e promessas de que
ela não seria castigada e até poderia continuar a carreira se obedecesse
às ordens.
Kristina
Timanovskaya defendeu-se da acusação de que o seu estado emocional e
psicológico não lhe permitia continuar nos Jogos, sublinhando que isso
era “mentira” e que no mesmo estado vencera nas Universíadas de 2019.
A
pressão dos funcionários bielorrussos levou a atleta a não regressar ao
seu país e a refugiar-se na vizinha Polónia, onde se encontram milhares
de pessoas que fugiram à onda de repressão desencadeada contra a
oposição.
Os
órgãos de informação bielorrussos e russos desencadearam imediatamente
uma forte campanha contra Timanovskaya, acusando-a de “traidora” e
“mentirosa”. A agência Ria-Novosti, porta-voz do Kremlin, dá a entender
que ela traiu as autoridades polacas ao decidir voar de Tóquio para
Viena, e não para Varsóvia, embora isso tenha sido feito para garantir a
segurança da atleta.
Este
não foi o último caso de fuga. Iana Maksimova, atleta de pentatlo que
treina na Alemanha, já anunciou que não regressará à Bielorrússia por
temer pela vida.
Entretanto,
na quarta-feira, em Minsk, Maria Kolesnikova, uma das figuras mais
carismáticas do movimento de protesto contra Lukachenko, começou a ser
julgada e poderá ter de cumprir uma pesada pena de prisão. Nas cadeias
bielorrussas encontram-se centenas de outros opositores.
Lukachenko sabe que está protegido pelo “czar” russo Vladimir Putin, imita-o nos métodos repressivos e desafia a União Europeia.
Desta
vez respondeu às sanções transformando o seu país num corredor de
passagem de imigrantes ilegais do Afeganistão, Iraque, etc. para a
Lituânia, provocando uma crise neste país do Báltico. As autoridades
lituanas acreditaram na palavra dos dirigentes bielorrussos de que não
permitiriam a passagem de imigrantes ilegais através do seu território e
não tomaram medidas para proteger as fronteiras. Agora montam
apressadamente uma barreira de arame farpado na fronteira com a
Bielorrússia.
Mais
uma falha grosseira na política externa da União Europeia, que
acreditou conseguir trazer o ditador Lukachenko para o seu lado na
disputa com a Rússia. É caso para repetir: com os ditadores não se
brinca.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário