Como a “extrema-direita” não tem isentos cientistas sociais nem estudos para ter observatórios, só podia ser ela o objeto da observação. Jaime Nogueira Pinto via Observador:
Tenho
seguido com curiosidade o progresso e a multiplicação de observatórios.
Dizem os dicionários que um observatório é “o lugar de onde se observa;
um edifício científico equipado para a observação de determinados
fenómenos”. É, pois, de Ciência que falamos.
De
Ciência e de Progresso, porque longe vão os costumeiros observatórios
de Greenwich, da Ajuda ou da Serra do Pilar. Os modernos observatórios
sociais já não observam corpos celestes: observam fenómenos patológicos
próximos com rotas pré-determinadas. Para tal, recorrem a uma nova
estirpe de auxiliares de acção científica: os “activistas” –
investigadores reconhecidos, não só pelo seu rigor e isenção, mas também
pela sua excepcional capacidade de produzirem verdades científicas a
partir da identificação dos pensamentos, palavras, actos e omissões de
todo o ser ou povo que, alimentado exclusivamente por fake news,
apresente sintomas ou laivos opressivos e difunda patologias ideológicas
e comportamentais que ameacem a Democracia e a Humanidade. É esta a
verdade científica.
E
quem somos nós para contestar a Ciência? Nós, os que, perante os
admiráveis avanços da investigação e a excelência dos novos
investigadores, oscilamos entre formas de vida, de acção e de pensamento
ora ainda primitivas ora já fossilizadas e que, por isso, não estamos
nem nunca estaremos cientificamente equipados ou minimamente
habilitados, subsidiados e homologados para sermos mais do que o
fenómeno observado. E muito menos para questionar o asséptico “lugar de
onde se observa” e de onde agora se “faz ciência” – que, como todos
sabemos, é um rigoroso “não lugar”, escrupulosamente isento de vírus
ideológicos e imune a todo o preconceito. Não está ao nosso alcance
escrutiná-lo. É qualquer coisa de científico.
E
quais são então os fenómenos patológicos fixados por estes muitos
observatórios; os fenómenos que, por afectarem e afligirem a nossa
sociedade e por terem, bruscamente, invadido o nosso país, requerem
observação e, em tempo de pobreza económica, social, cultural e moral,
urgente canalização de recursos estatais? São, evidentemente a
xenofobia, a homofobia, a transfobia e outras fobias do género. As
observações e os dados científicos recolhidos e tratados neste âmbito
seguem depois para as entidades competentes para que semelhantes
acidentes e incidentes ou entes e entidades possam ser devidamente
expurgados.
Uma
reedição da Real Mesa Censória com ecos do orwelliano Grande Irmão?
Não. Ciência pura. Simples Progresso. A Carta Portuguesa dos Direitos
Humanos na era Digital.
O Observatório da Extrema-Direita
Descobri,
com atraso, que entre estes novos observatórios dedicados às várias
fobias há um “Observatório da Extrema-Direita”. Seria a
“extrema-direita” a observar? Não, que a extrema-direita não tem
cientistas nem estudos para ter observatórios: a “extrema-direita” era o
fenómeno observado. A única diferença em relação às outras fobias
observadas era que aqui a fobia chegava, não do universo alvo, mas do
“lugar de onde se observa”, ou do não-lugar onde se aloja a isenta
comunidade científica que se confessa consideravelmente alarmada e que
por isso se propõe analisar o fenómeno sem outras agendas que não a
Verdade e a Ciência.
Curiosamente,
o fenómeno, ainda antes de ser entalado na lamela e encaixado no
microscópio, já lhes chegara rotulado. E – ou pela urgência de encontrar
uma vacina para tão grave patologia ou porque, também aqui, os
académicos que integram o observatório contam com o precioso auxílio da
nova estirpe activista de auxiliares de acção científica – as perguntas
de investigação começam logo por abreviar processos:
“O
que é a nova extrema-direita? O que tem de ‘velho’? Quem são os seus
protagonistas que se dizem fora do sistema e vivem do sistema? Qual é a
sua agenda e os meios de propagação das suas ideias? De que forma se
alimenta do racismo, da xenofobia e do conservadorismo?” E mais adiante:
“Interessa-nos discutir também quem cria as fake news e porque é que a
extrema-direita cresce com elas”.
O
processo fica, assim, sabiamente abreviado logo nas perguntas de
investigação, com o relatório praticamente pronto a ser enviado às
autoridades competentes.
Há
quem diga que “o lugar de onde se observa” pode, eventualmente,
influenciar a investigação, os pressupostos, a amostragem, as
conclusões, e que estes observadores poderão, quem sabe, ter outra
agenda que não a Verdade e a Ciência. Talvez de esquerda ou de
extrema-esquerda. Mas parece que não, que são mesmo isentos. E que não o
sejam: é materialismo científico…e os observatórios estão
cientificamente equipados para observar e não para serem observados.
