BLOG ORLANDO TAMBOSI
Com o fim da Era Lula, a esquerda se radicaliza e perde espaço. Reportagem de Silvio Navarro e Artur Piva para a revista Oeste deste final de semana:
Eram 15 horas do último dia 7 de setembro quando o ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva decidiu quebrar seu silencioso inverno para fazer
um pronunciamento à militância do Partido dos Trabalhadores e aos
apoiadores que historicamente surfaram em sua trajetória política. Num
vídeo gravado como típica peça de campanha eleitoral, o petista tentou
resgatar a imagem de líder de massas, mas que a cada dia mais parece ter
encerrado sua biografia na cela gourmet de Curitiba (PR).
Foram 23 minutos de ataques à gestão de Jair Bolsonaro — sem esconder
o ressentimento com o antecessor, Michel Temer, ao falar em “governos
que emergiram do golpe” —, mesclados com citações que hoje não ecoam
mais nas fileiras de seu partido, porém, quiçá, nas falas rocambolescas
de Ciro Gomes (PDT) ou na fúria juvenil de Guilherme Boulos (Psol).
Frases como “abrir mão da soberania nacional”, “submissão aos interesses
de Washington” e “uma escalada autoritária que faz lembrar os tempos
sombrios da ditadura”. Sem números concretos nem propostas alternativas.
Uma tradução possível do discurso é a de que há uma percepção tardia
do ex-presidente segundo a qual sua imagem não tem mais a mesma
capilaridade desde a desastrosa passagem de Dilma Rousseff pelo Palácio
do Planalto. Uma ilusão que ele mesmo alimentou e degenerou-se no pior
pesadelo. O eleitorado petista minguou nas eleições municipais de 2016 e
não se recuperou nas urnas no pleito seguinte, nem depois.
Estrela cadente
Há quatro anos, o PT amargou sua pior derrota em capitais desde 1985,
quando emplacou pela primeira vez Maria Luiza Fontenele em Fortaleza
(CE). Saiu das urnas com 254 prefeitos, ante 637 no pleito anterior — em
números finais, o pior desempenho desde 2004, quando 410 faturaram.
Nesses mesmos anos, o MDB se manteve com o maior número de prefeitos
eleitos, sempre acima de mil.
Algumas derrotas, aliás, custaram a curar, como a de Fernando Haddad
no maior colégio eleitoral do país, assim como a perda da hegemonia em
todo o chamado cinturão vermelho metropolitano — além da capital São
Paulo, foram reveses em São Bernardo do Campo, Santo André, Mauá,
Guarulhos, Carapicuíba, Embu das Artes e Osasco. Em suma, das nove
máquinas municipais administradas nesse círculo pela sigla, restou só
Franco da Rocha — uma cidade de pouco mais de 135 mil eleitores.
O lulismo também não triunfou no Nordeste naquele ano: perdeu uma das
joias da sigla, a capital Recife (PE), um terreno pavimentado pelo PSB
do ex-governador Eduardo Campos, morto em acidente aéreo em 2014, que
ampliaria a fragmentação da esquerda na região. O saldo nas capitais
restringiu-se à pequena Rio Branco (AC), no norte do país — na primeira
eleição municipal com o PT na Presidência da República, foram nove
(quatro na Região Norte, três no Nordeste e duas no Sudeste).
Em Brasília, o cenário não foi diferente. Na Câmara dos Deputados,
hoje, a bancada é de 53 cadeiras — e pouquíssimos rostos com alguma
expressão nacional. Quatro anos antes, eram 68, mas já foram 91 na onda
lulista de 2002, que ficou marcada por líderes que davam as cartas até
acabarem encarcerados como José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha.
No Senado, hoje são apenas seis parlamentares, alguns com codinome na
lista de propinas da Operação Lava Jato, vide o ex-governador da Bahia
Jaques Wagner e o pernambucano Humberto Costa. Tudo muito distante da
realidade que o país viveu na década passada no tapete azul de Ideli
Salvatti (SC) e Aloizio Mercadante (SP).
A precarização dos quadros é uma realidade dura para o lulismo. Em
São Paulo, o candidato da legenda à prefeitura, Jilmar Tatto, não só se
frustrou sem o apoio do ex-presidente, que vê nele resquícios do
“martismo” (Tatto foi afilhado político de Marta Suplicy, com quem Lula
rompeu quando ela deixou a legenda), como nem sequer consegue uma
aliança sólida para vice. Segundo analistas, a tendência é que Lula
prossiga num apoio velado a Guilherme Boulos.
