Aos poucos, o mundo vai se esquecendo daquela data. Mas a verdade é que
tudo mudou naquele dia 11 de setembro de 2001. A crônica de Paulo
Polzonoff Jr. para a Gazeta:
Não, leitor, pode ficar tranquilo que não vou tomar seu tempo para
perguntar onde você estava no dia 11 de setembro de 2001, quando
terroristas jogaram dois aviões cheios nas torres do World Trade Center,
em Nova York. Tampouco vou me demorar aqui narrando o que eu fazia
naquele dia – ainda que, para saciar sua curiosidade, eu diga que estava
diante do computador escrevendo alguma bobagem sobre literatura.
Hoje aquele dia inesquecível completa 19 aninhos. Tempo o bastante
para ter perdido a perenidade que juramos que estaria gravada na retina
para sempre. Tempo o bastante, também, para termos entendido que uma
Terceira Guerra Mundial não estourará assim tão fácil. E, pior, tempo o
bastante para nos esquecermos ou para sentirmos diluído o impacto que
aquela tragédia ainda tem sobre nossas vidas.
Todo mundo sabe que os atentados de 11 de Setembro mudaram as regras
de segurança nos aeroportos e em grandes eventos. Essa é a faceta mais
prosaica e incômoda do evento histórico. O atentado mudou também a forma
como passamos a ver os muçulmanos, que até então considerávamos um
“povo” envolvido em guerras e problemas geopolíticos distantes e sujos
de petróleo, em meio a dunas e camelos.
O efeito mais devastador, e por isso mesmo duradouro, da derrubada
das Torres Gêmeas foi a súbita quebra de confiança que ela provocou não
só nas grandes cidades. As relações humanas, de um dia para o outro,
mudaram para pior. Em Nova York mesmo, durante muito tempo as pessoas
andavam de metrô desconfiadas de que qualquer pessoa ali perto, munida
de uma simples mochila, podia ser um terrorista em potencial. Quando
morei lá, cinco anos depois dos atentados, tive de sair do metrô ao
menos cinco vezes porque alguém tinha esquecido uma mochila sob o banco.
O 11 de Setembro marca o dia em que começamos a ter um medo
irracional e inconsciente do nosso vizinho, dos nossos colegas de
trabalho, dos estranhos no transporte público e no restaurante. Ele
instaurou um estado permanente de semiparanoia que hoje, felizmente,
encontra vazão não em aviões transformados em mísseis, e sim nos
intermináveis (e de certa forma inócuos) embates virtuais.
Ao assistirmos àquela nuvem de poeira, a pessoas cobertas de fuligem
pelas ruas de Lower Manhattan, a pedaços de corpos, a ferros retorcidos
como se numa obra de arte macabra, nos tornamos menos tolerantes.
Afinal, a partir daquele instante nossa vida também passou a correr
risco. Num primeiro momento, esse medo tinha tudo a ver com o embate
religioso entre muçulmanos e a Civilização Judaico-Cristã. Com o tempo,
contudo, o inimigo perdeu essa identidade religiosa e passou a assumir
todas as identidades possíveis.
Ninguém imagina que um ativista gordotrans vá, um dia, sequestrar um
avião e jogá-lo contra um arranha-céu qualquer só para provar seu ponto.
Mais aí é que está a questão do medo/paranoia. Ninguém imaginava que um
aluno de aviação fosse um dia tomar um avião cheio de inocentes e
jogá-lo contra um dos cenários mais conhecidos do mundo. De uma hora
para a outra, todos se tornaram algozes e vítimas em potencial de uma
causa aleatória.
Assim, passamos a desconfiar de todos os que não compartilham de
nossas identidades. Da mesma forma que todo muçulmano começou a ser
visto como terrorista em potencial, hoje os negros consideram todo
branco um racista em potencial, as feministas dizem que os meninos são
estupradores em potencial e os comunistas têm os não-marxistas como
fascistas em potencial.
Hoje, no lugar das Torres Gêmeas há duas novas torres. E no belo
cemitério da simpática Trinity Church os mortos dormem, imperturbáveis,
seu sono eterno. A poeira daquele dia baixou, lavada por incontáveis
chuvas. E os filhos da, digamos, exuberância fértil que toma conta dos
jovens casais em acontecimentos do tipo já podem dirigir e, ao menos no
Brasil, beber uma cervejinha.
Resta, porém, o medo. Fomentado por quem tem interesse em fomentá-lo.
Até aqui, ele foi incapaz de estragos maiores ou tão espetaculosos,
embora toda vida perdida para o medo seja um miniatentado contra a
Humanidade, desses que a gente não grava na retina, porque senão a vida
seria insuportável.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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