Fico me perguntando: em que Universo usar uma conta do Estado no Twitter
para refutar piada de humorista sem graça pode gerar algo de
proveitoso? A crônica de Paulo Polzonoff Jr na Gazeta do Povo:
Numa das cenas mais interessantes da interessantíssima série The
Crown, a rainha Elizabeth II, ainda jovem, recebe um conselho da avó, a
rainha Mary. No episódio, Londres está envolta em uma pesada neblina que
culminaria na morte de 12 mil pessoas. A rainha Elizabeth quer fazer
alguma coisa, qualquer coisa, mas ouve da avó palavras que cairiam bem
no ouvido de muito governante: “Não fazer nada é o trabalho mais difícil
que existe. E exigirá de você cada gota de sua energia. Ser imparcial
não é natural, não é humano”.
Faz tempo que estou querendo usar essa cena de The Crown para falar
das trapalhadas verbais de nossos governantes, sobretudo, mas não
somente, Jair Bolsonaro. Mas daí sempre me deparo com a contradição que é
sugerir que não se faça nada fazendo algo, isto é, escrevendo um texto a
respeito. Contudo, porém, entretanto e todavia (não necessariamente
nessa ordem), ao me ver diante de mais uma bobagem da área de
comunicação do governo – a briguinha com o humorista Marcelo Adnet – me
vi hoje, em pleno domingo, impelido a fazer algo. Neste caso, pedir, sem
nenhuma esperança de ser ouvido (zero mesmo!), que nossos governantes,
de Jair Bolsonaro a vereadores que aprovam leis para proibir latido de
cão, de vez em quando não façam nem falem nada.
É difícil, eu sei. Ah, se sei! E, como diz a vovó real da série, é
algo que vai exigir de você uma energia monstruosa. Porque é próprio do
ser humano tomar partido. Nosso impulso natural, desde o tempo das
cavernas, é bater o pé e dizer “mim vai caçar mamute!” Na situação
conflagrada em que estamos, contudo, com as mentes e espíritos incapazes
de enxergar um palmo à frente em meio à neblina de ódio e rejeição
irracional que tomou conta do país, cada vez mais tenho a impressão de
que muita balbúrdia seria evitada com o silêncio e a inação.
Treta desnecessária
Veja o caso recentíssimo, recém-saído do forno, da Secretaria de
Comunicação e do secretário da cultura, Mário Frias, que durante o fim
de semana foram ao Twitter para tretar (como dizem os jovens) com o
humorista Marcelo Adnet. Em que Universo uma atitude como essa geraria
qualquer tipo de reação virtuosa?! Nenhum. Mesmo me considerando uma
pessoa com uma imaginação bastante prolífica, não consigo compor nenhuma
narrativa na qual criar um conflito entre um representante do Estado e
um artista menor (convenhamos que Adnet é, no máximo, um Tom Cavalcanti
aceito pela classe média psolista) seja proveitoso para a sociedade.
Como imaginar é, em parte, meu trabalho, imagino aqui o responsável
pelas mídias sociais do governo Jair Bolsonaro escrevendo aquela longa
sequência para refutar Adnet. Será que a cada palavra que escrevia o
burocrata acreditava que convenceria o humorista de que ele estava
errado em tirar sarro da propaganda oficial? Será que, à medida que os
tuítes foram se encadeando, não passou por sua cabeça o furor que isso
causaria nos meus colegas, todos tubarões-tigres sedentos pela
trapalhada-verbal-semanal que gerará polêmica, likes e mais certezas
para quem já vive cheio de certezas?
Partindo do pressuposto meio maoísta, meio aristotélico, de que tudo –
até o silêncio – é política, eu diria que, na atual conjuntura, o
silêncio e a inação são a política mais eficiente e mais sábia. Afinal,
não é preciso ser nenhum enxadrista 4D para constatar que artistas como
Adnet hoje em dia têm uma interferência mínima, se é que alguma, no
processo eleitoral. Suas palavras podem até causar riso em bobos-alegres
como eu, que riem de qualquer coisa, mas é extremamente improvável que
elas levem a uma reflexão capaz de mudar o voto do homem comum.
Por que, então, não se esforçar conscientemente para evitar um tuíte
que será lido sempre como uma declaração de guerra, como um atentado à
democracia, como uma prova incontestável de que vivemos sob o fascismo?
Por que não usar toda a energia disponível para se calar diante de uma
provocação da oposição? Por que não enfrentar a natureza humana e,
provando que somos um pouquinho mais evoluídos do que nossos
antepassados da caverna, deixar o mamute mamutando para as paredes?
E, só porque não gosto de terminar um texto com uma pergunta, vou
dizer: não creio que seja falta de inteligência. Ninguém me perguntou,
mas se me perguntassem eu diria que é incapacidade de conter esse
impulso de esfregar uma verdade muito particular na cara dos outros. Mas
é preciso se lembrar: o outro talvez não queira se deparar com a
verdade e está todo feliz lá nas trevas de suas convicções.
[Se você gostou deste texto, mas
gostou muito mesmo, considere divulgá-lo em suas redes sociais. Agora,
se você não gostou, se odiou com toda a força do seu ser, considere
também. Obrigado.]
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário