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| Nascida na Somália, a deputada faz essa carinha sempre que se fala em terrorismo. |
Trump solta as feras. Mas fazer carinha de santas ofendidas, como Ilhan
Omar e colegas de 'Esquadrão', não elimina o fato de que têm culpa no
cartório. Texto de Vilma Gryzinski:
Não interrompa o inimigo quando ele estiver cometendo um erro.
Donald Trump não é de ouvir conselhos sábios, nem que sejam de Napoleão. Aliás, todo mundo sabe que não é nenhum Napoleão.
Mas certamente segue a estratégia da audácia, mesmo que pareça autodestrutiva.
As duas correntes do Partido Democrata, a velha guarda e a nova,
estavam se canibalizando em praça pública. Alexandria Ocasio-Cortez, a
rainha das redes sociais, atrás apenas do próprio Trump no uso sagaz do
Twitter, reagiu com mordidas virtuais às críticas da veterana Nancy
Pelosi, a poderosa presidente da Câmara dos Representantes.
Cinquenta anos as separam: Nancy tem 79 anos e Alexandria, 29. Nancy
sabe tudo dos bastidores do poder. Contra um bocado de resistências
internas,, conseguiu voltar ao terceiro cargo mais importante do país
articulando como profissional requintada e implacável, depois que o
Partido Democrata recuperou a maioria na Câmara.
Com tanta bagagem, perdeu a posição de representante da “esquerda de
São Francisco” para a jovem guarda. Em termos americanos, Alexandria e
sua turma, as quatro deputadas que formam o “Esquadrão” estão à esquerda
de Pol Pot.
Duas delas, Ilham Omar, emigrante da Somália, e Rachida Tllaibi, de
uma família de palestinos de Gaza, reúnem uma combinação sinistra:
esquerdismo e islamismo.
A quarta é Ayanna Presley, da ala militância negra, esquerdista mais tradicional.
Qualquer crítica, por mais indireta que seja, como fez Nancy Pelosi
ao comentar que quem ganha voto na Câmara não é o Twitter, e todas se
fazem de ofendidas.
Mulheres fortes e modernas, treinadas para fazer política, ótimas de
comunicação, revertem para a posição de vítimas. Tudo, tudo, choramigam,
é porque são “mulheres de cor”.
Esta expressão antiga (usada como em “person of colour”, não
“coloured”, pelo amor dos céus) foi ressuscitada como um guarda-chuva
sob o qual se abrigam indianos espetacularmente bem sucedidos,
sul-coreanos que enfrentam discriminação reversa nas universidades para
não ganharem todas as vagas e assim vai.
‘Corruptos, ineptos’
Tão rápidas em ocupar o papel de vítima quando é conveniente,
imaginem o escândalo que as deputadas do “Esquadrão” fizeram quando
Trump teve um surto de tuítes perigosos e discriminatórios.
Como tudo, hoje, é racismo, eles foram enquadrados nessa categoria. O
mais correto seria discriminação por origem nacional, mas ninguém vai
ter sutileza numa hora dessas.
O primeiro: “É tão interessante ver as deputadas democratas
‘progressistas’ que originalmente vieram de países cujos governos são um
desastre total e completo, os piores, mais corruptos e ineptos de
qualquer lugar do mundo (isso se tiverem um governo com alguma
funcionalidade), agora estrondosamente…
“… e perversamente dizer ao povo dos Estados Unidos, a maior e mais
poderosa nação da terra, como nosso governo deve ser tocado. Por que não
voltam e ajudam a consertar os lugares completamente falidos e
infestados pelo crime dos quais elas vieram. Depois, voltam para cá e
nos mostram…”
“… como fazer. Estes lugares precisam muito da ajuda de vocês, não dá
para ser suficientemente rápido para ir embora. Tenho certeza que Nancy
Pelosi ficaria muito feliz em arranjar rapidamente a viagem grátis.”
Um resumo dos significados problemáticos: Trump insinua que elas não
são americanas de verdade e , em seus termos, prega o slogan “Estados
Unidos, amem-nos ou deixem-os”.
Tudo errado, claro. Como o Brasil, os Estados Unidos são um país de
imigração, com a nacionalidade definida pelo nascimento em solo pátrio,
via paternal ou naturalização (outros países são diferentes).
A ideia de que a bandeira estrelada unifica a formidável variedade
étnica é um princípio fundamental, muito importante inclusive nas Forças
Armadas, a porta de entrada para a cidadania e melhores oportunidades
para muitos não nacionais.
Trump foi chicoteado e condenado numa moção da Câmara. Nancy Pelosi
surtou e fez a amiguinha para as quatro inimiguinhas do “Esquadrão”.
Pela milionésima vez, pediram o impeachment dele.
Quem continua a achar que Trump é bobo, maluco, supremacista branco etc etc, não vai mudar de opinião.
