As caraterísticas dos adultos Peter Pan’s traduzem-se numa imaturidade emocional, pelo modo como lidam com a realidade - que implica compromisso e obrigações. Ana Eduardo Ribeiro para o Observador:
A
história do Peter Pan transporta-nos para a ilha da magia onde o tempo
da infância fica parado e entregue à possibilidade de aventuras
cativantes e desejáveis. O Peter não quer crescer nem sair da terra do
nunca, pois a vivência plena da fantasia supera qualquer noção da
realidade.
Quantos
adultos sonham voltar ao paraíso infantil, longe das obrigações do
mundo adulto? Alguns fazem tudo para evitar contactar com a realidade
que os contaria e frustra. Estes fazem por não crescer e tornarem-se
adultos que têm de abarcar responsabilidades de todo o tipo, sendo as
mais difíceis vividas como chatas e entediantes. Perante um sentimento
de desencanto com a vida que os rodeia, por não se sentirem a viver a
todo o tempo proezas memoráveis, refugiam-se no seu mundo fantasioso.
São adultos com uma forte tendência para não querer assumir compromissos
por sentirem as obrigações como uma prisão e ameaça à sua liberdade.
Desejam viver sob a tutela do princípio do prazer evitando a
concretização de qualquer dever. Parecendo serem uns adultos mais
adolescentes pelo modus vivendis que adotam, procuram estender a
juventude e viver num aqui e agora prolongado. Avessos a planos,
dificilmente assumem uma vida profissional assente em cargos de
responsabilidade que têm de abarcar. Difícil assumir um compromisso
amoroso duradouro mas quando acontece, planear casar vai sendo
sucessivamente adiado, como forma de não consolidar a estrutura
relacional e as condições materiais. Ter filhos só se for na perspetiva
de companheiros de brincadeira, sendo mesmo muito difícil de os querer,
pois para ser pai/mãe é preciso prescindir da sua posição infantil.
As
caraterísticas dos adultos Peter Pan’s traduzem-se numa imaturidade
emocional, pelo modo como lidam com a realidade que implica compromisso e
obrigações (não quer de todo dizer que não sejam adultos inteligentes e
capazes de as cumprir mas não querem assumir aquilo que sentem como um
fardo). Quando algo não corre bem, dizem logo que a culpa não é sua,
atribuindo a responsabilidade ao exterior e não a si (justificam as suas
faltas pelas circunstâncias externas e falhas dos outros). Colocam-se
mais no lugar de serem cuidados do que na posição de cuidar. Recebem
mais do que dão. Sonham alto belos sonhos difíceis de concretizar. São
sedutores e envolventes mas rápido se afastam daqueles que não
correspondem às suas expectativas idealistas.
Podemos
perceber que estes Peter Pan’s cresceram sob a superproteção dos pais,
com caminhos facilitados de modo a cumprir os seus desejos e pouca
responsabilidade lhes foi atribuída. A consequência dos seus atos menos
apropriados foram amparados e justificados por más influências (dos
outros), com muita tolerância para os seus erros. Foram sujeitos a uma
redoma complacente com um reinado principesco que defenderam manter até
onde puderam, logo, não tiveram grandes oportunidades para crescer e
resolver autonomamente as suas dificuldades.
Como
nos dizia João dos Santos, figura de referência na psicanálise e
promotor da área da saúde mental infantil em Portugal, o segredo do
homem é a própria infância. Compreendemos os adultos à luz das
experiências da infância. Felizes são os adultos que mantêm a capacidade
de brincar e preservam o belo do seu mundo infantil no mundo adulto.
Mas, entendamos que contactar e deixar perpetuar a nossa infância, o bom
desses tempos que guardamos como tesouros internos, não é sinónimo de
nos esquecermos de crescer como homens e mulheres capazes de integrar a
realidade e o sonho, o bom e o mau da realidade, o encanto e o
desencanto, o belo e o feio de nós mesmos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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