Mudar de ideia fica difícil, afirmam os pesquisadores de Harvard, quando
se vive num ciclo em que só se lê aquilo que já confirma sua própria
visão de mundo, seja ela qual for. Bene, em minha experiência de muitos
anos na universidade, constatei sem pesquisa: ideologia emburrece:
O que França, Alemanha, Itália, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos
têm em comum? Em geral, seus cidadãos não fazem a menor ideia de quantos
são, quem são, que religião praticam e quanto ganham os imigrantes
legais de seus países. Foi o que concluíram, em 2018, três pesquisadores
do Departamento de Economia da Universidade Harvard, Alberto Alesina,
Armando Miano e Stefanie Stantcheva.
Utilizando um questionário online desenvolvido especialmente para o
projeto, a equipe entrevistou cerca de 24 mil pessoas nos seis países.
“Em todos os locais, os entrevistados superestimam o total de
imigrantes, consideram que eles são muito distantes em termos culturais e
religiosos e têm menor potencial econômico do que de fato possuem. Os
cidadãos em geral consideram os imigrantes menos educados, com maiores
taxas de desemprego e maior dependência de ajuda do governo do que a
realidade aponta”. As pessoas também exageraram o percentual de
imigrantes vindos do norte da África e o total de praticantes do
islamismo.
No Brasil, na mesma época, a pesquisa Perigos da Percepção, realizada
pelo instituto Ipsos, chegou a resultado semelhante: apenas 0,4% da
população nacional é formada por imigrantes, mas ainda assim os
entrevistados disseram, em média, que 30% dos moradores do país são
cidadãos vindos de outros lugares. Os brasileiros também afirmaram que
16% da população é muçulmana. Na verdade, a religião é praticada por
menos de 1% do total.
Por que isso acontece? Como é possível que a percepção das pessoas
seja tão diferente da realidade? Os três pesquisadores de Harvard
realizaram um novo estudo, que abrangia outros temas sensíveis além da
imigração. O trabalho foi publicado em janeiro deste ano (no dia 23 de
maio, um dos autores, Alberto Alesina, morreu aos 63 anos). E confirma: a
ideologia interfere diretamente na capacidade de apreender fatos.
Construção de narrativas
A pesquisa de 2020, chamada The Polarization of Reality, comparou a
posição de republicanos e democratas a respeito de temas como imigração,
mobilidade social e políticas para tentar diminuir as desigualdades
sociais, como um sistema tributário progressivo e a concessão de ajuda
financeira da parte do governo. O objetivo era entender como cada
entrevistado constrói sua opinião.
Os economistas identificaram que os conservadores são muito mais
otimistas sobre as chances de uma pessoa, saindo de classes sociais mais
pobres, alcançar classes mais abastadas. Por outro lado, entre quem se
identifica com um espectro político mais à esquerda, 37,4% consideram
que uma pessoa pobre continuará sendo pobre. Entre os republicanos, esse
percentual é muito menor, 29,5%.
De fato, a percepção da economia varia muito de acordo com a visão
política do cidadão, como apontou a pesquisa Consumer Confidence Survey
realizada em abril de 2019: 80% dos republicanos expressavam confiança
na economia sob o governo do presidente Donald Trump, contra 42% dos
democratas. E esse tipo de visão da realidade interfere nas opiniões dos
entrevistados sobre programas sociais de todo tipo, e até mesmo na
posição sobre, por exemplo, a adoção de medidas mais educativas ou mais
violentas contra criminosos.
Olhar aberto
Essas diferenças são construídas ao longo dos anos, dizem os
pesquisadores, na medida em que as pessoas buscam informações em fontes
coerentes com sua visão de mundo. “Muitos assuntos são sujeitos a
narrativas políticas. Apresentar fatos que apontem numa direção
diferente mudam pouco a visão de mundo das pessoas”. Mudar de ideia fica
difícil, afirmam os pesquisadores de Harvard, quando se vive num ciclo
em que só se lê aquilo que já confirma sua própria visão de mundo, seja
ela qual for.
Adam Berinsky, professor de ciência política do Massachusetts
Institute of Technology (MIT), chegou à conclusão parecida quando
analisou rumores e boatos na política. Descobriu que, na maioria dos
casos, tentar corrigir as fake news só pioras as coisas. “As pessoas
usam sua experiência metacognitiva – ou seja, quão fácil é relembrar ou
coletar novas informações – como um sinal de veracidade da informação.
Ou seja, quando mais uma afirmação é repetida, mais fluida se torna sua
apreensão”, concluiu no artigo Rumors, Truths, and Reality: A Study of
Political Misinformation. Por outro lado, quando se rompe esse ciclo, a
atitude de se manter aberto a novas informações e novas experiências
altera até mesmo a percepção visual.
Foi o que concluiu uma pesquisa realizada dentro das Universidade de
Melbourne, na Austrália. “Indivíduos mais abertos a observar um
determinado ambiente apresentam experiências visuais diferentes, na
medida em que captam detalhes que outras pessoas não percebem”, conclui o
trabalho, chamado Seeing it Both Ways: Openness to Experience and
Binocular Rivalry Suppression. É possível, portanto, e recompensador,
abrir-se para novas informações e novas experiências. (Tiago Cordeiro para a Gazeta do Povo).
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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