Joe Biden é tudo menos um enigma, embora tenha feito uma campanha baseado simplesmente na ideia de que não é Donald Trump. Vilma Gryzinski:
É Joe Biden um homem bom?
“Bom”,
“decente” e “humano” foram alguns dos adjetivos usados para ressaltar
qualidades simples que inspiram os eleitores do candidato democrata,
mesmo que não empregados habitualmente para qualificar políticos.
A
imagem de um simpático avô – com quase 78 anos, não dá mais está para
encarnar o tradicional arquétipo paternal – que irá consertar os
estragos do “outro”, o Trump do mal que habita a imaginação dos que
abominam o presidente, é poderosa.
Ou
pelo menos tem funcionado em todas as pesquisas que o dão por vencedor.
Por elas, Biden já está eleito presidente e pode ser até de lavada.
Se
isso acontecer – e a surpresa de 2016 exige um “Se” com S maiúsculo -,
as qualidades, e também os defeitos, de Biden serão magnificadas pela
posição única do ocupante da Casa Branca.
Com
quase cinquenta anos de política nas costas, Biden tem plena
consciência de que vai ter que administrar um saco de gatos dentro de
seu próprio partido, onde diferentes alas se uniram para derrotar Trump,
acatando, em muitos casos de má vontade, a escolha centrista dos
eleitores das primárias.
Mas a caneta azul vai ser dele e Joe Biden sabe muito bem disso.
E
a melhor coisa a ser dita sobre o dono potencial da caneta é que é um
pragmático, um conhecedor da diferença entre promessas e realidade, um
homem da máquina – ou do “pântano”, como dizem os trumpistas – que não
quer desmontar o sistema ou “mudar fundamentalmente a América”, como seu
antigo cabeça de chapa, Barack Obama.
Esse
pragmatismo tem causado a grande migração de dinheiro dos contribuintes
ricos para os cofres já lotados da campanha democrata.
O
mundo das altas finanças já precificou os aumentos de impostos para
empresas e pessoas físicas de alta renda, sem contar mais
regulamentação.
Desfazer
as bases da economia trumpiana, com seus resultados notáveis antes do
advento do coronavírus, vai começar no dia zero de um governo Biden.
Uma
vantagem de Biden é que, como encarnação do establishment, chegará à
presidência com listas e mais listas prontinhas de candidatos para os
cargos-chave, ao contrário de Trump, o outsider que ganhou no susto em
2016.
Muitos
nomes do governo Obama voltarão à cena. Entre eles, Michele Flournoy,
possível secretária da Defesa; Susan Rice, cogitada para o Departamento
de Estado ou outra pasta igualmente importante; e Sally Yates, para a
Justiça.
Para
o Tesouro, mais vital do que nunca no mundo pós-vírus, especula-se
sobre Janet Yellen, ex-Fed; Lael Brainard, e Sarah Bloom Raskin.
Se
Biden não colocar na boca do cofre a senadora Elizabeth Warren, sua
ex-rival nas primárias, já será comemorado em Wall Street.
Outro
nome forte, possivelmente como chefe de gabinete, o dono do acesso:
Steve Ricchetti, o assessor mais próximo de Biden, o tipo de lobista e
criatura do sistema que a ala progressista dos democratas quer bem longe
do governo.
Para
dar uma ideia da importância dele: em junho, a mulher de Biden, Jill
comandou um almoço a 500 dólares por cabeça em benefício da campanha do
marido. Quem quisesse bancar um briefing dado por Ricchetti, tinha que
desembolsar mais 5 000.
Biden
tem que marcar as diferenças em relação a Trump e é isso que vai fazer.
Entre o discurso e a prática, a distância pode ser enorme.
Volta
ao acordo climático de Paris é uma coisa. Mas vai tirar a embaixada
americana de Jerusalém? Sabotar a aproximação de Israel com países
árabes do Golfo? Voltar ao acordo nuclear com o Irã?
Seriam erros monumentais.
Voltando
à questão inicial: tem Biden uma boa bússola moral para navegar por
assuntos tão vitais, sem incorrer na tentação de desfazer o que foi
feito por Trump só por pirraça?
“A
verdade mais reveladora sobre Joe Biden é que ele é exatamente o que
parece”, diz Ronald Klain, seu ex-chefe de gabinete na época da
vice-presidência.
“É verdadeiramente avuncular. Conecta-se com as pessoas”.
As
tragédias pessoais de Biden são um canal para essa conexão,
especialmente com pessoas que sofreram grandes perdas familiares, diz
Klain, obviamente um fã do ex-chefe.
Talvez
até exageradamente, ele sempre faz referências ao trama de perder a
mulher e a filhinha num acidente de automóvel, em 1972. A morte do filho
Beau Biden, aos 46 anos, com câncer no cérebro, também sempre aparece
em seus discursos.
Joe
Biden é um político à moda antiga, do tipo que se lembra de nomes e
detalhes sobre todo mundo, estabelece intimidade imediata, gosta de
fazer um populismo básico e aperta quantas mãos aparecerem na sua
frente.
Até
um passado recente, também se mostrava excessivamente tátil com
mulheres interessantes a ponto de, em alguns casos, revelar um
perturbador hábito de cheirar cabeleiras femininas.
Isso
tudo sumiu do mapa quando o vírus coincidiu com a campanha ascendente e
ele passou meses trancafiado no porão de sua mansão, dando poucas
entrevistas a jornalistas amigáveis.
A
mais recente, talvez desesperada, tentativa da campanha de Trump é
detonar o adversário via os obviamente suspeitos negócios que seu filho
Hunter fez quando o pai era vice-presidente.
Fora inflamar os ânimos nos comícios de Trump, a coisa não está colando – independentemente de ser verdade ou armação.
A reação de Biden tem sido de se recusar a falar sobre a “calúnia”.
Faltam apenas quinze dias para a eleição e ele tem o vento a favor.
“As
pessoas talvez não saibam como ele se interessa pelos detalhes de
tudo”, elogia o entusiasmado Klain, hoje na confortável posição de
“bidenlogista” – amanhã talvez num futuro governo Biden.
“Ele se interessa por todos os fatos, mesmo os que não batem com suas ideias preconcebidas”.
“Sempre procura opiniões bem informadas sobre o que funciona e o que não funciona, e o que precisa ser mudado”.
É
claro que, para os adversários, é um político vazio de ideias, viciado
em lugares comuns, dado a rompantes, sem carisma, explorador das
tragédias familiares em benefício próprio, condescendente ou cúmplice
das negociatas do filho e com decadência cognitiva tão evidente que será
um mero fantoche na Casa Branca.
Muito
americanos acham que, com tudo isso, ainda é melhor do que Trump.
Outros continuam convencidos de que trará uma conduta elevada e
respeitosa para uma presidência onde tais qualidades desapareceram.
Aos
78 anos, Joe Biden vê a grande chance tão perto de ser alcançada,
culminando uma carreira que começou precocemente, tendo sido eleito
senador com apenas 29 anos.
Terá a energia, o dinamismo, a capacidade de liderança e também a ousadia que o cargo exige?
Ser apenas um bom sujeito não bastará.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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