Se pudesse, recomendaria a Simone Biles que tratasse de sua saúde mental perseguindo e domando o fracasso. Fracassando mais. Fracassando melhor. Paulo Polzonoff via Gazeta do Povo:
A
página em branco é perfeita. Em potencial, ela contém todas as palavras
que quero usar para expressar todas as ideias possíveis e imagináveis
para todo os leitores idem. E, no entanto, a página em branco, por mais
perfeita que seja, é um vasto e inútil nada. Só depois que ouso
fracassar sobre ela, usando palavras erradas para expressar ideias que
muitos consideram igualmente erradas, é que a página em branco se torna
imperfeitamente útil.
Pensei
nisso ao acompanhar toda a discussão sobre Simone Biles, a ginasta que,
preocupada com a saúde mental, desistiu de tentar uma medalha nas
Olimpíadas de Tóquio. “Saúde mental é mais importante do que a vitória”,
pontuou alguém com uma obviedade karnalesca. “Isso é um absurdo! É o
fim da meritocracia! Da competitividade! Do espírito olímpico!”,
desesperou-se outro com todos os pontos de exclamação possíveis.
De
fato, o tal de “bem-estar mental” é, hoje, uma preocupação como nunca
foi antes. Mais importante do que nossas ações neste mundo é ser feliz
agindo. Daí a preocupação extrema com a felicidade no ambiente de
trabalho, seja ele um escritório ou um ginásio de esportes. O raciocínio
por trás dessa ideia é aquele papo de coach que você provavelmente
conhece: “Ame o que faz e você não terá de trabalhar nem um dia”.
Mas,
para além da moral questionável de se associar a satisfação pessoal ao
trabalho, há nessa frase, ou melhor, nesse conselho alguns truquezinhos
cuja análise vale a pena. O “ame o que você faz”, por exemplo, é
propositadamente ambíguo e pode se referir ao ato de fazer ou ao produto
dessa ação. A primeira leitura é a mais popular. Imagine um Chaplin em
“Tempos Modernos”, mas todo felizão lá apertando os parafusos. A segunda
leitura é mais, digamos, marxista. Imagine um metalúrgico todo
frustrado, se sentindo explorado pelo capitalismo, mas ao mesmo tempo
todo orgulhoso do produto do seu trabalho: uma Ferrari.
O
outro truquezinho da frase é o que se sucede à conjunção aditiva.
Afinal, quem disse que o trabalho em si é ruim e que o objetivo de todo
mundo é viver como se não quisesse trabalhar nem mais um dia? Aqui se
confundem duas noções perversas de ócio e trabalho: o primeiro como
vício hedonista e o segundo como castigo divino.
Mas
o mais importante não está contido na frase e, imagino, não foi um
elemento de consideração na decisão de Simone Biles em sua escolha pela
desistência. Estou falando dele, o retumbante, estrondoso, ridículo e
necessário fracasso.
É
pelo fracasso que aprendemos. É ele que permite que nos redimamos.
Vitória, sucesso, medalha de ouro, promoção, aumento, aplausos, elogios,
mais aplausos são ótimos. E todos nós já nos deliciamos nesse pote de
mel da existência (toda referência a mel é, por algum motivo, cafona. Eu
sei). Mas de uma vitória daquelas bem vitoriosas o que resta senão o
orgulho algo vazio? Quanto aos aplausos, todo mundo sabe que um dia eles
cessam. E sucesso é um conceito mais difícil de definir do que
“felicidade” – como sabem todos os que se debruçaram sobre o “Dilema Van
Gogh”.
(O
“Dilema Van Gogh” é bem simples. Todo mundo sabe que o pintor morreu na
miséria e sem reconhecimento. Mas, depois de morto, ele conseguiu ser
reconhecido expressando justamente sua miséria – um termo que, aqui, uso
em outros sentidos além do óbvio. Levando em conta isso, Van Gogh foi
um artista fracassado ou bem-sucedido?).
Se
pudesse, recomendaria a Simone Biles que tratasse de sua saúde mental
perseguindo e domando o fracasso. Pisando fora do tablado, escorregando
na trave, caindo de bunda. Fracassando mais. Fracassando melhor – como
sugeria, no começo do século XXI, a escritora Zadie Smith. E, ao longo
do processo, aprendendo, rindo de si, expondo-se ao mundo nunca como
modelo de perfeição, e sim como um ser humano sempre falho,
ridiculamente falho, suscetível a escorregões e topadas nas quinas da
vida.
Afinal,
não uso o verso de T.S. Eliot à toa. Para nós, há mesmo apenas o
tentar. Ir para o palco e talvez desafinar. Saltar sobre o cavalo e
talvez cair. Correr e talvez perder, não!, chegar em último. Escrever
este texto e talvez ser mal interpretado, incompreendido ou ignorado. E o
resto, amigo, ah, o resto (isto é, o sucesso, a fama, a fortuna, os
elogios ou aplausos) não é da nossa conta, nunca está sob o nosso
controle e raramente traz felicidade outra que não o prazer momentâneo
com ela confundido. Mesmo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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