Se depender do STF, que é hoje o mais agressivo partido de oposição no Brasil, Lula provavelmente será o candidato para combater Bolsonaro. J. R. Guzzo, em sua coluna de hoje no Estadão:
O ex-presidente Lula apareceu de novo no noticiário oferecendo-se ao público,
pelo que foi possível entender, para restaurar a democracia no Brasil,
colocar comida na mesa do povo, em vez de bala de revólver, e devolver
ao País a prosperidade, bem estar e ascensão social que, segundo ele,
existiam durante os 13 anos e meio dos governos do PT. Falou como quem
tem certeza de que vai ser candidato a presidente da República nas
próximas eleições. Lula deve saber o que está dizendo.
O
Supremo Tribunal Federal, que substituiu o PT e seus amigos como o mais
agressivo partido de oposição no Brasil, dá a impressão de estar
querendo, acima de qualquer outra coisa, que Jair Bolsonaro caia fora da
Presidência – já, se for possível, ou pelo menos em 2022, quando ele
vai tentar a reeleição.
Caso não deem certo a anulação das eleições de 2018, o processo por ter demitido um diretor da Polícia Federal,
a acusação de genocídio e outras propostas como essas, os ministros do
Supremo parecem achar que Lula é o meio mais eficaz para chegar lá. Ou,
vai ver, acham mesmo que a melhor coisa para o Brasil é voltar aos
tempos de Lula & Dilma.
De
um jeito ou de outro, Lula está se mostrando seguro que as suas duas
condenações por corrupção e lavagem de dinheiro, a primeira já
confirmada em três instâncias e por nove juízes diferentes, a segunda
confirmada em duas, vão ser anuladas e a sua ficha ficará limpa para
concorrer em 2022. É um fenômeno. Empreiteiros imensos, diretores de
estatais e outros titãs da ladroagem nacional, incluindo nada menos que
um ex-ministro de Estado, hoje em prisão domiciliar, confessaram crimes
de corrupção num volume sem precedentes na história nacional. Mais:
devolveram milhões em dinheiro roubado. Por acaso alguém devolve por
livre e espontânea vontade dinheiro que não roubou?
Toda
essa gente não praticou seus crimes no Polo Sul; durante mais de dez
anos seguidos operaram nos salões íntimos dos governos de Lula e Dilma.
Mas, pelo jeito com que o STF parece estar vendo as coisas, o culpado é o
juiz Sergio Moro. Ele foi “parcial”, dizem – então tem de zerar tudo,
mesmo o que não foi ele, Moro, quem decidiu, para salvar as nossas
“instituições”. Ou seja: roubaram como nunca no governo Lula, mas Lula
não tem culpa de nada. Será muita sorte, na verdade, se a coisa ficar
por aí. O STF ainda pode acabar dando ordens para que o contribuinte
pague alguma indenização milionária ao ex-presidente e sabe Deus a
quanta gente além dele. Por que não? Já não existe o “Bolsa-Ditadura”?
Então: é só criar o “Bolsa Moro”.
Uma
história, porém, é contar com o mais eficiente escritório de advocacia
criminal que existe hoje no Brasil – o STF. Outra, já bem mais
complicada, é ganhar uma eleição para presidente da República. Uma das
bandeiras que Lula mostrou nessa sua primeira salva de artilharia, por
exemplo, foi a tese de que Bolsonaro matou 130.000 pessoas na Covid.
Essas ideias são um perigo. Se ficar até 2022 repetindo isso, corre o
risco de reviver sua campanha presidencial de 1994, quando passou o ano
inteiro dizendo que o Plano Real era uma farsa e que a inflação estava
cada vez pior; perdeu já no primeiro turno, algo que nem Geraldo Alckmin
conseguiu.
Inventar
realidades que não existem rende barulho na mídia, mas não substitui o
essencial: Lula terá de explicar com clareza para os eleitores o que,
exatamente, ele vai fazer de diferente do que Bolsonaro está fazendo – e
convencer umas 70 milhões de pessoas de que essas mudanças, na prática,
vão melhorar a vida de cada um. Ninguém está pedindo a “volta da
democracia”, nem da “ascensão social”. Não é por aí.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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