Com o fim da Guerra Fria, e por impulso da húbris ideológica neo-conservadora, Washington quis impor o modelo americano por toda a parte. E quase sempre de forma voluntarista e irrealista. Jaime Nogueira Pinto para o Observador:
A invasão dos bárbaros
Homens
barbudos e sisudos com Kalashs ao ombro entram pelos salões do palácio
presidencial de Cabul e pelos nossos écrãs adentro, ajustando os olhos
ao chão atapetado, aos cadeirões doirados e aos requebros dos lustres.
Os chefes sentam-se à volta da secretária como quem vai falar ao mundo
mas ainda estranha o cenário; os outros perfilam-se atrás, inquietos e
alerta. Há imberbes (e se são imberbes é porque Alá ainda não lhes deu
os pelos da maturidade) a percorrerem o luxo novo dos salões como
crianças na Disneylândia.
O
imaginário volta-se aqui, irremediavelmente, para a queda de
civilizações sofisticadas às mãos dos bárbaros – a entrada dos
guerreiros de Alexandre nos palácios de Dario – e para a sorte dos
vencidos de todas as invasões. Ou para a tragédia das vencidas, como as
troianas cativas, no Teatro de Eurípides.
Os
impérios, todos os impérios, parecem estar perpetuamente à espera de
bárbaros que os conquistem – bárbaros que nem sempre chegam quando se
espera. Porque quando Calígulas e Neros, bem diferentes dos antigos
magistrados republicanos na decadência dos costumes e no amolecimento e
corrupção do povo com pão e circo, podiam fazer esperar o fim do império
romano, o império resistiu e até cresceu no século II, com os
Antoninos, vindos das províncias. E continuou à espera dos bárbaros, até
que (na controversa explicação de Nietzsche) o cristianismo, com as
suas doutrinas de mansidão, de perdão e de amor ao próximo e até ao
inimigo, debilitasse por dentro a sua força conquistadora. No romance de
J. M. Coetzee, À Espera dos Bárbaros, os rudes estrangeiros também
tardam a vir, e no de Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros, um oficial,
Giovanni Drogo, parte para a fortaleza de Bastiani, frente ao deserto
dos tártaros, onde espera uma invasão que nunca vê chegar.
Mas
se a invasão dos bárbaros é um lugar selecto ocidental, um tema dos
“civilizados cristãos”, vezes houve em que os bárbaros fomos “nós” –
como em 1860, quando os exércitos anglo-franceses saquearam e queimaram o
Palácio de Verão, em Pequim.
Desta
vez, digamos que os bárbaros são os talibãs e os civilizados os
americanos, que mandavam num governo que lá tinham posto e que, sem
eles, caiu; e que a invasão foi tudo menos inesperada, chegando mal ruiu
a frágil “fortaleza americana” e se apressou a atabalhoada debandada
das suas sentinelas.
Assim,
20 anos e muitos milhões de dólares e de investimento humano, político e
militar depois do ataque jihadista aos Estados Unidos, repetem-se
imagens de há quase meio século, quando da queda de Saigão.
Em
resposta a uma astuciosa investida que os marcou profundamente, os
americanos derrubaram o governo talibã que acolhia os terroristas que a
planearam e executaram. Para tal, impulsionaram uma coligação de
senhores da guerra do Norte, de etnias não-pachtun e, em pouco tempo,
Cabul caía.
Uma
lógica realista mandaria que, com o apoio desses mesmo senhores da
guerra, se procurassem e eliminassem os responsáveis pelo ataque de 11
de Setembro e que as tropas americanas depois se retirassem. Mas não.
Faltava a implantação da democracia.
Quem
lesse a História e as histórias do Afeganistão encontraria uma terra
belíssima, de gente dura, brutal, antiga, com códigos feudais de
lealdade e negócio, mas longe de ter condições para que ali se
instalasse uma democracia representativa e pluralista, regime para o
qual eram precisas duas coisas: Estado (de preferência um Estado
nacional) e sociedade civil. Nada disso existia no Afeganistão. Mas se
não existia, teria de passar a existir.
