É claro que ciclistas chinesas não fariam sem ordens superiores a manifestação que um intimidado Comitê Olímpico vai deixar passar em branco. Vilma Gryzinski:
Desde
que Lísias fez um discurso apaixonado contra Dionísio, tirano de
Siracusa, na Olimpíada do ano 388 antes de Cristo, a maior competição
esportiva do planeta não escapa de uma atividade intensamente
competitiva onde as disputas são travadas fora dos estádios.
Mas
seria ingenuidade acreditar que foi um impulso espontâneo que levou as
ciclistas chinesas Bao Shanju e Zhong Tianshi a colocar um broche de Mao
Tsé Tung no peito de seus agasalhos.
Nenhum
cidadão chinês que está representando o país numa vitrine tão
espetacular como a Olimpíada tem autonomia para iniciativas assim.
É
possível que o distintivo tenha sido uma forma indireta de lembrar os
cem anos do Partido Comunista Chinês, efeméride comemorada com grandes
encenações patrióticas – e como uma reafirmação do poder absoluto
desfrutado pelo presidente Xi Jinping.
Embora
a China somente tenha se transformado numa potência econômica depois de
jogar no lixo todas as insanidades coletivistas de Mao, o fundador da
república comunista continua a ser oficialmente celebrado como uma
figura fulcral.
O
Comitê Olímpico Internacional pediu ao comitê chinês que investigue se
os broches infringiram as regras que proíbem qualquer tipo de propaganda
política, religiosa ou racial, “incluindo cartazes ou braçadeiras”.
O
inferno vai gelar antes que venha uma confirmação chinesa. E o COI está
sem moral para reclamar, tanto pelo poder de intimidação da China
quanto por suas próprias concessões a gestos políticos como os punhos
cruzados em forma de Xis de Raven Saunders ao ganhar a medalha de prata
em arremesso de peso.
Se
alguém achasse que uma atleta americana negra e LBGT poderia ser punida
por ressaltar a “interseccionalidade” de sua posição, a tradução dos
punhos cruzados, estaria em outro planeta.
Ver
a mistura de esportes com política é um dos aspectos mais interessantes
da Olimpíada. As manifestações associadas a eventos esportivos podem
trazer surpresas, como a multidão que acompanhou num shopping de Hong
Kong a vitória de Edgar Cheung na esgrima.
Com
a mesma emoção da comemoração da vitória, muitas pessoas vaiaram o hino
nacional chinês quando o espadachim recebeu a medalha de ouro. Um grito
desafiador se ergueu da multidão, repetido várias vezes, em inglês:
“Nós somos Hong Kong”.
A
reafirmação da identidade da cidade-estado que foi devolvida ao
controle chinês com garantias não cumpridas de autonomia política é um
dos elementos que mais perturbam o regime comunista.
Um
homem foi preso, depois de identificado como um dos que vaiaram o hino
nacional chinês. O “crime” pode render até nove anos de prisão.
Regimes autoritários são os que mais procuram se legitimar através do esporte, expondo-se muitas vezes ao ridículo.
“Um
direto no rosto da direita”, comemorou o Granma, jornal do Partido
Comunista Cubano, depois que o boxeador Julio César La Cruz ganhou do
compatriota exilado na Espanha Enmanuel Reyes.
Fidelíssimo ao regime, La Cruz gritou na comemoração: “Pátria e vida, não. Pátria ou morte. Venceremos.”
O
primeiro slogan explodiu nas surpreendentes manifestações de protesto
que afloraram em Cuba no dia 11 de julho. Fruto, segundo o Granma, de
“uma armadilha diabólica orquestrada pela extrema-direita radicada nos
Estados Unidos e cujo objetivo é apresentar Cuba como um país sem
esperança, que vive em meio ao caos”.
Transposto
para o campo esportivo, o confronto direita versus esquerda gerou nos
Estados Unidos uma situação não muito diferente das que já ocorreram no
Brasil. Republicanos mais da linha trumpista comemoraram quando a
seleção feminina de futebol foi eliminada pelo Canadá.
Motivo:
Megan Rapinoe, a atacante de cabelo cor-de-rosa (ou roxo, dependendo da
ocasião). Rapinoe se recusou a ir à Casa Branca de Donald Trump depois
que a seleção americana ganhou o campeonato feminino de 2019. E continua
a se ajoelhar antes de todos os jogos, no gesto associado ao Black
Lives Matter – manifestação que o COI considera adequada.
Até
agora, o único gesto que lembrou os tempos da Guerra Fria, quando as
Olimpíadas incluíam obrigatoriamente deserções de esportistas de
satélites soviéticos da Europa Oriental, foi o da corredora Krystina
Timanovskaya.
Depois
de denunciar que estava sendo levada à força de volta para seu país, a
Belarus do ditador Alexander Lukashenko, ele pediu asilo político na
Polônia.
Muitos
oposicionistas da Belarus asilaram-se na Polônia e na Lituânia depois
que Lukashenko conseguiu sobreviver, na base da repressão, a enormes
manifestações de protesto que tomaram todo o país.
O
caso de Krystina precipitou-se depois que ela reclamou que, apesar de
estar inscrita na corrida de 200 metros, havia sido colocada na equipe
de revezamento de 4×400 metros.
Uma banalidade levada muito a sério pelo tipo de governante que associa regimes políticos a desempenho esportivo.
Faturar
– ou tentar – alguns pontinhos com o surtos de orgulho nacional que
inevitavelmente acompanham vitórias nos esportes é natural. Atos
repressivos como em Hong Kong ou na Belarus são outra coisa.
Aos
tiranetes atuais, vale lembrar: a inquieta multidão da Olimpíada na
qual o orador Lísias criticou Dionísio acabou saqueando o acampamento do
tirano de Siracusa (atual Sicília). Os ornamentos de ouro das barracas
foram considerados um excesso de exibicionismo.
blog orlando tambosi

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