BLOG ORLANDO TAMBOSI
O fato é que, para atualizar a clássica frase atribuída a Tim Maia, no Brasil prostituta se apaixona, cafetão tem ciúmes, traficante se vicia e liberal acha que tem que taxar mesmo as brusinhas da Shein. A crônica semanal de Ruy Goiaba para a Crusoé:
Talvez
seja injusto, mas acontece: uma brincadeira comum nas redes sociais é
chamar de “da Shopee” qualquer coisa ou pessoa que seja um “similar”
barato e de má qualidade de outra pessoa ou coisa. Aquele participante
do BBB que era chamado de “Gil do Vigor da Shopee”, por exemplo. Fulano é
um Djavan da Shopee, Sicrana é uma Anitta da Shopee — bom, vocês já
captaram o sentido.
Nesta
semana, o governo de Lula, nosso querido pai dos pobres, inventou o
conceito de “grandes fortunas da Shopee”. Lembram daquele discurso
histórico da esquerda sobre taxar os super-ricos? Pois é, até o momento
não aconteceu: mas você, que gasta até US$ 50 em brusinhas da própria
Shopee, da Shein ou do AliExpress, agora vai pagar mais caro por elas.
Tudo isso para favorecer Luciano Hang e outros empresários brasileiros
bem pobrezinhos que vivem se queixando da “concorrência desleal” e do
“camelódromo digital” promovido pelo comércio eletrônico made in China.
Outra coisa: se você tiver grana, pode viajar para o exterior e voltar
ao Brasil trazendo até US$ 1.000 em comprinhas que serão taxadas em
exatamente zero, nada, niente pela Receita Federal. Quem mandou você ser
pobre e ter que comprar a brusinha chinesa aqui no Bananão mesmo?
É
claro que o governo já está fazendo seu spin — enrolação, em bom
português brasileiro — para tentar transformar a medida impopular em
algo bom, justo e necessário. A começar por Janja, primeira-dama e
janjadora-geral da República, que em sua conta no Twitter assegurou que a
taxação será “para as empresas e não para o consumidor”. Mas é claro!
As empresas não repassam nada, nadinha dos impostos para os
consumidores, e é por isso que um carro zero quilômetro no Brasil sai só
um pouquinho mais caro que uma pizza. Foi divertido também acompanhar
as respostas superespontâneas à primeira-dama na rede social, em posts
como “puxa vida, Janja, obrigado por esclarecer! Assim a gente não
espalha fake news!”. Naturalíssimo, exatamente como naquele caso em que
um pessoal que mal sabia apontar o Piauí no mapa fez uma série de tuítes
100% orgânicos sobre as maravilhas da fibra ótica da gestão de
Wellington Dias no estado.
Houve,
é claro, respostas mais inteligentes, mas em graus de desonestidade
variados. Oficialmente, o governo diz querer evitar fraudes — nesse
caso, que empresas de varejo usem um benefício que é só para pessoas
físicas. Ou seja, o Estado está dizendo “acaba logo com essa porcaria
dessa isenção, já que a gente não consegue fiscalizar direito mesmo”. E
há também o eterno argumento protecionista: não é uma medida para
proteger Hang (ou Luiza Trajano), e sim os empregos dos trabalhadores
brasileiros. Engraçado é que nessas horas, em vez de brigar a sério para
baixar o custo Brasil, os empresários usam seu acesso privilegiado aos
ouvidos do governo para fechar o país à concorrência externa. Dá
supercerto, como na época da lei de reserva de mercado da informática:
Apple e Microsoft barradas e brasileiros que queriam comprar um
computador dentro da legalidade sendo obrigados a se virar com as
carroças nacionais.
Quando
a gente junta a fome arrecadatória do governo com a vontade dos grandes
varejistas nacionais de comer o bolo sozinhos, o resultado é esse —
aliás, Fernando Haddad e seus Blue Caps falando em arrecadar R$ 8
bilhões com a medida estão parecidos à beça com Paulo Guedes and His
Comets prometendo conseguir R$ 1 trilhão com a venda de imóveis da
União. O fato é que, para atualizar a clássica frase atribuída a Tim
Maia, no Brasil prostituta se apaixona, cafetão tem ciúmes, traficante
se vicia e liberal acha que tem que taxar mesmo as brusinhas da Shein.
E, claro, o PT (Partido dos Trabalhadores) taxa o trabalhador para
proteger o empresário, já que quem pode mais chora menos.
(Pensei
em ilustrar este texto com uma imagem de Lula usando aquela camiseta
“parem de ser pobres” do meme de Paris Hilton, produzida por
inteligência artificial, mas achei melhor poupar a vista dos leitores. A
burrice natural já basta.)
***
A GOIABICE DA SEMANA
Confesso
que estava com saudades do pensamento vivo de Dilma Rousseff, uma das
grandes musas desta seção. Recém-instalada no comando do Banco dos
Brics, nossa ex-presidente não negou fogo: “O sul que é esse sul que
quer emergir e que conta também com países do norte e com o
multilateralismo”, disse em seu discurso de posse. Logo apareceram fãs
de Dilma (sim, até ela os tem) para dizer que ela estava se referindo ao
Sul Global, seus ignorantes — aquele conceito interessantíssimo que
joga no mesmo balaio China, Índia e os países mais pobres da África.
Enfim, o norte pode ser sul, o sul pode ser norte, há sempre uma figura
oculta que é um cachorro atrás e vai todo mundo perder.

Alegria, alegria! Os discursos psicodélicos de Dilma Rousseff estão de volta!
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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