Já
não há quem não saiba da operação que obriga a Polícia a lavar dinheiro
e levou um senador, como gato, a se esconder com o rabo de fora. Ainda
por cima, desmentiu uma frase clássica do imperador Vespasiano, de Roma,
a seu filho Tito: “Pecunia non olet”, “Dinheiro não cheira”. Mas
cheira, sim.
Coincidência: Quem mandou afastar o senador do cargo foi o ministro Barroso.
Pediu
para sair: O senador Chico Rodrigues, DEM de Roraima, era vice-líder do
Governo. Bolsonaro tirou-o do cargo, mas, gentilmente, “a pedido”.
Isso
a Globo não mostra: todo o trabalho da Polícia Federal foi gravado. O
ministro Barroso determinou que o vídeo fique num cofre da PF, por
exibir demasiadamente a intimidade do senador.
Os
anais do caso: como a PF chegou ao esconderijo? O senador pediu ao
delegado para ir ao banheiro. O delegado percebeu que, na parte traseira
do short de pijama do senador, havia um volume grande, estranho.
Pareceu-lhe que o senador ocultava algo. O senador disse que não havia
nada. A PF fez então uma busca pessoal no senador e encontrou pouco mais
de R$ 32 mil.
A
defesa: Chico Rodrigues disse que vai provar que nada tem a ver com
qualquer ato ilícito. “Acredito na Justiça dos Homens e na Justiça
divina”.
Os
amigos: Bolsonaro é o amigo mais próximo do senador. Em vídeo,
referindo-se aos 20 anos de amizade com Chico Rodrigues, o presidente
disse: “É quase uma união estável, hein, Chico?”
Os bons companheiros
Justo
no dia da busca e apreensão, Bolsonaro tinha dito que, se soubesse de
algum ato de corrupção, iria “dar uma voadora”. OK, aplicar recursos em
seus próprios fundos não é crime; pode ser só um hábito derivado,
digamos, de... bem, de... bem, sabe-se lá.
Talvez
haja algum crime, mas ainda terá de passar pelos tribunais. É injusto
dizer que Bolsonaro não deu a tal voadora apenas porque o senador, que
pode perder o mandato por excesso de fundos, é seu amigo. Mas é mesmo!
Vejamos este ano: Chico Rodrigues, embora represente um Estado pequeno, é
o oitavo entre 81 senadores no volume de emendas liberadas pelo
Governo, com R$ 15,5 milhões. A propósito, a busca e apreensão se refere
a uma suspeita de desvio dessas verbas. Antes do jocoso batismo de
Operação Ducha Íntima, o nome era Desvid-19, pela suspeita de que tenha
ocorrido desvio em verbas destinadas a combater a pandemia.
Amigos de fé
Chico
Rodrigues não é amigo apenas de Bolsonaro, com quem partilhou mais de
20 anos de Câmara Federal. É também amigo fiel da família. É em seu
gabinete que trabalha Leonardo “Léo Índio” Rodrigues de Queiroz, filho
da irmã de Rosângela Bolsonaro, primo-irmão do 01, 02 e 03, os filhos
mais velhos do presidente (salário, R$ 22.900 mensais).
Trabalha,
não: trabalhava. Pediu demissão assim que o caso das cédulas
estranhamente alojadas estourou. Léo Índio é muito amigo dos três filhos
políticos do presidente, e chegou a morar no Rio com Carluxo, o 02.
Frequenta o Palácio do Planalto e tem livre acesso ao círculo íntimo da
família presidencial.
Os companheiros
Chico
Rodrigues não limita seus contatos aos Bolsonaro. Publica, em suas
redes sociais, fotos com o vice, general Mourão, vários ministros, como
Jorge Oliveira, Onyx Lorenzoni, Ernesto Araújo, general Luiz Ramos. Não é
olavista, nem pertence a ala alguma do bolsonarismo: é Bolsonaro, e só.
A vida como ela é
Está
bem, o senador Chico Rodrigues inovou na área de armazenagem de
dinheiro (embora o escritor Olavo de Carvalho já tivesse sugerido o
mesmo tipo de recipiente ao presidente Bolsonaro, para guardar a
condecoração que lhe era oferecida). Mas, tirando o esconderijo do
dinheiro, nunca foi muito diferente do que é hoje. A ótima repórter
Thaís Oyama conta que em 2006, O Globo mostrou que parlamentares usavam
falsas notas fiscais emitidas por postos de gasolina para embolsar a
verba. Chico Rodrigues disse que emitia R$ 30 mil mensais frios para
cobrir despesas sem nota. O prejuízo completo: R$ 41 milhões, dele e de
seus colegas. Não deu em nada. Em 2014, foi cassado e virou ficha-suja.
Mas, sabe como é, né? Continuou concorrendo, na boa.
Aqui e lá fora
A
coisa chega a ser grotesca, mas não fique triste imaginando que tudo só
ocorre aqui no Brasil. Um jatinho brasileiro foi apreendido no
Aeroporto de Lisboa com 170 kg de cocaína (valor aproximado, uns R$ 40
milhões). Três brasileiros e dois portugueses foram presos, mas os nomes
estavam sendo mantidos em sigilo. O delegado português informou que
pelo menos um dos brasileiros tem antecedentes criminais. A cocaína
estava em oito malas, bem recheadas.
Trump x Biden
Joe
Biden tem ampla diferença de voto popular sobre Trump – mas, nos EUA, o
que vale é o voto de cada Estado. Nos Estados, a votação está quase
empatada. Biden, creio, é favorito, mas tão apertado que Trump pode
ganhar.

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