Muito
depois do império britânico, chegou ao Afeganistão o império soviético
para socorrer o Partido Comunista, que tomara o poder em 1978 e
procedera a impopulares “reformas modernizadoras”. E os soviéticos
ficaram até que os expulsassem os mujahedin, armados por ingleses e
americanos, através da Agência de Inteligência e Segurança do Paquistão
(ISI), com mísseis Stinger e outros modernos brinquedos fatais.
Depois
da queda do império soviético chegou então o americano para, com fogo e
estrondo, vingar as Torres de Nova Iorque. Bin Laden escapou-lhes
durante anos, escondido nas cavernas daquele recanto da Ásia Central.
Mas, uma vez descoberto e liquidado o chefe jiadista, Washington quis
continuar a transladação das instituições da América para um país da
Ásia Central que não passava de uma colagem forçada de etnias, de
tribos, de senhores da guerra, com valores, códigos de ética e costumes
que pouco tinham que ver com os ocidentais.
Foi
Bush que o começou a fazer mas Obama retomou a missão, usando e
abusando de drones que chegaram a matar por engano famílias inteiras de
inocentes, inflamando o descontentamento local.
Trump
reafirmou a presença americana no Afeganistão mas começou conversações
para uma retirada negociada com os insurgentes em Doha: a América e o
mundo estavam fartos daquelas guerras; as guerras a que dois pessimistas
ocidentais, Edward Gibbon e George F. Kennan, tinham chamado “guerras
longínquas”, demoradas, ruinosas, condenadas à derrota. Por isso Trump
começara as negociações. Negociações que Biden continuou e agora deu por
concluídas.
O
que está em causa perante a tragédia de Cabul não é o princípio da
saída; é a conclusão, o tempo e o modo da saída, a total confusão em que
aconteceu e está a acontecer a debandada. O que é grave e nos pode e
deve escandalizar é o tempo do anúncio da saída das tropas, o modo
impensado e patético do abandono de Bagram, há um mês, a incapacidade de
preparar e parar o avanço das colunas dos talibãs para Cabul, por
intimidação ou acção, permitindo uma evacuação ordenada dos americanos,
dos estrangeiros e dos colaboradores.
A
fragilidade do Exército afegão, tribalizado, dividido por linhas
clânicas e cheio de soldados de papel (porque existiam só no papel) terá
com certeza ajudado, mas não restam dúvidas de que a tragédia afegã que
agora vivemos vem sobretudo do modo catastrófico da retirada americana.
Daí a crescente impopularidade de Biden nos Estados Unidos e a censura
dos aliados, expressa por Boris Johnson em Westminster, numa moção sem
precedentes.
Entretanto,
e ainda que os senhores da guerra afegãos que pareciam decididos a
combater com as suas milícias a ofensiva dos talibãs (como Atta Mohamed
Noor ou Abdul Rashid Dostum, que no passado foram decisivos para os
derrubar) tenham fugido para o Uzebequistão, ainda há ilhas de
resistência. Uma delas, entroncando numa tradição de vinte anos, está no
vale do Panshir, onde Ahmad Shah Massoud, resistente ao domínio dos
fundamentalistas, foi assassinado nas vésperas do 11 de Setembro. Foi aí
que, na passada quarta-feira, 18 de Agosto, o seu filho, Ahmad Massoud,
proclamou, com o vice-presidente Amrullah Saleh, a sua vontade de
resistir ao governo de Cabul.
Assim,
e depois da retirada dos americanos, dos estrangeiros e dos afegãos
mais comprometidos com os aliados que conseguirem sair, esperam-se
tempos duros e confusos de guerra civil, tempos de ajuste de contas, de
luta entre facções e clãs, de exílio, de fuga. Tempos que existiram
antes da chegada dos impérios e que vão subsistir para além deles.