Só para dar uma ideia de oposição que ele encontra: em dez dias,
desde o primeiro tuíte, no domingo retrasado, dia 7, a palavra “racista”
foi usada 1 100 vezes nos dois canais a cabo onde o antitrumpismo virou
militância oficial, a CNN e o MSNBC.
Trump é tão imprevisível e anárquico que algumas cabeças frias viram
por trás da saraivada de tuítes uma estratégia calculada: obrigar o
Partido Democrata a cerrar fileiras com as deputadas do “Esquadrão”,
apoiando indiretamente plataformas que a maioria dos americanos detesta.
Desse ponto de vista, não falta o que detestar nas quatro deputadas.
AOC, a mais popular delas, com seu nome de DJ, defende o socialismo,
recusa-se a criticar o pavoroso regime venezuelano e tem um “plano” para
arruinar a economia americana em questão de décadas, com maluquices
pseudoecológicas.
Com a beleza delicada dos povos nilóticos, Ilham Omar é um espanto.
Fugiu com a família quando a Somália vivia situações surreais: um golpe
marxista-leninista seguido do assassinato de dois autoproclamados
presidentes, a instauração de um Supremo Conselho Revolucionário, uma
guerra de agressão contra a Etiópia, guerra civil e fragmentação entre
facções armadas.
Foi para tentar conter o desastre humanitário e o alto risco político
que os Estados Unidos na época do governo de Bush pai, com mandato da
ONU, mandaram tropas para o país. Uma ideia infeliz. Proteger a
distribuição equânime de comida significava enfrentar os “senhores da
guerra”, os chefes de milícias locais.
Acabou no episódio retratado no espetacular filme Black Hawk Down, a
parte mais conhecida da Batalha de Mogadishu (dois helicópteros
derrubados, 18 mortos, 73 feridos do lado dos americanos; um número
vagamente calculados em mil somalianos mortos, dos quais uns 200 civis).
Muitos americanos que ainda se lembram do episódio ficam loucos
quando Ilham Omar diz que os problemas de terrorismo são causados pelas
intervenções no Oriente Médio e adjacências.
Al Qaeda e ISIS? Ah, não vai “dignificar” esses assuntos. Caindo na
risada, ela lembrou uma “aula de terrorismo” que tinha na faculdade e o
professor “levantava os ombros cada vez que falava Al Qaeda”. Mais
risadas.
Onze de setembro? “Umas pessoas fizeram umas coisas e todos nós começamos a perder acesso às nossas liberdades públicas.”
‘Jeito estranho’
Uma mentira escandalosa: ninguém perdeu nada e episódios isolados de
agressão a muçulmanos foram punidos como determina a lei; Bush filho
visitou uma mesquita logo depois dos atentados que mataram 3 000
pessoas.
Além disso, Ilham Omar disse que o CAIR, o Conselho de Relações
Americano-Islâmicas, existente desde 1994, foi fundado depois dos
atentados de 2001 por causa dessa “perseguição”.
Outras provas da discriminação? Tem gente que olha “de jeito
estranho” para ela. Ilham usa roupas modernas, mas cobrindo o corpo, e
turbantes muito chiques.
Também usa as técnicas do CAIR – derivadas da Irmandade Muçulmana –
de manipular habilmente os preceitos da democracia para promover a
ideologia islâmica.
E o antissemitismo. Nem usa os disfarces habituais de alegar críticas
legítimas a Israel ou ao sionismo. Ao entrar numa discussão justamente
sobre as teorias persecutórias que embalam o antissemitismo, tuitou:
“Its, all about the Benjamins, baby”.
É o trecho de uma música de Puff Daddy, usando uma designação popular
para dinheiro, através da nota de cem dólares, ilustrada por Benjamin
Franklin.
Estaria insinuando que instituições criadas por judeus americanos
compram influência no Congresso? “Aipac!”, respondeu. Uma referência a
um dos lobbies mais conhecidos.
Mentir ou nem sequer entender os fundamentos do país que acolheu sua
família (incluindo um irmão sobre o qual existe a desconfiança de que
virou seu “marido” para facilitar o asilo), é o que Ilham Omar faz o
tempo todo.
“Deixamos a Somália e viemos para e os Estados Unidos acreditando que aqui encontraríamos igualdade econômica”, já disse ela.
Além de mentiroso, errado. O contrato social americano oferece
meritocracia e livre competição, pelo menos mais livre do que em
qualquer outro país do mundo, como as formas mais eficazes de espalhar
prosperidade pelo maior número possível de pessoas.
It’s all about Thomas Jefferson, baby..
E tem uma dele também, sobre a qual Trump poderia meditar:
“Discriminação é a doença da ignorância, das mentes mórbidas. A educação
e a livre discussão são os antídotos.”
Se foi uma manobra para comprometer o Partido Democrata, com todas as
partes já envolvidas na eleição presidencial de novembro do ano que
vem, Trump pode ter sido esperto. Mas esperteza não é tudo.
Amanhã, na falta de mais tuítes, o assunto acaba.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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