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| Em Santa Catarina, ninguém acreditaria em alguém com esse olhar doentio. |
O caso dos “guardiões do Crivella” revela a face de um Brasil
velhíssimo, o do coronelismo. Bruna Frascolla, em artigo publicado pela Gazeta, sobre o miserável Rio de Janeiro, que parece eternamente condenado ao pior, por cumplicidade eleitoral, convenhamos:
Quem mora ou tem parentes no Rio de Janeiro está familiarizado com o
problema que é a saúde pública lá. Assim, quando os repórteres do
jornalismo local foram entrevistar os pacientes do lado de fora do
hospital e hostilizaram-nos os populares que amavam o maravilhoso
prefeito Crivella, devem ter pensado: “Aí, tem!” E tinha.
Um grupo de WhatsApp de aspones da prefeitura se organizava para
ficar nas portas dos postos de saúde em prontidão, cumprindo a tarefa de
defender o prefeito de jornalistas e doentes queixosos. Davam-se até um
nome pomposo: “Guardiões do Crivella”.
Aqui, o letrado típico verá a oportunidade perfeita para dizer que
crentes são horríveis, afetar superioridade moral e puxar os cabelos por
causa no nazismo bolsonarista. Depois o direitista, soltando fogo pelas
ventas, com razão apontará a hipocrisia e o duplo padrão de moral do
letrado. Ao cabo, ninguém ligará mais pro posto de saúde.
O aspone de direita é pago pra xingar a “Globolixo” na porta do
hospital, o aspone de esquerda é pago pra ficar carpindo o fim do mundo
nas redes. Fica esse oba-oba suprapartidário de aspone fazendo
escândalo. Enquanto houver contribuintes cariocas sadios para pagar o
salário deles, tudo bem. A morte nos postos de saúde não deve atrapalhar
a arrecadação, e talvez até diminua o bolo a ser dividido, se morrerem
aposentados.
Precedente prussiano
A situação era a seguinte: os aspones de Crivella trabalharam como
cabos eleitorais, foram recompensados com cargos públicos e seguiam
trabalhando pela reputação política do prefeito. Organizar barraco em
porta de hospital é trabalho!
Em 1919, um professor de política do Reino da Prússia descrevia da seguinte maneira a dinâmica eleitoral em seu país:
“O homem político profissional, que vive ‘da’ política, pode ser um
puro ‘beneficiário’ ou um ‘funcionário’ remunerado. Em outras palavras,
ele receberá rendas, que são honorários ou emolumentos por serviços
prestados – não passando a gorjeta de uma forma desnaturada, irregular e
formalmente ilegal dessa espécie de renda – ou que assumem a forma de
remuneração fixada em dinheiro ou espécie, ou em ambos ao mesmo tempo.
[…]
A compensação típica outrora outorgada pelos príncipes, pelos
conquistadores vitoriosos ou pelos chefes de partidos, quando
triunfantes, consistia em feudos, doação de terras, prebendas de todo
tipo e, com o desenvolvimento da economia financeira, traduziu-se, mais
particularmente, em gratificações. Em nossos dias, são empregos de toda
espécie, em partidos, em jornais, em cooperativas, em organizações de
seguro social, em municipalidades ou na administração do Estado –
distribuídos pelos chefes de partido aos seus partidários, pelos bons e
leais serviços prestados.
As lutas partidárias não são, portanto, apenas lutas para a
consecução de metas objetivas, mas são, a par disso, e sobretudo,
rivalidades para controlar a distribuição de empregos.” (Max Weber,
Ciência e Política: Duas vocações, ed. Cultrix, p. 82. Ênfase minha.)
Nessa descrição, reconhecemos figuras encontradiças da política
brasileira, que são os cabos eleitorais, os aspones e os mortadelas. Os
cabos trabalham para eleger o político, e depois recebem prêmios
lícitos, ilícitos, ou duvidosos – como os assessores de Crivella, que
foram legalmente contratados para fazer algo de legalidade questionável.
