Mais de 100 governos que toparam a aposta: o pagamento adiantado era uma forma de financiar os laboratórios e, pois, de apressar o processo de produção das vacinas. Carlos Alberto Sardenberg para O Globo:
Os
governos que compraram vacinas no escuro, quando ainda estavam sendo
desenvolvidas pelas farmacêuticas, certamente correram um risco — o
risco de perder dinheiro. Era uma aposta boa. Os laboratórios já tinham
demonstrado competência em outros medicamentos. Mas continuava sendo uma
aposta. Tanto que, hoje, é consenso nos meios científicos que a
produção de vacinas tão eficientes em tempo tão curto só se compara à
formidável operação que levou o homem à Lua.
O
governo brasileiro, entretanto, não quis correr o risco. Achou que
estava sendo mal tratado, especialmente pela Pfizer. Lá pelas tantas, o
general Pazuello disse que negociou com a farmacêutica com o propósito
de defender a soberania nacional. E que “não somos caloteiros”.
Não deu mais detalhes, nem os senadores perguntaram, mas só podia ser uma referência à exigência de pagamento adiantado.
Ora,
os mais de 100 governos que toparam a aposta entenderam melhor: o
pagamento adiantado era uma forma de financiar os laboratórios e, pois,
de apressar o processo de produção das vacinas.
De novo, se tudo desse errado, teriam perdido muito dinheiro. Mas, dando certo, como deu, salvariam vidas, como salvaram.
O
governo brasileiro não economizou dinheiro, porque teve de comprar as
vacinas já prontas e provavelmente mais caras, nem defendeu uma suposta
soberania. Perdeu centenas de milhares de vidas.
A
CPI da Covid já mostrou pelo menos dois desastres graves. Primeiro, a
incapacidade do governo Bolsonaro de entender o drama da doença — não
teve compaixão pelo sofrimento das pessoas, nem compreendeu o estrago
que a pandemia poderia fazer na vida social e econômica do país.
Não
entendeu o que o próprio secretário de Política Econômica, Adolfo
Sachsida, escreveu: “A melhor política econômica é a vacina”.
Em
segundo lugar, os depoimentos na CPI mostraram que, mesmo quando
percebeu o problema, o governo agiu de modo desastrado. Caiu por terra
tudo o que os próprios militares falavam de sua capacidade de
organização.
Só
um caso: no auge da falta de oxigênio em Manaus, um secretário do
Ministério da Saúde teve a brilhante ideia de enviar ofício ao
Ministério Público, pedindo que entrasse com uma ação contra a White
Martins, para obrigar a companhia a providenciar aviões e levar o
produto para a cidade.
Tudo
errado, como respondeu o Ministério Público. Isso não era obrigação da
companhia, mas do governo. A obrigação da empresa no episódio foi
cumprida: avisou com antecedência que a demanda por oxigênio era
crescente e que os estoques estavam caindo rapidamente.
Semanas
depois desse aviso, o Ministério da Saúde agiu com o ridículo pedido de
ação contra a empresa. E ainda chegou a dizer que o avião da FAB
providenciado para fazer a entrega estava quebrado. Só tinha um?
Hoje,
as companhias produtoras de vacinas mais modernas estão procurando
parceiros pelo mundo. Segundo dados da revista “The Economist”, já são
280 contratos de transferência de tecnologia e/ou construção de
fábricas. A BioNTech, inventora da vacina distribuída pela Pfizer, já
está preparando uma em Cingapura. Coreia do Sul, Japão, República Tcheca
também negociam novas fábricas.
No
Brasil, os dois institutos produtores de vacinas, Butantan e
Manguinhos, não têm capacidade técnica nem financeira para receber as
novíssimas tecnologias.
É
o resultado de décadas de falta de investimentos públicos e privados. O
governo não investe porque gasta demais com Previdência e benefícios
(18,4% do PIB) e pessoal (13,2%). Para comparar: o México gasta 9,4% do
PIB nesses dois itens. E não se pode dizer que o desempenho do governo
brasileiro tenha sido muito mais eficiente no combate à pandemia.
O setor privado não investe porque o ambiente de negócios é desfavorável.
Acrescente-se um governo negacionista e atrapalhado, e temos quase 500 mil mortos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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