A forma como o Twitter protege Joe Biden é exemplo de como as plataformas digitais atuam no combate ao pensamento conservador. Ana Paula Henkel para a Oeste:
Durante
anos, escutamos sobre a tendência das Big Tech de abafar aqueles que
ousam desafiar a ortodoxia progressista dominante no cenário político.
Durante anos, os conservadores nos Estados Unidos protestaram contra as
grandes empresas de tecnologia, incluindo Facebook, Twitter, Google e
YouTube, por usarem diretrizes vagas como uma arma para banir perfis,
excluir postagens, remover seguidores e desmonetizar contas — a tal
shadowban, uma maneira de jogar num “cantinho escuro”, sem visibilidade,
os “inconvenientes”. E os funcionários das Big Tech criam,
propositadamente, algoritmos em ampla escala para essas ações.
Em
2018, o Pew Research Center descobriu em uma pesquisa que 72% dos
norte-americanos acreditam que é bastante provável que as plataformas de
mídia social censurem ativamente opiniões políticas que essas empresas
consideram questionáveis. Por uma boa margem de quatro para um, os
entrevistados estavam mais propensos a dizer que as Big Tech apoiam as
opiniões dos progressistas muito mais do que as dos conservadores e
liberais.
Nos
últimos anos, houve inúmeros casos de gigantes da mídia social
amordaçando conservadores e liberais por aparentes motivos políticos.
Está provado em documentos de investigações de comitês do Senado
americano que o Twitter usa “proibições ocultas” para impedir que
indivíduos compartilhem suas postagens com centenas de milhões de
usuários da plataforma e que, de alguma maneira, essas proibições
ocultas foram aplicadas de forma esmagadora àqueles na parte da direita
do espectro político. Apenas coincidência?
Em
2020, a grande maioria dos norte-americanos já admite que recebe suas
notícias apenas pelas redes sociais. O poder absoluto dessas empresas em
relação ao fluxo de informações é impressionante, e elas parecem
acreditar em sua capacidade de mudar a opinião pública. O Google tem
ainda mais poder sobre as informações do que as companhias de mídia
social, uma vez que a ferramenta domina completamente as pesquisas na
internet.
Só
no ano passado, a participação de mercado do Google nas pesquisas
mundiais na internet ficou em torno de 92%. De acordo com um estudo
recente intitulado “Uma análise de viés político nos resultados de
mecanismos de pesquisa”, os principais resultados de pesquisas do Google
tinham quase 40% mais probabilidades de conter páginas com inclinação
para a “esquerda” ou “extrema esquerda” do que páginas de “direita”.
Além disso, 16% das palavras-chave usadas na política não continham
absolutamente nenhuma página inclinada para a direita na primeira busca
de resultados.
Em
outras palavras, segundo esse estudo, o algoritmo do Google é
politicamente inclinado para favorecer a esquerda sobre a direita.
Talvez isso explique por que o Google e outras empresas de grande
tecnologia contribuem com tanto dinheiro para o Partido Democrata em
comparação ao Partido Republicano. O Center for Responsive Politics
mostrou em uma recente pesquisa que 70% das doações do Facebook e de
seus funcionários às campanhas de 2020 foram para os democratas. Já com o
Google, 81% das contribuições políticas também foram para os
democratas. A mesma tendência se aplica a Amazon (74%) e Apple (91%!).
There is no free lunch.
Há
alguns meses, o Twitter deu um passo significativo na sinalização do
caminho tomado contra conservadores e liberais e colocou um rótulo de
“conteúdo impróprio e/ou checagem necessária” em dois tuítes do
presidente Donald Trump, argumentando que ele havia violado as políticas
contra comportamento abusivo. A plataforma que tem reforçado mais
ativamente suas políticas de conteúdo contra o presidente
norte-americano, na última quarta-feira, dia 14, tentou proteger o
candidato democrata à Casa Branca, Joe Biden, e derrubou contas
importantes, como a da secretária de Imprensa, Kayleigh McEnany. Ela
havia compartilhado o link de uma reportagem do jornal New York Post que
mostrava, em detalhes, alegadas provas do esquema de corrupção da
família Biden com a Ucrânia e a China.
A
reportagem no Post é bomba para a campanha de Joe Biden. Faltando menos
de um mês para uma das eleições mais importantes da História dos
Estados Unidos, o filho do candidato democrata, Hunter Biden, foi
colocado no centro de um escândalo que envolve uma empresa de gás
natural na Ucrânia, a Burisma Holdings, investigada por corrupção no
país. As suspeitas de um esquema ilícito milionário com a participação
de Hunter Biden existem há algum tempo — mesmo sem atuação profissional
na área de combustíveis, Hunter Biden fazia parte da diretoria da
empresa ucraniana e recebia salário entre US$ 50 mil e US$ 83 mil por
mês.
Para
complicar o cenário, o então vice-presidente de Barack Obama havia sido
encarregado de negociar alguns empréstimos em favor do governo
ucraniano exatamente quando a empresa da qual Hunter Biden era diretor
estava no meio de várias denúncias de corrupção. Em um vídeo de uma
palestra para poucos convidados, Joe Biden gaba-se de ter pressionado o
presidente ucraniano a tirar do caso o procurador-geral Viktor Shokin,
que investigava as denúncias, para, em contrapartida, autorizar um
empréstimo de US$ 1 bilhão do governo americano à Ucrânia. Joe Biden
sempre negou as acusações e disse que nunca soube dos negócios do filho.