O cabo, portanto, tem a aspiração de virar aspone. E aspone, como
informa o dicionário Houaiss, é uma palavra brasileira que abrevia
“assessor de p**** nenhuma”. Não faz nada de útil pela sociedade, mas
recebe pelo cargo. Já o mortadela podemos classificar como um soldado
raso do mesmo negócio: recompensas tão modestas quanto um sanduíche de
mortadela compram os seus servicinhos.
Como um homem nascido no Reino da Prússia pode falar de uma realidade
tão familiar? Ora, Max Weber é o teórico que inventou o conceito de
patrimonialismo. Um Estado patrimonial é aquele em que não há distinção
entre o que é patrimônio pessoal de um governante, e o que é patrimônio
do Estado.
Nele, como observou Antonio Paim, a burocracia tem mais força que o
resto da sociedade; e por isso não é de admirar que esse seja um modelo
associado a ditaduras totalitárias. Não muito tempo depois de Max Weber
pronunciar esse parágrafo acima, a democracia alemã, cuja constituição
ele mesmo ajudara a redigir, seria corroída até cair no III Reich.
Com uma burocracia tão grande, e com um histórico patrimonialista, os
teóricos brasileiros deveriam considerar a nossa democracia um milagre a
ser explicado.
(Para não dizer que ninguém tentou responder isso, aponto que Jorge
Caldeira, em sua História da Riqueza no Brasil, tem uma teoria
interessante, que enfatiza o fato de nossas câmaras municipais
funcionarem com eleição desde o século XVI. Temos uma estabilidade
democrática impressionante no plano municipal, interrompida apenas por
Getúlio Vargas. E eu cheguei a tratar desse tema em meu livro,
enfatizando o aspecto cultural do individualismo latino.)
Na capital, menos mau
Max Weber descreve um cenário pior do que o das metrópoles
brasileiras, pois até os empregos privados são distribuídos pelo
governante. O nazismo apenas aprofundaria o vício patrimonialista de
existir um monte de empresas privadas cujo sucesso financeiro adviesse
de favoritismos estatais.
Trocando em miúdos, a Volkswagen, a Bayer, e até a editora alemã que
comprou a Companhia das Letras, eram como que as campeãs nacionais de um
BNDES do Reich.
Nas capitais brasileiras, enxergamos a coisa pública como lugar por
excelência do patrimonialismo. Nos interiores, porém, concursos públicos
podem ser vistos como uma conquista pessoal contra o coronel local.
Aqui, vou trazer um causo ilustrativo. Certa feita viajei para o
interior, e fiquei hospedada com moradores locais. Quando perguntados,
exibiam um vasto repertório de histórias de coronéis e cabos. Tinham a
história de um cabo eleitoral pobre, que ganhou muitos brinquedos para
dar de presente aos vizinhos, em troca de um cargo no governo.
O candidato foi eleito, e o cabo ficou a ver navios: coronel também
dá golpe. Contaram do coronel cuja mulher, caridosa, passou a recolher
doações para os vitimados de uma enchente – a fim de acumular as
doações, e segurá-las até o período eleitoral, quando seriam dadas de
presente em nome do coronel.
Alguns senhores se orgulhavam muito dos filhos que venceram na vida
sem ajuda de coronel: só podiam trabalhar nos poucos estabelecimentos
privados, todos de posse dos coronéis, até passarem em um concurso
público numa esfera fora da alçada do coronel, de modo que não baixam a
cabeça para amo nenhum. Em algum momento da história do Brasil, a
estabilidade do concursado significou um ataque ao patrimonialismo de
coronéis locais. Depois, virou mais uma fonte de tirania.
Os guardiões do Crivella revelaram a face de um Brasil velhíssimo,
que com certeza se repete longe das câmeras da Globo. Na cidade do Rio
de Janeiro, os meios de comunicação não são propriedade privada do
governante. Em várias cidades do Brasil, a coisa é bem diferente.
Fiquemos atentos, portanto, e lembremos que mais importante do que o bate-boca dos aspones é o funcionamento do posto de saúde.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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