O tom geral dos relatos descreve Cid, um dos mais agressivos inimigos do
governo Bolsonaro, como vítima – afinal, levou um tiro com bala de
borracha dos policiais, escreve J. R. Guzzo. Agir do jeito que ele agiu é típico do coronelismo regional, aliás:
“Decoro” – eis aí uma das palavras mais utilizadas na linguagem política de hoje no Brasil.
Pelo jeito, porém, ela não pode ser aplicada como consta no dicionário –
só vale quando se refere a pessoas que estão no governo ou são a favor
dele, e principalmente ao presidente da República.
Estes são obrigados a agir, falar e pensar com decoro em tudo o que
fazem. Seus adversários, porém, estão livres dessa exigência.
Podem, inclusive, arremessar uma retroescavadeira
contra um grupo de policiais grevistas, ou amotinados, sem que passe
pela cabeça de ninguém cobrar “decoro” do autor do ataque. É o que acaba
de acontecer na cidade de Sobral, no Ceará, onde o senador licenciado Cid Gomes,
um dos mais agressivos inimigos do governo, achou por bem avançar
contra os grevistas na direção de uma máquina de construção pesada.
Ninguém, na mídia e no mundo político, achou nada demais.
Cid foi desculpado como um homem que é nervoso por natureza, coitado,
e está mesmo sujeito a esse tipo de surto. É preciso entender que se
trata de um homem esquentado, acostumado a fazer “política de
confronto”, e que o ato de enfiar uma retroescavadeira em cima de um
grupo de policiais deve ser considerado uma coisa mais ou menos normal
para alguém como ele. Na verdade, o tom geral dos relatos descreve Cid
como uma vítima – afinal, levou um tiro com bala de borracha dos policiais, e correu o risco de se machucar.
A atitude correta, na política brasileira de hoje, é pedir o impeachment do presidente
a cada vez que ele se mete num bate-boca com algum adversário. Cid
Gomes? É apenas um sujeito de cabeça quente. Deixem o homem sossegado.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Metrópoles
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário