MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

terça-feira, 25 de abril de 2023

As grandes fortunas da Shopee

 BLOG  ORLANDO  TAMBOSI



O fato é que, para atualizar a clássica frase atribuída a Tim Maia, no Brasil prostituta se apaixona, cafetão tem ciúmes, traficante se vicia e liberal acha que tem que taxar mesmo as brusinhas da Shein. A crônica semanal de Ruy Goiaba para a Crusoé:


Talvez seja injusto, mas acontece: uma brincadeira comum nas redes sociais é chamar de “da Shopee” qualquer coisa ou pessoa que seja um “similar” barato e de má qualidade de outra pessoa ou coisa. Aquele participante do BBB que era chamado de “Gil do Vigor da Shopee”, por exemplo. Fulano é um Djavan da Shopee, Sicrana é uma Anitta da Shopee — bom, vocês já captaram o sentido.

Nesta semana, o governo de Lula, nosso querido pai dos pobres, inventou o conceito de “grandes fortunas da Shopee”. Lembram daquele discurso histórico da esquerda sobre taxar os super-ricos? Pois é, até o momento não aconteceu: mas você, que gasta até US$ 50 em brusinhas da própria Shopee, da Shein ou do AliExpress, agora vai pagar mais caro por elas. Tudo isso para favorecer Luciano Hang e outros empresários brasileiros bem pobrezinhos que vivem se queixando da “concorrência desleal” e do “camelódromo digital” promovido pelo comércio eletrônico made in China. Outra coisa: se você tiver grana, pode viajar para o exterior e voltar ao Brasil trazendo até US$ 1.000 em comprinhas que serão taxadas em exatamente zero, nada, niente pela Receita Federal. Quem mandou você ser pobre e ter que comprar a brusinha chinesa aqui no Bananão mesmo?

É claro que o governo já está fazendo seu spin — enrolação, em bom português brasileiro — para tentar transformar a medida impopular em algo bom, justo e necessário. A começar por Janja, primeira-dama e janjadora-geral da República, que em sua conta no Twitter assegurou que a taxação será “para as empresas e não para o consumidor”. Mas é claro! As empresas não repassam nada, nadinha dos impostos para os consumidores, e é por isso que um carro zero quilômetro no Brasil sai só um pouquinho mais caro que uma pizza. Foi divertido também acompanhar as respostas superespontâneas à primeira-dama na rede social, em posts como “puxa vida, Janja, obrigado por esclarecer! Assim a gente não espalha fake news!”. Naturalíssimo, exatamente como naquele caso em que um pessoal que mal sabia apontar o Piauí no mapa fez uma série de tuítes 100% orgânicos sobre as maravilhas da fibra ótica da gestão de Wellington Dias no estado.

Houve, é claro, respostas mais inteligentes, mas em graus de desonestidade variados. Oficialmente, o governo diz querer evitar fraudes — nesse caso, que empresas de varejo usem um benefício que é só para pessoas físicas. Ou seja, o Estado está dizendo “acaba logo com essa porcaria dessa isenção, já que a gente não consegue fiscalizar direito mesmo”. E há também o eterno argumento protecionista: não é uma medida para proteger Hang (ou Luiza Trajano), e sim os empregos dos trabalhadores brasileiros. Engraçado é que nessas horas, em vez de brigar a sério para baixar o custo Brasil, os empresários usam seu acesso privilegiado aos ouvidos do governo para fechar o país à concorrência externa. Dá supercerto, como na época da lei de reserva de mercado da informática: Apple e Microsoft barradas e brasileiros que queriam comprar um computador dentro da legalidade sendo obrigados a se virar com as carroças nacionais.

Quando a gente junta a fome arrecadatória do governo com a vontade dos grandes varejistas nacionais de comer o bolo sozinhos, o resultado é esse — aliás, Fernando Haddad e seus Blue Caps falando em arrecadar R$ 8 bilhões com a medida estão parecidos à beça com Paulo Guedes and His Comets prometendo conseguir R$ 1 trilhão com a venda de imóveis da União. O fato é que, para atualizar a clássica frase atribuída a Tim Maia, no Brasil prostituta se apaixona, cafetão tem ciúmes, traficante se vicia e liberal acha que tem que taxar mesmo as brusinhas da Shein. E, claro, o PT (Partido dos Trabalhadores) taxa o trabalhador para proteger o empresário, já que quem pode mais chora menos.

(Pensei em ilustrar este texto com uma imagem de Lula usando aquela camiseta “parem de ser pobres” do meme de Paris Hilton, produzida por inteligência artificial, mas achei melhor poupar a vista dos leitores. A burrice natural já basta.)

***

A GOIABICE DA SEMANA

Confesso que estava com saudades do pensamento vivo de Dilma Rousseff, uma das grandes musas desta seção. Recém-instalada no comando do Banco dos Brics, nossa ex-presidente não negou fogo: “O sul que é esse sul que quer emergir e que conta também com países do norte e com o multilateralismo”, disse em seu discurso de posse. Logo apareceram fãs de Dilma (sim, até ela os tem) para dizer que ela estava se referindo ao Sul Global, seus ignorantes — aquele conceito interessantíssimo que joga no mesmo balaio China, Índia e os países mais pobres da África. Enfim, o norte pode ser sul, o sul pode ser norte, há sempre uma figura oculta que é um cachorro atrás e vai todo mundo perder.

Alegria, alegria! Os discursos psicodélicos de Dilma Rousseff estão de volta!
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