O confronto entre o senador e os policiais nada mais é do que uma
tentativa, dos dois lados, de se impor pelo medo, e não pelo respeito,
diálogo e consenso. Artigo de Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta:
Cid Gomes tem 56 anos. Desde 2018, ele é senador da República pelo
PDT. Formado em engenharia civil, ele foi ministro da Educação no
governo de Dilma Rousseff e governou o Ceará por dois mandatos. Ah, e
ele é também irmão do eterno presidenciável Ciro Gomes. Esse homem, cria
de um Brasil patrimonialista, de um Estado personalista e de uma
dinastia política indissociável da palavra “coronelismo”, quase provocou
uma tragédia em seu reduto eleitoral, a cidade de Sobral.
Em meio a um motim de policiais militares que assola a cidade de 200
mil habitantes, o senador da República, que teoricamente (teoricamente!)
deveria resolver conflitos na tribuna do Senado, munido de palavras,
raciocínio lógico e poder de convencimento, subiu numa retroescavadeira,
uma máquina com até 10 toneladas, e a lançou contra os amotinados. A
retroescavadeira avançou por poucos metros e arrancou um portão de
ferro. Cid Gomes estava prestes a causar uma tragédia quando alguém
resolveu tomar uma atitude extrema.
Um dos policiais militares amotinados e mascarados sacou sua arma e
disparou contra o senador Cid Gomes. Os dois tiros o atingiram no peito,
mas milagrosamente desviaram dos órgãos vitais. Depois de uma noite na
UTI tratando dos ferimentos, Cid Gomes já está na enfermaria, de onde
gravou um vídeo assustadoramente eleitoreiro, levando em conta que ele
quase perdeu a vida por uma sandice que poderia ter custado também a
vida de outras pessoas.
Violência física e retórica
O confronto físico de Cid Gomes é muito simbólico dessa elite
política brasileira que enche a boca para falar em democracia, Estado
Democrático de Direito, paz social e outras abstrações virtuosas quando
na tribuna do Parlamento, mas que não hesita em bancar uma espécie de
sinhozinho com poderes divinos e absolutos na boleia de uma
retroescavadeira. Vale repetir para que o ato tresloucado do nobre
senador não seja banalizado: sem os tiros que, por sorte, não o mataram,
Cid Gomes poderia ter provocado a morte de um, dois, dez policiais
militares.
Cid Gomes, juntamente com seu irmão, Ciro, foram, nos últimos anos,
protagonistas de vários episódios que mostram esse estranho pendor
familiar para o confronto verbal e, às vezes, físico. Quando ministro da
Educação, por exemplo, Cid Gomes ocupou a tribuna da Câmara dos
Deputados para, fiel ao estilo belicoso que lhe é característico,
derrubar todos os protocolos e eventuais decoros, xingando os colegas
deputados de “achacadores”.
A retórica virulenta parece correr no sangue da família. O irmão mais
famoso de Cid, Ciro Gomes, se notabilizou por “não ter papas na
língua”, o que é visto, pasmem!, como virtude por alguns setores da
sociedade. Enquanto a aventura justiceira de Cid quase lhe custou a
vida, a língua solta e violenta de Ciro lhe custou uma eleição
presidencial quando ele humilhou uma eleitora que havia perguntado por
que a Copa do Mundo, e não a saúde pública, era uma prioridade do
governo. Recentemente, essa valentia toda custou a Ciro Gomes um carro,
empenhado para que ele pagasse uma indenização ao vereador Fernando
Holiday, depois de tê-lo agredido verbalmente.
Mais do que um caso destinado ao extenso anedotário político
brasileiro, a investida de Cid Gomes contra os policiais e os tiros que o
atingiram são simbólicos de uma sociedade que cada vez menos busca o
consenso como forma de convivência. A moda é usar a força em todas as
manifestações. Às vezes é uma piada de extremo mau gosto, às vezes é um
palavrão no perfil de uma rede social. Às vezes é uma promessa de
receber um juiz à bala, às vezes é usar uma retroescavadeira para acabar
com uma greve minutos depois em se dizer desarmado e em busca de paz.
Bordão gasto, mas necessário
Para um louco, a loucura faz todo o sentido do mundo. A loucura é
produto de um conjunto de valores, emoções e até fatos concretos que,
uma vez distorcidos, criam um cenário alucinado que, para o louco,
parece tão óbvio quanto uma pintura de Dalí. Para o espectador, o ato de
Cid Gomes parece ilógico, mas não é. Shakespeare dizia que havia método
na loucura – e é uma pena que isso tenha se transformado tão-somente
num bordão de analista político. Porque é à luz dessa loucura com método
e consequência que o ato de Cid Gomes deve ser analisado.
Na impossibilidade de perguntar ao acamado Gomes, vale a pena se
perguntar aqui, retoricamente, com que objetivo uma pessoa sobe numa
retroescavadeira para debelar uma greve de policiais militares
encapuzados e armados. Ela está mesmo interessada em acabar com o motim?
Ela realmente acredita que a força da máquina servirá de argumento para
fazer com que aqueles homens desistam do motim e de suas
reivindicações? Essa pessoa tem noção do que significa uma vida
potencialmente perdida nesse confronto? Essa pessoa dá valor à própria
existência?
Ou será que para os Gomes, bem como para todos os políticos dessa
estirpe, tudo isso não passa de um grande teatro que tem como horizonte a
manutenção de um poder político ancestral?
Aqui e ali já aparecem tentativas de transformar Cid Gomes no mártir
que ele definitivamente não é. Afinal, o senador não defendia nenhuma
causa exatamente nobre (muito menos cristã). E, aqui, já me adianto ao
paralelo mais óbvio que alguém certamente traçará entre os tiros que Cid
Gomes levou em sua luta contra os policiais e a facada que o então
candidato Jair Bolsonaro levou durante a campanha de 2018. Nenhum dos
dois é mártir, mas o que diferencia Bolsonaro de Cid Gomes é que o
primeiro foi uma vítima passiva de um ato tresloucado, embora muitos
ainda acreditem que Adélio Bispo faça parte de uma grande conspiração
comunista. Já Cid Gomes foi agente da própria semitragédia.
Imposição pelo medo
No final das contas, toda essa balbúrdia parece uma manifestação
sanguinolenta do espírito do tempo – outro conceito que, de tanto ser
usado por analistas políticos, acabou se perdendo e virou apenas um
atalho verbal.
De um lado, um senador que abdica do seu poder, no sentido mais
civilizado do termo, para lançar uma retroescavadeira contra os
policiais. De outro, esses mesmos policiais, encapuzados e armados como
os bandidos que juram combater, ignorando o valor hierárquico da
profissão, pondo seus interesses pecuniários muito palpáveis acima dos
conceitos abstratos que um dia juraram proteger, como a paz e a ordem
pública.
O confronto entre a dupla senador & retroescavadeira contra os
policiais militares amotinados nada mais é do que uma tentativa
primitiva (e desesperada, como todas essas coisas primitivas), dos dois
lados, de se impor pelo medo, sempre pelo medo, e não, nunca pelo
respeito, pela dignidade, pelo diálogo, pelo consenso.
O que é bem compreensível. Medo é algo que se impõe rapidamente –
basta um tacape, uma pedra, uma retroescavadeira. Já respeito é algo que
se leva muito tempo para construir e cuja manutenção exige que se beba
continuamente na fonte semiárida da sabedoria.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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