Ficamos
perante as terríveis imagens que nos chegam. Terríveis pelas realidades
que mostram e pelas que não mostram. No Afeganistão, agora abandonado
pelo “imperialismo americano”, espera-se, realisticamente, o regresso à
Sharia e aos seus códigos e práticas, especialmente duros para as
mulheres, a quem foram dadas esperanças. E de pouco servirá o
voluntarismo de alguns comentadores e líderes políticos, afanosamente à
procura do “bom talibã” – do talibã pragmático, inclusivo e aberto ao
diálogo –, lembrando em versão pouco lúcida o irrealismo lúcido de Eça
de Queirós que, por pouco saber do que se passava “dentro do Islão”,
sempre admitia a hipótese de estar erradamente a atribuir aos “fortes
corações de Meca e do deserto os cepticismos literários de Pall-Mall e
do Boulevard de la Madeleine”.
A
lição final deste fracasso é funda e cruel: os impérios que duraram –
como o romano e o inglês – tiveram como regra, dentro de um princípio
geral de obediência ao poder central e de manutenção da paz (imperium
era também e sobretudo um espaço de paz), o pragmático respeito pelas
crenças, pelos costumes e pelas instituições dos povos locais. O império
ideológico e invisível norte-americano, durante a Guerra Fria, teve
também o realismo e o pragmatismo de, na coligação anti-soviética, saber
conviver com regimes, costumes e religiões diferentes.
Mas
com o fim da Guerra Fria, e por impulso da húbris ideológica
neo-conservadora, Washington quis impor o modelo americano por toda a
parte. E quase sempre de forma voluntarista e irrealista.
Em
Return of the Strong Gods: Nationalism, Populism, and the Future of the
West, R.R. Reno avança com uma explicação: traumatizadas por duas
guerras que atribuíram aos “excessos de nacionalismo”, e sobretudo
àquilo em que o hitlerismo transformou o nacionalismo alemão, as elites
político-intelectuais do Ocidente quiseram eliminar da normalidade todas
as “lealdades fortes” e agregadoras do passado – a religião, a nação, a
moral tradicional – substituindo-as por um pensamento único, baseado no
individualismo extremo, na mão invisível do mercado, no relativismo
moral. E, sempre que esses “deuses fortes” emergiam noutros povos ou
territórios, tentaram vencê-los pelo progresso e pela técnica, numa
mistura de direitos humanos, napalm e drones.
Que
ao cumprirem-se 20 anos sobre o 11 de Setembro os que então albergaram e
protegeram os terroristas estejam outra vez no poder em Cabul, não é
uma constatação agradável para o “mundo livre”, que se debate agora com
outros fundamentalismos domésticos.
Com
a saída do protector império longínquo e com a incerteza interna, os
Estados vizinhos do Afeganistão vão preencher o vazio: o Paquistão, que
nunca deixou de estar presente no jogo, muitas vezes com ambiguidade, e
que tem de se proteger do jiadismo; a Rússia, vizinha das repúblicas da
Ásia central de população muçulmana que agora são vizinhas dos
fundamentalistas; a China que, sem deixar de se congratular com a
humilhação do poder americano, tem também de se acautelar, não vão os
fundamentalistas islâmicos de Cabul querer ajudar os seus irmãos uighur.
Vinte
anos depois, o legado do imperialismo cultural americano acaba por ser
terrível para aqueles que tentaram e acreditaram na mudança: para as
mulheres que começaram a estudar e a trabalhar; para as minorias sexuais
perseguidas, que ainda viram o fugaz esvoaçar da bandeira do arco-íris
na embaixada americana em Cabul, para os que colaboraram com Washington
e, na tremenda confusão da saída, foram apanhados de surpresa. Ficam
agora todos à mercê do pragmatismo, da vontade de inclusão e da
capacidade de diálogo dos talibãs, em que os nossos optimistas parecem
acreditar – por convicção ou para sossegarem a consciência.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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