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Vai aí o pêndulo brasileiro. Podemos até acenar em uma direção modernizadora, como se fez com o breve ciclo recente de reformas. Mas logo recuamos. Fernando Schüler para a revista Veja:
O
Brasil anda em um ciclo de contrarreformas? Veja-se o tema do marco do
saneamento. Com 94% das cidades atendidas por empresas estatais, o país
chegou a 2020 com quase metade da população sem acesso ao saneamento. As
razões são conhecidas. Falta de capacidade de investimento, ausência de
competição, mandonismo político. Tudo exaustivamente discutido, três
anos atrás, quando o novo marco do saneamento foi aprovado, abrindo
espaço ao investimento privado. Quando se achava que esse assunto era
página virada e os leilões aceleravam seu ritmo, resolvemos recuar. O
governo alterou as regras do jogo, permitindo novamente contratos sem
concorrência com os municípios, flexibilizando exigências que dão uma
sobrevida às empresas estatais. Não são apenas decisões técnicas. Elas
revelam traços definidores de nossos hábitos políticos, aos quais vale a
pena prestar atenção.
Em
primeiro lugar, o experimentalismo. O que já chamei aqui de “país do
zigue-zague”. O Congresso aprovou uma regra de mercado que por óbvio
tirou muita gente da zona de conforto. Era o caso de seguir em frente,
fazer valer a previsibilidade jurídica, ou recuar, diante das pressões
de sempre? Vai aí o próximo pecado: a falta de equidade. Atendendo aos
governos e empresas que não fizeram o dever de casa, o governo
desconsiderou a maioria que trabalhou duro para se ajustar às mudanças.
Foi assim com o Fies, no governo passado. Perdoando a dívida de quem não
pagou, sem critério, fez troça de quem cumpriu com suas obrigações,
além de desacreditar as ações do governo. Por fim, a fragilidade do
Estado diante do lobby corporativo. Era evidente que as empresas
estatais teriam de se ajustar, sob pena de perder contratos. E que
muitos estados deveriam acelerar os processos de privatização. O ponto é
que era mais fácil ir a Brasília e apostar em uma solução política,
retornando ao antigo status quo. Nossa velha e conhecida complacência. O
tema foi objeto de um ótimo livro de Fábio Giambiagi e Alexandre
Schwartsman sobre as reformas que deveríamos ter feito e não fizemos
justamente pela “atitude de adiar decisões difíceis, evitar conflitos,
acreditar que os problemas não são tão sérios quanto parecem”. Os
problemas estão aí, mas a verdade é que sempre possível, e a curto prazo
mais barato, ir empurrando com a barriga. Lula
traduziu isso em seu discurso dizendo que era para “dar mais uma
chance” às velhas estatais. E que “se isso aqui não der certo, não tem
culpado”. Ele tem razão. Conhece o Brasil. Tem perfeita noção do tamanho
de nossa memória.
A
complacência é o secreto vício de nosso mundo político. E não é de
hoje. Exemplo disso é a educação pública. A cada três anos, nosso ensino
estatal tira as últimas posições no Pisa, mas ficamos no lero-lero. Há
três anos, o Congresso chegou a aprovar a possibilidade de que 10% dos
recursos do Fundeb pudessem ser usados para parcerias com o setor
privado sem fins lucrativos, o que permitiria que milhares de alunos
estudassem em escolas filantrópicas e confessionais, como em regra fazem
seus pares da classe média. Mas não teve jeito. Um gigantesco lobby se
formou no Congresso, liderado por ONGs empresariais e sindicatos, para
impedir aquela pequena mudança. De quebra, ainda conseguiram emplacar um
aumento de 60% para 70% dos recursos do fundo destinado ao
funcionalismo público. Nenhum estudo técnico, nenhuma vinculação entre
ganhos e resultados. E o mantra discreto, que nem precisa ser dito: “Se
não der certo, não tem culpado”.
De
onde vem nossa fragilidade? De nosso desenho institucional? Da cultura
política de nossas elites? Ou vem da sociedade, cujas preferências são
devidamente refletidas e ordenadas no mundo político? Essa última
hipótese parece ser a opção de Pedro Malan, em um artigo elegante que
leio esta semana. O país viveria uma espécie de paradoxo, dado pela
“irrefreável tendência da sociedade de reivindicar, ao mesmo tempo,
impostos baixos e governo grande”. Gentilmente, discordo dessa visão.
Vejo apenas como mito a ideia de uma vontade da sociedade conduzindo
decisões no jogo opaco de poder em Brasília. Não há hoje demanda social
alguma por “mais Estado”, como não havia, há quatro anos, por “menos
Estado” e privatizações, quando já se sabia que Paulo Guedes seria o
superministro da Economia. Ao contrário do que as pessoas costumam
imaginar, não são as maiorias, em regra dispersas e silenciosas, que dão
as cartas na democracia, mas as minorias organizadas. Isso é
especialmente válido em um país desigual como o Brasil, com seus treze
estados com mais pessoas no Bolsa Família do que com carteira assinada.
Nosso
trinômio pobreza, dependência e desigualdade torna a sociedade
cronicamente frágil diante do Estado, oferecendo ampla margem de manobra
e quase nenhuma responsabilização ao sistema político na tomada de
decisões. Não foi a sociedade que mandou engavetar a reforma
administrativa, enterrar a PEC dos penduricalhos, dar um aumento sem
lastro fiscal ao funcionalismo, e ainda aumentar o teto salarial do
setor público em 18%. É aí que reside o aspecto perverso de nossa
“brasilidade”, na boa expressão de Pedro Malan. Na epiderme, ela diz
respeito a nosso gosto retórico, à falta do “wish is not a policy”, do
pragmatismo anglo-saxônico. Um pouco abaixo da pele, porém, emerge um
sentido de ordem, que é dado pela lógica da captura. De nossa
reincidência que o professor Edson Nunes chamou de “gramática
clientelista”, em oposição ao “universalismo de procedimentos”. O
clientelismo que “se manteve forte no decorrer de períodos democráticos
não definhou durante o autoritarismo, não foi extinto pela
industrialização e não mostrou sinais de fraqueza com a abertura
política”.
Vai
aí o pêndulo brasileiro. Podemos até acenar em uma direção
modernizadora, como se fez com a lei das estatais, a autonomia do Banco
Central e o breve ciclo recente de reformas. Mas logo recuamos. A força
gravitacional da lógica da captura faz sentir sua força. Não depende de
um ou outro partido, e o mesmo Congresso que vota um teto rigoroso do
gasto público, vota depois uma regra frouxa, na direção oposta. Faz
lembrar das palavras de FHC a Armínio Fraga, pouco antes de sua sabatina
para o Banco Central, no Congresso, vinte e tantos anos atrás. “O
Brasil não gosta do capitalismo. Os congressistas não gostam, os
jornalistas não gostam, os universitários não gostam. Gostam do Estado,
da intervenção, do controle.” Foram duras as palavras de FHC. É apenas
uma parte do país que pensa assim. Mas é uma parte relevante, que tem
força, que sabe ganhar o jogo, e da qual estamos tendo notícia, em nossa
pujante democracia, por estes dias.
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
Publicado em VEJA de 19 de abril de 2023, edição nº 2837
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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