George Soros é o último suspiro do establishment esquerdista, escreve Juan Ramón Rallo, em artigo publicado pelo Instituto Mises:
NOTA DO EDITOR - O artigo abaixo foi originalmente publicado em
fevereiro de 2018. À época, George Soros estava em campanha aberta —
publicando colunas de opinião nos principais veículos midiáticos
mundiais — pela censura do Facebook, com o argumento de que a rede era
"uma ameaça à sociedade" (tradução: a rede era uma ameaça ao monopólio
das ideias progressistas).
Hoje, Soros voltou à carga e raivosamente pediu a cabeça de Mark
Zuckerberg, CEO do Facebook (que também controla o WhatsApp e o
Instagram), agora com um argumento bem mais direto: se estas redes
sociais não forem controladas (isto é, censuradas), Trump será reeleito.
Sim, ele realmente disse isso — e ainda concluiu reafirmando explicitamente que "eu defendo uma regulação governamental sobre as redes sociais".
Em janeiro deste ano, Soros já havia publicado uma coluna
no The New York Times apresentando o mesmo argumento, com a mesma
explicitude: ou o Facebook muda, ou a rede irá reeleger Trump — e assim
manter os democratas, que são fartamente financiados por Soros, afastados da Casa Branca (um crime, ao que parece).
Ou seja, trata-se do mesmo argumento já apresentado em 2018: as redes
de Zuckerberg (Facebook, WhatsApp e Instagram) — que foram
instrumentais no Brexit e na vitória de Boris Johnson no Reino Unido
—, por permitirem a divulgação de ideias conservadoras, furaram a bolha
e, com isso, afetaram severamente o monopólio das ideias progressistas
na mídia, monopólio este que sempre foi defendido por Soros.
E isso está gerando resultados eleitorais que desagradam Soros.
Este imbróglio interessa diretamente ao Brasil porque aqui, assim
como lá fora, argumenta-se que as redes sociais estão sendo cruciais
para a derrota da hegemonia cultural da esquerda. Essa briga, sob o
comando de Soros, ainda chegará aqui.
Confira, no artigo abaixo, como tempo passou e nada mudou.
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O multimilionário George Soros, o principal financiador de todas as causas progressistas ao redor do mundo, está em campanha aberta contra as redes sociais. Em um artigo para o jornal britânico The Guardian, que vem causando grande repercussão, ele alertou que a sociedade aberta corre perigo por causa das redes sociais.
[Curiosamente, na mesma semana, alguns veículos brasileiros também defenderam a regulação das redes sociais].
O argumento de Soros é, essencialmente, o seguinte:
a) as redes sociais estão sendo monopolizadas por poucas e grandes empresas, como Google e Facebook;
b) tornou-se extremamente simples para essas plataformas utilizar
seus enormes volumes de informação para manipular seus usuários;
c) os usuários podem ser manipulados pelas redes não só em relação a
suas preferências comerciais, como também em relação a suas preferências
políticas;
d) esta capacidade de manipulação política pode se tornar
especialmente danosa caso tais "monopólios" privados se aliem a estados
autoritários para sabotar os valores das sociedades abertas ocidentais;
e) exatamente por tudo isso, os estados democráticos devem destruir
as plataformas das redes sociais mediante impostos e regulações
asfixiantes.
Uma parte do diagnóstico de Soros até está correta: as redes sociais
de fato têm a capacidade de influenciar politicamente seus usuários e,
consequentemente, de torná-los instrumentos de estados autoritários que
querem insuflar sua propaganda com o propósito de impor sua ideologia
específica, o que pode até destruir as bases da convivência pacífica.
Desconsiderar a existência deste perigo seria ingênuo e até desonesto.
No entanto, é igualmente ingênuo e desonesto acreditar — como faz
Soros — que estes perigos podem ser resolvidos por meio de uma canetada
que outorgue aos "estados democráticos" (na prática, apenas aqueles
aprovados por Soros) a competência de controlar as plataformas das redes
sociais.
Com efeito, tal ideia não é apenas ingênua e desonesta: ela é extremamente ameaçadora.
Problemas elementares
Soros diz temer uma aliança entre governos autoritários e os grandes "monopólios"[1]
das redes sociais, mas, ao mesmo tempo, defende entregar o controle das
redes sociais a outros governos — desde que sejam "democráticos".
Haverá aqueles que não vêem contradição — ou mesmo contra-indicação —
nenhuma nessas sugestões: afinal, dirão eles, se as redes sociais forem
administradas pelos governos e forem manipuladas a favor da democracia,
então a sociedade aberta poderia até mesmo sair reforçada. Ou, em
outras palavras, se nós somos bons e morais, não há o que temer em
utilizar nosso poder para impor o bem perante o mal.
Por razões elementares, esta tese é totalmente problemática.
Primeiro, comecemos pelo mais básico de tudo: o que ocorrerá se, após
tomarem o controle das redes sociais, os governos democráticos se
tornarem autoritários? Neste caso, a principal proposta de Soros para
combater o mal irá se converter em sua principal força-motriz: querendo
vetar a influência de governos autoritários sobre as redes sociais,
Soros estará lhes entregando o poder em uma bandeja de prata.
