A "democracia radical" assenta numa lógica muito pouco democrática, pela
qual uma minoria reivindica um acesso privilegiado à verdade e à pureza
moral, e tenta impô-la silenciando todas as outras vozes. Patrícia
Fernandes para o Observador:
Em 1997, Maria Filomena Mónica consagrou a expressão “filhos de Rousseau” num ensaio
sobre a realização de exames ao longo do percurso escolar. Ao fazê-lo,
remetia para a progressiva influência da visão rousseauniana na educação
após o 25 de Abril. Mas que influência poderia ter um filósofo
genebrino do século XVIII nas políticas educativas nacionais do século
XX?
O atrativo de Jean-Jacques Rousseau resulta de ter legado um
pensamento que combina, de forma harmoniosa, uma visão política com
intuições antropológicas e pedagógicas. A sua primeira tese afirma que o
desenvolvimento das ciências e das artes (o conhecimento) não torna os
homens mais virtuosos – pelo contrário, torna as sociedades sempre
moralmente piores (1.º Discurso).
Isso acontece porque os homens são naturalmente dotados de uma
sabedoria pré-racional que nos permite conhecer tudo o que
verdadeiramente importa; no conhecimento científico há, pelo contrário,
uma artificialidade que nos afasta do essencial. De acordo com Rousseau,
a história do homem é, na verdade, a história da corrupção humana: o
caminho histórico que percorremos de homens selvagens a povos
civilizados significou o desenvolvimento de instituições sociais e
políticas que nos retiraram a liberdade e a igualdade naturais (2.º Discurso).
Enquanto vivemos isolados, éramos seres dotados de empatia natural, mas
a convivência com os outros e a vivência em sociedade despertaram em
nós os sentimentos negativos que identificamos no homem moderno. É,
sobretudo, a comparação com os outros que transforma a nossa natureza
benévola em seres competitivos, invejosos, ávidos de reconhecimento. Eis
a teoria do bom selvagem: o homem nasceria bom e é a sociedade que o
corrompe, pelo que Rousseau vai defender uma tese de educação negativa (Emílio ou da educação):
não devemos sujeitar as crianças a uma cartilha de imposição e
autoridade sociais; pelo contrário, devemos dar liberdade às crianças
para serem o que autenticamente são e, com o tempo, deixar que
desenvolvam mecanismos de adaptação à sociedade. Era a esta cartilha
pedagógica que Maria Filomena Mónica se referia em 1997 e que foi
progressivamente adotada no mundo ocidental na segunda metade do século
XX.
Quais são as consequências políticas destas ideias? Elas encontram-se na obra O Contrato Social:
naquele que será, provavelmente, o primeiro texto de cariz
revolucionário da história da filosofia, Rousseau apresenta a sua
proposta política como a única possibilidade de recuperarmos a liberdade
e a igualdade perdidas. E será esta proposta política a principal
influência do movimento
que nasce nos anos 60 na academia norte-americana ligado às teorias de
democracia participativa. De acordo com estas, para termos um sistema
verdadeiramente democrático devemos afastar qualquer mecanismo de
representação, pois a essência da democracia reside na participação
direta dos membros da comunidade. Mais do que isso: a dinâmica
democrática não se deve restringir ao espaço político, mas deve ser
alargada a todas as esferas da vida humana: familiar, laboral,
universitária, etc. Recuperando o espírito dos antigos, Rousseau não
considerava a diferença entre esfera pública e esfera privada: tudo é
política e, por isso, tudo é espaço de revolta.
Ora, foi esta filosofia da revolta que se foi infiltrando no mundo
académico ao longo dos últimos 50 anos e é, nesse sentido, que podemos
recuperar a expressão de Maria Filomena Mónica para compreender os
acontecimentos atuais: vivemos hoje o tempo dos filhos de Rousseau na
medida em que temos várias fornadas, em especial no mundo
anglo-americano, daqueles que foram criados e formatados num ambiente
académico embebido nessa filosofia da revolta. É isso que encontramos no
movimento woke do politicamente correto; é isso que encontramos nos
ataques à liberdade de expressão e nas ações de deplatforming; é isso
que encontramos na censura a obras do passado e no derrube de estátuas; é
isso que encontramos no novo entendimento da universidade como
produtora de ativistas sociais; é isso que encontramos na recusa de que
há esferas privadas e de intimidade em que o poder político não se deve
imiscuir.
Como em Rousseau, temos aqui a reivindicação de uma pureza interior e
de uma moralidade superior que se traduz na desvalorização dos vários
agentes e áreas do conhecimento. Por essa razão, não interessa se os
filhos de Rousseau sabem pouco ou nada de história e filosofia, para
além do que leram no número limitado de caracteres das redes sociais, ou
se não leram nem um dos grandes clássicos da literatura: o que
interessa é a certeza de sentirem que estão certos e poderem, por isso,
reivindicar o direito a contestar e derrubar, ao estilo jacobino, todas
as convenções sociais. Afinal, só há uma forma legítima de viver – e
essa é a forma dos Social Justice Warriors: agir rápida e emotivamente
em resposta a todos os impulsos imediatos. E se a maioria dos membros da
comunidade não o faz, pior para ela. Os filhos de Rousseau não
renunciarão a essa missão mesmo que a sua opinião seja amplamente
minoritária.
Como quase sempre acontece nos movimentos políticos, também este foi
desencadeado pelo instinto de criar uma sociedade mais justa. Mas o que
temos assistido nos últimos anos são consequências que devemos
questionar. Na verdade, a democracia radical assenta numa lógica muito
pouco democrática, pela qual uma minoria reivindica um acesso
privilegiado à verdade e à pureza moral e tenta impor essa verdade,
silenciando todas as outras vozes. Jean-Jacques Rousseau é um dos
filósofos mais apaixonantes e cativantes da história da filosofia, mas
é, simultaneamente, assustador. Os seus filhos não o são menos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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