De
qualquer modo, os cientistas do observatório estão apreensivos com o
fenómeno em análise. E não será para menos. Aquilo a que cientificamente
chamam “extrema-direita” (a saber, um polvo que se diz fora do sistema
mas que vive do sistema, que se alimenta de racismo e xenofobia ao
pequeno almoço, ao almoço e ao jantar e que cresce com as fake news que
cria) avança a olhos vistos e em sítios antes impensáveis: na América
populista que elegeu Trump em 2016, no Brasil de Bolsonaro, nos
conservadores sociais e identitários da Hungria e da Polónia, nos
italianos de Salvini e da Meloni; e até em França, onde Marine Le Pen
está a escassos pontos de Macron e os generais escrevem cartas em que
falam de perigo de guerra civil.
É
para estar preocupado. Até porque se dá um fenómeno também muito
curioso e preocupante: é que esta subida da dita “extrema-direita” não
vem de golpes militares à 28 de Maio ou à Pinochet, ou de violências de
rua, preparando “marchas sobre Roma”, ou um Machtergreifung em Berlim.
Vem do voto, do voto do povo, em eleições livres e justas. Fica o repto
para as vanguardas iluminadas: para quando um Observatório do Povo e do
Voto Popular?
O
problema é que este é um voto que nem o cientismo histórico-sociológico
consegue explicar. Um voto que nem a “relação de forças”, a ferramenta
analítica dos bons tempos dos Pais Fundadores do marxismo-leninismo,
cujos rostos paternais esvoaçavam nas bandeiras das saudosas
confraternizações comunistas, consegue acomodar a um mundo globalizado,
onde os donos dos meios de produção parecem alheados de tais
preocupações.
O mofo de Dimitrov
Verifico
que, no Observatório, ainda vai havendo lugar para experiências
arqueológicas a partir do mofo do velho Dimitrov. O pressuposto que
ressuscitam é o de ter sido o fascismo (e de ser agora a
“extrema-direita”) a última arma de recurso da Burguesia, que,
desesperada perante as forças do progresso e da História, recorre à
ditadura, às botas de Mussolini e às camisas castanhas do Cabo
Austríaco, ou a caudilhos militares sul-americanos ou balcânicos.
Infelizmente, em termos de análise marxista – e seguindo a linha mais
ortodoxa do mecanicismo soviético, fixada na Vulgata estalinista e
dimitroviana –, esta erupção no Ocidente do “fascismo” e da
“extrema-direita” pelo voto popular só muito dificilmente poderá
explicar-se com base nas relações de classe ou de produção.
Onde
estão agora as “forças do progresso e da História em fúria” se não em
pleno mainstream? Onde estão se não ao lado do dinheiro com que se fazem
os observatórios e no meio da Burguesia?
Acarinhadas
e adoptadas pelo poder, promovidas pelos multimilionários da BigTech,
omnipresentes nos órgãos de informação do Establishment, a ideologia e a
retórica destas novas “forças do progresso” parecem ser bem mais
lucrativas e susceptíveis de estar “ao serviço do grande capital” do que
o ideário ou os valores identitários e conservadores da pequena classe
média e dos reais ou hipotéticos extremistas da direita “fascista”,
“neofascista” ou “pós-fascista”. Ao contrário, a “aliança objectiva” que
se prefigura é a dos grandes grupos financeiros, dos híper-milionários
do Silicon Valey, até dos grandes interesses do capitalismo de direcção
central de Pequim e Xangai, com os valores globalistas da
extrema-esquerda radical. E se alguma coisa é pública e notória, é o
facto de o “grande capital” e “a burguesia dos interesses” se mostrarem
especialmente empenhados em afastar a “extrema-direita” e o
“neofascismo” que pairam sobre o mundo euroamericano.
O revisionismo marxista de Gramsci
E
se a Vulgata não explica o fenómeno, já a versão mais arejada do
marxismo-leninismo, a versão revisionista de António Gramsci, registada
nos Quaderni del Carcere, poderá entreabrir algumas portas.
Logo
perante a revolução de Outubro de 1917, Gramsci observou no Avanti que
“a revolução bolchevique era a revolução contra O Capital de Marx”.
Queria ele dizer que, segundo Marx e os marxistas clássicos, para fazer a
revolução comunista, era preciso esperar pela revolução burguesa,
capitalista. Só depois seria possível uma revolução proletária. Lenine
estava a sair da linha…
Gramsci
leu, como Mussolini, os escritos de marxistas heterodoxos italianos,
como António Labriola. E leu também George Sorel, autor da mais
fulgurante desconstrução do ideário das Luzes, Les Illusions du Progrès.
Leu ainda, como os fascistas Mussolini, Giovani Gentile e Francesco
Ercole, Maquiavel e as suas reflexões sobre o poder e o Estado. Com tudo
isto, e com a amarga experiência da derrota do comunismo italiano
frente ao fascismo, não seria de esperar que o seu espírito, inteligente
e inquieto, longe da resignação e do convencionalismo, não reflectisse
sobre o acontecido.