Mas qual a probabilidade de um governo democrático se tornar
autoritário ou quase-autoritário? Enorme. De um lado, há o explícito
exemplo da Venezuela (e, em menor grau, de Equador e Bolívia). De outro,
da perspectiva do próprio Soros, governos como o de Trump e o de Viktor Orbán (Hungria) seriam quase-autoritários. E há também o exemplo da França, que quase foi para Marine Le Pen, de quem Soros é inimigo declarado.
Sendo assim, a pergunta inevitável é: por acaso Soros ficaria
entusiasmado se Trump, Orbán ou Le Pen passassem a controlar o Facebook e
o Google? É certo que não. No entanto, é exatamente isso o que ele está
propondo ao defender que o estado controle as redes sociais.
A segunda razão por que esta tese é insensata: como determinar quais
ideologias o governo deve tolerar em seu controle das redes sociais? Se o
estado irá utilizar as plataformas das redes sociais para impor
'valores corretos' aos cidadãos, será o próprio governo quem irá
estabelecer a fronteira entre os valores corretos e os incorretos.
É certo que Soros — progressista inflexível — tem sua opinião sobre
quais são esses valores corretos. Com efeito, é até mesmo provável que
ele tenha sua opinião sobre o quanto as pessoas podem se desviar desses
valores corretos sem que a sociedade aberta se desmorone. Porém, banir
de todas as redes sociais aqueles valores que o governo considere
disfuncionais equivale a instaurar uma censura digital.
Além dos vários e óbvios perigos derivados de se outorgar ao governo o
poder de censurar aquelas idéias que lhe são incômodas, resta a
pergunta: como possibilitar um pensamento verdadeiramente crítico quando
certos valores (no caso, os progressistas) são decretados como
intocáveis ou inquestionáveis?
Se Soros estivesse, junto a Obama, no controle das redes sociais nos
EUA, teria ele dado algum tipo de cobertura midiática a Trump ou teria
distorcido as redes em favor de Hillary Clinton (de quem ele é amigo fiel)? E por que deveríamos supor que todas as idéias e propostas de Hillary eram preferíveis às de Trump?
Não há espaço para preferir honestamente alguém como Trump em relação
a alguém como Hillary? Em que medida um governo democrático com poder
de vetar várias opções políticas não irá se converter em um governo
autoritário?
Em definitivo, na mais benevolente das hipóteses, George Soros erra
ao, de maneira bem intencionada, querer propor um maior controle
governamental sobre as redes sociais. Já na pior das hipóteses — que é a
mais provável —, ele quer alimentar um alarmismo anti-redes sociais com
o intuito de legitimar que os governos as controlem e as utilizem para
aprofundar sua agenda progressista.
A real intenção
É fato que as redes sociais, ao se transformarem em meios de
comunicação em massa e para as massas, se transformaram também em
potenciais meios de manipulação das massas. No entanto, no que isso
difere da grande mídia?
As redes sociais são hoje o que já foram os grandes jornais, o rádio e
a televisão. No entanto, diferentemente do que ocorreu a essas outras
tecnologias, o custo para o usuário de uma rede social é extremamente
baixo: ele pode mudar de meio de comunicação, recorrer simultaneamente a
vários meios de comunicação, ou até mesmo se tornar ele próprio um meio
de comunicação — e tudo isso a um custo quase nulo.
E a verdade é que, mesmo sendo suscetíveis a manipulações, as redes
sociais atualmente proporcionam ao cidadão comum muito mais armas para
contra-atacar o risco de manipulação das notícias do que jamais
proporcionaram a imprensa escrita, o rádio e as televisões.
Sendo assim, então de onde vem este atual pânico em relação às redes
sociais? Dado que o eleitor sempre esteve à mercê da manipulação dos
grandes meios de comunicação, e dado que a internet proporciona ao
cidadão comum muito mais armas para contra-atacar essa manipulação do
que jamais proporcionaram os outros meios de comunicação, então por que
tantas vozes influentes estão gritando contra as redes sociais, e
exatamente com a desculpa de ajudar ao cidadão comum?
É fácil: porque os meios de comunicação tradicionais eram muito mais
facilmente controláveis e manipuláveis pelos governos. E é esse arranjo
que Soros quer recriar.
Ninguém em sã consciência pode dizer que a mídia tradicional sempre
foi de uma imparcialidade e ponderação inflexíveis, e que jamais
espalhou notícias falsas (as 'fake news'). Ao contrário: a mídia
tradicional sempre foi claramente percebida pela população como um meio
alinhado aos interesses dos governantes da vez.
Logo, o estridente ataque de Soros às redes sociais busca reverter
exatamente isso: ele quer recolocar as descentralizadas redes sociais
sob as ordens do estado para, assim, restabelecer seu controle político
sobre os meios de comunicação — e, com isso, tornar dominante o status
quo progressista e social-democrata que ele sempre financiou.
[1]
O termo 'monopólio' está entre aspas porque não há monopólio nenhum
neste setor. Não há nenhuma regulação estatal proibindo o surgimento de
redes sociais concorrentes. A proibição estatal à concorrência é a
definição precípua de monopólio.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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