O cenário é idêntico em outras praças importantes onde o PT perdeu
protagonismo para seus então satélites. No Rio de Janeiro, o Psol de
Marcelo Freixo há anos supera o PT de Benedita da Silva — ou de Lindberg
Farias na Baixada Fluminense. Em Porto Alegre, Manuela D’Ávila, do
PCdoB, deve ser o nome da esquerda nas urnas.
“Lula é maior do que o PT, e o que ainda existe é justamente seu
ativo nas classes de baixa renda. Haddad, por exemplo, era inexistente
em 2018. Esse eleitorado não era do PT, mas valorizava os programas
sociais que o Lula proporcionou. Porém, Bolsonaro está avançando nessa
faixa da população. Há uma mutação no perfil de aprovação desse
eleitorado, um movimento claro de quem votou no Lula e agora está
considerando Bolsonaro”, afirma Mauricio Moura, CEO da consultoria Ideia
Big Data, especializada em opinião pública, e pesquisador na
Universidade George Washington.
“Se o novo programa de transferência de renda do Bolsonaro for
eficaz, a aprovação dele vai subir ainda mais”, completa Moura. Não à
toa, como mostrou a Revista Oeste em edição anterior, vários candidatos
tentam colar sua imagem à do presidente.
A consultoria Bites, especializada em análise de dados, aferiu a
performance de Lula em todas as redes sociais no Sete de Setembro. Nas
24 horas seguintes à postagem do vídeo, o petista publicou 34 mensagens e
ganhou só 3 mil novos seguidores — tem 7,8 milhões no total.
Mas é no número de interações (curtidas, compartilhamentos,
comentários e retuítes) — ou seja, com quem Lula deveria conseguir
engajamento — que o retrato da perda de relevância fica evidente. O
petista obteve 386 mil interações, com 34 mil compartilhamentos. Numa
breve comparação com Jair Bolsonaro, que também foi às redes no Dia da
Independência, foram 3,1 milhões, com 180 mil compartilhamentos.
De acordo com a análise, as buscas no Google pelo presidente foram
duas vezes superiores às buscas por Lula, mesmo em antigos redutos
eleitorais petistas, como o Nordeste.
“O lulismo foi um fenômeno analógico que não está acontecendo no
digital. O discurso que considerou ser histórico ficou preso numa bolha,
não houve fluxo de opinião. Esse espaço da esquerda no meio digital,
aliás, está desocupado”, avalia Manoel Fernandes, diretor-geral da
Bites.
Desde então, Lula tem intensificado sua presença nas redes sociais,
especialmente no Twitter, plataforma favorita do rival Bolsonaro. Nas
publicações, contudo, ele parece ainda estar à procura de um norte:
comemorou a saída do procurador Deltan Dallagnol da força-tarefa da Lava
Jato, criticou a operação da PF em que seu advogado Cristiano Zanin foi
alvo de mandado de busca e apreensão e a alta no preço do arroz e falou
sobre a condenação do ex-colega mandatário do Equador Rafael Correa.
Mas quase nada parece dar resultado.
Nos últimos doze meses, as pesquisas com o nome Luiz Inácio Lula da
Silva no Google, dentro do Brasil, foram, em média, aproximadamente
quatro vezes menores do que aquelas envolvendo Bolsonaro. A curiosidade
do público pelo petista foi maior apenas na semana em que ele foi solto,
em novembro de 2019.
O psolismo, que deve herdar parte dos ex-lulistas — ao menos os mais
jovens —, tende a radicalizar o discurso anticapitalismo e reacender
temas moribundos ancorados na luta de classes. Isso empobrece o debate
público e não contribui para a discussão de medidas efetivas para a
construção de um Estado moderno. Mas, talvez, assegure aos partidos de
esquerda, ex-satélites do PT, a conquista de pequenos nacos do espaço
legislativo e, assim, acesso às verbas dos fundos partidário e eleitoral
— o que, ao fim e ao cabo, parece ser o real propósito de sua atividade
política.
Ainda sobre seu mais longo discurso desde os 580 dias de carceragem,
Lula até arriscou apresentar-se como o candidato que não será em 2022,
mas disse que o isolamento na pandemia o fez mergulhar em uma reflexão
sobre “o papel que ainda pode lhe caber” na História. É possível que até
o final do confinamento ele conclua que o lulismo chegou mesmo ao fim.







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