E
fê-lo no exílio interior e na prisão, numa série de escritos de cerca
de três mil páginas, uma peregrinação interior por dentro de Marx e da
História da Itália e da Europa, de onde saiu uma revisão de muitos
conceitos e uma crítica implícita do mecanicismo economicista e do
fixismo progressivamente imposto pela Vulgata soviética. Ironicamente,
esta crítica revisionista, escrita numa prisão fascista, não poderia ter
sido feita na União Soviética, onde os acusados de revisionismo morriam
nas prisões de Estaline, sem que lhes facultassem papel ou licença para
escrever.
Até
porque Estaline, que não tinha nada de estúpido, nem de
intelectualmente boçal, tinha já elaborado, nos anos Vinte, uma “bíblia
do rei Jaime” para calar veleidades interpretativas,
Subsídios para uma observação da “extrema-direita”
Gramsci
tratou conceitos decisivos para o estudo da Política: os conceitos de
hegemonia, de crise orgânica, de momento bonapartista, a autonomia do
Estado como espaço do Poder, o papel dos intelectuais e do combate
cultural e da sua relação com as determinantes económicas. E o que
escreveu pode ajudar alguns elementos mais distraídos ou mais activistas
do Observatório – ainda que só para seu entretenimento e ilustração e
independentemente das conclusões que julguem por bem tirar a priori.
Tenho,
assim, alguma esperança que os observadores do Observatório da
Extrema-Direita estejam mais perto de Gramsci do que da Vulgata nas suas
análises futuras.
Sem
querer ensinar-lhes nada, penso que estamos na Europa e no Ocidente
numa clássica “crise orgânica” do sistema, em que “os grupos sociais” se
separam dos seus partidos tradicionais, que já não reconhecem como seus
representantes.
Será
que nos aproximamos daquele momento, também clássico na teoria
gramsciana, em que “a continuação da luta não pode concluir-se senão
pela destruição recíproca?”
Não
sei. De qualquer modo, esta crise parece-me diferente. As forças do
sistema, à esquerda e à direita, aproximaram-se demasiadamente umas das
outras, criando um centro rotativo, um centrão, entre uma esquerda
socialista ou social-democrata, à Blair, e uma direita que, em termos de
valores, passou de conservadora a liberal.
Este
centrão sofreu com o fim da União Soviética, como inimigo unificador da
Euroamérica. E não está a resistir aos custos do globalismo que a
desindustrialização da Europa e dos Estados-Unidos e as vagas
migratórias resistentes à integração trouxeram. O macroterrorismo do
princípio do milénio agitou as águas, mas as águas voltaram à acalmia do
costume, pelo menos à superfície.
Desta
não resposta do sistema político aos novos problemas, entre a obsessão
economicista e liberal das direitas e o abandono da cultura e da
ideologia à agenda post-moderna e radical das esquerdas à americana,
resultou a orfandade de grandes sectores da população, marginalizados
nos seus usos e costumes, nas suas convicções religiosas e patrióticas,
no seu estatuto social e na sua renda. Sectores que foram e vão votando
nos candidatos que, marginalmente, foram e vão reagindo.
É
isto que vem acontecendo na Europa e nos Estados Unidos de há trinta
anos para cá. Na Esquerda, depois do fim da URSS, os partidos comunistas
foram-se evaporando, substituídos por partidos que abandonaram as
“classes trabalhadoras” e foram procurando legitimidade na protecção e
projecção de minorias e de causas minoritárias. À direita, os partidos
do sistema concentraram-se no liberalismo económico e esqueceram toda a
tradição da direita em termos de valores de orientação permanente –
religiosos, identitários, familiares, de solidariedade e justiça social.
Assim
as direitas, essa amálgama de partidos e de valores a que o
anticomunismo e a defesa da liberdade contra as potências comunistas
tinha dado alguma coesão, fragmentaram-se e perderam-se ideologicamente.
E aderiram ou deixaram de resistir ao discurso globalista do
mainstream, moldado pela esquerda radical, deslegitimando-se
progressivamente perante o “povo de direita”, que se voltou para as
novas forças que ofereciam resistência e alguma antítese ao que estava. É
uma situação de crise orgânica gramsciana.
Assim,
ao contrário do que pretendem alguns “observadores da extrema-direita”,
esta realidade político-social não é explicável por uma acção
manipuladora da Burguesia e do Grande Capital neo-liberal, que,
vitoriosos desde a Guerra Fria, estariam agora a reinventar o fascismo e
a manipular a extrema-direita e os “populistas”.
Tal
análise do objecto observado, aqui e na Europa, parece sair mais de uma
cartilha clandestina do militante comunista médio dos anos 50,
confiscada pela PIDE, de que de um científico e académico Observatório
pós-moderno.
Há
cem anos, olhando as revoluções contrárias e paralelas – a dos
bolcheviques na Rússia e a dos fascistas em Itália – Gramsci sublinhou a
ocasional possibilidade de existir uma autonomia do político, do poder,
do Estado e da sua conquista que escapava às relações de produção e até
ao jogo das classes sociais e seus “interesses objectivos”. Tratava-se
então de uma crise orgânica dos regimes e de um momento bonapartista que
Lenine e Mussolini souberam aproveitar.
Os
observadores da actualidade podiam dar mais atenção ao mestre e menos a
teorias da conspiração, por mais científicas e subsidiáveis que se lhes
afigurem.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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