"Em
entrevista concedida em meados de julho à emissora Fox News, o
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, candidato à reeleição pelo
Partido Republicano, recusou-se a dizer se vai aceitar o resultado das
eleições de novembro caso seja derrotado pelo candidato democrata, Joe
Biden.
A
dificuldade de Trump em reconhecer uma hipotética derrota nas urnas já
seria, por si só, um ponto bastante polêmico nas eleições presidenciais
norte-americanas deste ano. Somado a isso, porém, há a pandemia de
Covid-19, que, até o momento, já infectou mais de 6 milhões de pessoas
no país; o voto por correspondência que deve ser amplamente adotado,
justamente, devido à pandemia; e uma potencial interferência na China
são pontos que fazem com que as eleições de 2020 sejam uma das mais
polêmicas da história do país.
Essa
não será, contudo, a primeira eleição polêmica dos EUA. Pleitos
controversos, aliás, fazem parte da história eleitoral da nação. Confira
em que outros anos a escolha do chefe do Executivo do país elevou os
ânimos da população norte-americana, gerando debates até hoje.
1. Eleições de 1800
A
essa altura do campeonato, os partidos eleitorais dos EUA ainda estavam
tomando forma e as grandes legendas eram o Partido
Democrata-Republicano – o atual Partido Democrata foi fundado em 1828,
enquanto a fundação do Partido Republicano data de 1854 – e o
Federalista. Na época, as regras eleitorais do país eram diferentes e o
Colégio Eleitoral tinha poder para escolher apenas o presidente,
enquanto os eleitores votavam em dois nomes, sendo que o vice-presidente
seria a pessoa que ficasse em segundo lugar.
Em
1800, porém, houve um empate entre os democratas-republicanos Thomas
Jefferson e Aaron Burr, o que fez com que a eleição precisasse ser
decidida pela Câmara dos Representantes dos EUA, equivalente à Câmara
dos Deputados brasileira. Essa foi a primeira de duas vezes em que isso
ocorreu na história do país.
A
decisão final, que culminou na eleição de Jefferson, é creditada a
Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro norte-americano.
Federalista, Hamilton detestava as duas opções, mas tinha um desafeto
maior com Burr. Fez, portanto, lobby para que Jefferson, que não era o
favorito, acabasse eleito. Três anos depois, Burr mataria Hamilton em um
duelo – o ponto alto do premiado musical da Broadway “Hamilton”.
2. Eleições de 1824
Essa
foi a segunda ocasião em que a Câmara dos Representantes dos EUA
precisou decidir um pleito presidencial. Foi, também, a primeira vez em
que o candidato que recebeu o maior número de votos populares não foi
eleito. Aqui, o Partido Federalista já havia sido dissolvido e todos os
candidatos que concorreram eram do Partido Democrata-Republicano: Andrew
Jackson conquistou 99 delegados; John Quincy Adams conquistou 84;
William H. Crawford conquistou 41; Henry Clay conquistou 37.
Como
nenhum dos candidatos recebeu a maioria necessária de delegados (metade
mais um), novamente a eleição precisou ser decidida pela Câmara dos
Representantes – que, pela regra, deveria escolher um entre os três mais
votados.
Adams,
então, fez um forte lobby com os apoiadores de Clay, o candidato
“excluído”. No fim, esse apoio fez toda a diferença para que Adams
chegasse ao posto de sexto presidente dos EUA, mesmo sem ter recebido a
maioria dos votos nas urnas. Uma vez no posto, nomeou Clay secretário de
Estados dos EUA, em claro agradecimento.
3. Eleições de 1860
Essa
foi a primeira eleição dos EUA a dividir, de fato, a nação. O Partido
Republicano participava apenas de sua segunda eleição e o candidato
escolhido, Abraham Lincoln, abolicionista, tinha muito pouco apoio do
Sul, historicamente rural e escravagista. Na maioria dos estados da
região, inclusive, seu nome nem sequer apareceu nas cédulas.
Mesmo
assim, Lincoln conseguiu a maioria dos delegados do Norte, além de
vencer na Califórnia e no Oregon. A vitória de Lincoln levou à formação
dos Estados Confederados da América, em 1861, que tinha Jefferson Davis
como presidente. Na Guerra de Secessão, porém, que durou de abril de
1861 a abril de 1865, o Sul saiu derrotado.
Pode-se
considerar que as eleições seguintes, de 1864, também foram polêmicas,
vez que o país se encontrava em meio à Guerra Civil e, mesmo assim,
Lincoln optou por não adiar o pleito. Considerava-se que as chances do
republicano vencer eram ínfimas, mas a história mostrou o contrário.