É
aí que entra o artigo que gerou a postagem censurada pelo Twitter nesta
semana. Segundo o New York Post, jornal fundado em 1801 por Alexander
Hamilton (1755-1804), o consultor ucraniano Vadym Pozharskiy, da Burisma
Holdings, teria agradecido a Hunter Biden em um e-mail a “oportunidade”
de se encontrar com o então vice-presidente Joe Biden. Pozharskiy é
conselheiro da empresa e já se encontrou com vários legisladores dos
Estados Unidos no passado. Se a reunião de fato ocorreu, isso
contradiria as afirmações de Joe Biden de que ele nunca falou com o
filho sobre seus negócios no exterior. “Caro Hunter, obrigado por me
convidar para DC (Washington) e me dar a oportunidade de conhecer seu
pai e passar algum tempo juntos. É realmente uma honra e um prazer”,
teria escrito Pozharskiy a Hunter Biden em 17 de abril de 2015. Um
e-mail anterior, de maio de 2014, também mostra Pozharskyi pedindo a
Hunter “conselhos sobre como você pode usar sua influência” em favor da
empresa.
De
acordo com um relatório do Comitê de Inteligência do Senado, divulgado
em setembro, isso confirmaria a preocupação de alguns funcionários do
governo Obama de que Hunter pudesse criar uma situação de conflito de
interesses. O relatório dá conta de que o filho do então vice-presidente
estava envolvido em “atividades criminosas em potencial” relacionadas a
transações financeiras entre “cidadãos ucranianos, russos e chineses”.
O
relatório provisório, de 87 páginas, é produto de uma investigação de
meses, durante a qual membros dos comitês de Finanças e Segurança
Interna do Senado revisaram mais de 45 mil páginas de registros da
administração Obama, detalhando as extensas negociações comerciais em
que Hunter Biden esteve metido.
Essa
é a enxaqueca com que a família Biden terá de lidar a três semanas das
eleições presidenciais. Já a dor de cabeça do Twitter está na
Communications Decency Act. A CDA é uma lei federal de 1996 que em
grande parte isenta as plataformas online de responsabilidade legal pelo
material postado por seus usuários, entendendo que são apenas
“distribuidores”. Ou seja, se não são responsáveis pela natureza das
publicações — como são, por exemplo, os editores de jornais —, as
plataformas ficam isentas de processos em relação ao conteúdo. Mas, a
partir do momento em que começam a editar, proibir, censurar ou esconder
posts, as plataformas de redes sociais perdem a proteção da lei e
passam a responder como “editores”, responsabilizando-se por todo e
qualquer conteúdo.
Depois
que o Twitter colocou selos de checagem de fatos em dois de seus
tuítes, Trump intensificou sua guerra contra as Big Tech ao assinar uma
ordem executiva que visa à redução de proteções legais: “Estamos aqui
para defender a liberdade de expressão de um dos maiores perigos que ela
enfrenta na História americana”, disse Trump. “Esta censura e o
preconceito são uma ameaça à liberdade. Imagine se sua companhia
telefônica silenciasse ou editasse sua conversa. As empresas de mídias
sociais têm muito mais poder nos Estados Unidos do que os jornais, elas
são muito mais ricas do que qualquer outra forma tradicional de
comunicação.”
A
ordem de Trump instrui as agências federais a verificar se podem impor
novos regulamentos aos gigantes da tecnologia. “Não há precedente na
História americana para um número tão pequeno de corporações controlar
uma esfera tão grande de interação humana”, disse o presidente, ao
assinalar que o Twitter está tomando “decisões editoriais”.
Dificilmente
você verá essa notícia na imprensa no Brasil. A “censura do bem” não é
uma “virtude” contemporânea exclusiva dos norte-americanos. Estamos
lutando com a mesma intensidade contra os mesmos mecanismos e tentativas
de silenciar conservadores e liberais no Brasil. Mas aqui na OESTE você
pode ter certeza de que a liberdade — de imprensa, econômica, religiosa
e de expressão — será sempre protegida, enaltecida e reafirmada em
nossas linhas.
Margaret
Thatcher (1925-2013), aniversariante da semana, disse certa vez que os
Estados Unidos conseguiram construir um aparato institucional forte o
suficiente que protegeria a nação de radicalismos e ideias socialistas,
inspirando o mundo a sempre lutar contra regimes totalitários. Ronald
Reagan (1911-2004), amigo pessoal da eterna Dama de Ferro, antes de seu
histórico discurso no Portão de Brandemburgo em 1987, em Berlim, foi
aconselhado por assessores a remover do texto a frase “Mr. Gorbachev,
tear down this wall!” (“Sr. Gorbachev, derrube esse muro!”). A turma do
“deixa disso” já atuava nos anos 1980. Reagan respondeu que era preciso
coragem para dizer o que precisava ser dito, especialmente quando a
liberdade está contra a parede. A frase, como se sabe, entrou para a
História.
Não
devemos nos esquecer jamais da mensagem deixada pelo colapso de um
muro, frio e diabólico, e de seu significado. É importante sempre
repetirmos, para que jamais entremos na espiral do silêncio: o Muro de
Berlim não caiu como uma casa velha, desgastada com o tempo. Ele foi
derrubado. Seus ideais macabros foram derrubados. Suas ideias perversas
foram derrubadas, tudo porque elas não dão certo em parte alguma do
mundo e porque — antes de qualquer coisa e lugar — amordaçam o
indivíduo. Que lutemos para que esse muro, mesmo que virtual, jamais
seja erguido novamente.
BLOG OR LANDO TAMBOSI

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