O que é que o chalet de 600 mil euros do líder do Podemos em Espanha tem a ver com o escândalo da “princesa que não fuma”
na última campanha contra o tabaco em Portugal? Tudo: o chalet e as
princesas demarcam o território das novas esquerdas que na Grécia,
através do Syriza, substituíram o PASOK, ou que em Inglaterra, com
Jeremy Corbyn, tomaram por dentro o Partido Trabalhista, e que em
Portugal, usando a geringonça, contaminam o PS a partir do BE.
Toda a imprensa notou a contradicção ou a hipocrisia de Pablo Iglésias, que sempre ensinou que nunca se devia confiar num político com um chalet de 600 mil euros,
até ao dia em que ele próprio resolveu acabar com a farsa do pequeno
apartamento proletário, e comprar também ele um chalet de 600 mil euros
nos arredores burgueses de Madrid. Mas menos gente meditou depois no
facto de os activistas do Podemos terem avalizado, em referendo muito participado, a ascensão imobiliária do seu líder.
É este,
porém, o ponto importante. Os chalets de 600 mil euros ainda servem para
atacar os políticos da direita, mas já não mancham o CV das lideranças
da nova esquerda, aliás cada vez mais endogâmicas, como todas as
oligarquias (no casal Iglesias, ele é o secretário-geral do partido e
ela a porta-voz parlamentar). Podem dizer-me que o interesse da
esquerda, para os burgueses, foi sempre este: uma opção política que os
habilitava a gozarem os confortos e os luxos de consciência tranquila,
tal como as indulgências do papa amnistiavam outrora o consumo católico
de carne à sexta-feira. A superioridade moral da esquerda permite à
esquerda ser superior à moral.
Mas há
mais qualquer coisa nesta história: a esquerda de tipo Podemos nada deve
ao velho Povo, e portanto não precisa de imitar a sua modéstia ou de
esconder, como no caso de Iglesias, a prosperidade de uma carreira
política. A antiga classe operária com que contavam Marx e Lenine não
desapareceu simplesmente com as deslocalizações industriais para a
China. Mas mesmo aquela que, reformada ou desempregada, entretanto se
tornou dependente do Estado social vota hoje na Frente Nacional em França, em Donald Trump nos EUA ou prefere o Brexit no Reino Unido.
Para a
nova esquerda, o povo, agora visto como xenófobo, reaccionário e pouco
instruído, é hoje o inimigo, para grande desespero de um velho
esquerdista como, em França, Jean-Claude Michéa;
enquanto a burguesia, cosmopolita, tolerante e qualificada, é o amigo. A
nova esquerda — tal como extrema-esquerda de 1970, donde provem – não
depende de sindicatos, mas do activismo das universidades, da
comunicação social, e das “movidas” urbanas. Por isso, o “povo” deu
lugar às “minorias”, e a política da “igualdade” à política das
“diferenças”. A sociedade do futuro é agora imaginada como um aglomerado
de tribos urbanas — uma grande noite do Bairro Alto, garantida pelo
Estado social. O caminho já não passa pelas minas e pelas fábricas, mas
pela vitimização das “minorias” e pela culpabilização do “homem branco”.
Ainda fica bem lutar pelos “pobres”, claro, mas esses pobres são agora
preferencialmente os imigrantes.
As
velhas esquerdas obreiristas da Europa do século XX puderam contar,
durante décadas, com a fidelidade eleitoral dos operários ou dos
mineiros: votar social democrata ou comunista era parte da sua
“consciência de classe”. É uma réplica dessa fidelidade que a nova
esquerda tenta desesperadamente incutir aos frequentadores dos bares
urbanos do século XXI através do frenesim das causas fracturantes e do
politicamente correcto. O código de conduta dos novos progressistas é
assim: podem ter chalets de 600 mil euros, não podem é chamar
“princesas” às filhas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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