4. Eleições de 1876
Disputada
entre Rutherford B. Hayes, do Partido Republicano, e Samuel J. Tilden,
do Partido Democrata, esta foi a 23ª eleição presidencial dos EUA. No
voto popular, Tiden venceu por 3%. Presumia-se, portanto, que ele era o
vencedor. Vinte votos eleitorais, os emitidos por delegados dos Colégios
Eleitorais, porém, foram contestados pelos republicanos.
Os
partidos, então, concordaram em criar uma comissão formada por 15
pessoas, entre membros do Congresso e da Suprema Corte, que estudariam
os votos contestados e decidiriam de forma imparcial a quem eles seriam
destinados. Nesse meio-tempo, porém, um dos juízes da comissão, que era
um político independente, acabou eleito para o Senado e abandonou o
grupo. Acabou substituído por um juiz republicano, desequilibrando a
formação da comissão e sendo decisivo para a vitória de Hayes.
5. Eleições de 1888
Em
1888, apesar de ter conquistado a maioria dos votos populares, Grover
Cleveland, do Partido Democrata, acabou derrotado pelo republicano
Benjamin Harrison, que conquistou a maioria dos delegados necessários
para ser eleito 23º presidente dos Estados Unidos.
A
política tarifária foi o principal assunto da eleição e decisiva para a
vitória de Harrison. Enquanto este tomou o lado das indústrias e
operários, a fim de manter as tarifas altas, Cleveland considerava as
tarifas abusivas aos consumidores. Harrison acabou vencendo porque
conquistou Nova York e Indiana, considerados estados decisivos e que
eram industriais.
6. Eleições de 1912
A
32ª eleição presidencial dos Estados Unidos elegeu Woodrow Wilson, o
único presidente do Partido Democrata eleito no país entre 1892 e 1932. A
vitória de Wilson é creditada a um racha no Partido Republicano, que
acabou dividindo também os eleitores.
Após
deixar a Casa Branca em 1909, o então republicano Theodore Roosevelt
partiu para um safári de 10 meses na África. Quando retornou, viu-se
tentado a voltar à política. Roosevelt, porém, desentendeu-se com seu
amigo e colega de partido William Howard Taft, vez que esse estava cada
vez mais próximo da ala conservadora da legenda, o que irritou
Roosevelt, mais progressista. O ex-presidente, então, desafiou Taft nas
primárias do partido, mas teve sua indicação negada. O episódio levou
Roosevelt a formar o Partido Progressista, pelo qual concorreu ao
pleito.
As
campanhas foram tão insanas que Roosevelt chegou a ser baleado durante
um comício em Milwaukee, Wisconsin, mas sobreviveu. No fim, os eleitores
republicanos ficaram divididos entre Roosevelt e Taft, o que acabou
fortalecendo o democrata Wilson, que saiu vencedor. Roosevelt, que
terminou em segundo lugar, permaneceu no Partido Progressista até 1916,
quando retornou ao Partido Republicano, no qual permaneceu até morrer,
em 1919.
7. Eleições de 2000
Disputada
por George W. Bush (Partido Republicano) e Al Gore (Partido Democrata),
as eleições presidenciais de 2000 nos EUA pareciam não ter fim. Isso
porque houve uma controvérsia a respeito dos votos do Colégio Eleitoral
da Flórida, que precisaram ser recontados. As discussões duraram semanas
e Bush foi declarado vencedor no estado. Assim, o republicano conseguiu
uma vitória estreita, com somente cinco delegados a mais que Gore.
Essa
também foi a primeira eleição em 112 anos na qual o vencedor do pleito
não recebera a maioria dos votos populares. Nas urnas, o democrata
recebeu cerca de 51 milhões de votos, enquanto Bush conquistou 50,5
milhões.
8. Eleições de 2016
As
eleições de 2016 foram a segunda da história recente na qual o
candidato eleito foi perdedor nos votos populares. Hillary Rodham
Clinton, ex-primeira dama, senadora e secretária de Estado dos EUA,
conquistou três milhões de votos a mais que Donald Trump nas urnas.
Mesmo assim, o republicano foi eleito porque venceu em estados
considerados chave, como Flórida e Texas, e conquistou 304 delegados
contra 227 de Hillary.
Esse,
obviamente, não foi o único ponto polêmico das eleições de 2016. Trump,
apesar de extremamente famoso no país, jamais havia exercido um cargo
eleito até então, ao contrário de sua opositora. O pleito também foi
marcado por teorias da conspiração, como a do Pizzagate, que alegava que
membros do Partido Democrata estavam envolvidos em uma rede de
pornografia infantil, que teria uma pizzaria de Washington como um de
seus “quartéis generais”. Além, é claro, da interferência russa
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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