O PCC é uma
multinacional do narcotráfico que disputa a liderança na área, custe o
que custar, decapitações inclusive. É conveniente mirar-se no exemplo
dos cartéis mexicanos, que já alcançaram o plano político. Adverte o
editor Carlos Andreazza: "sem
que o governo brasileiro — não importa se com FHC, Lula, Dilma ou Temer
— compreenda (ou queira compreender) o que ocorre, o PCC logo chegará
lá:
É espantoso ler e
ouvir, de autoridades e especialistas, que o projeto de
internacionalização do narcotráfico brasileiro, mormente do
multinacional PCC, pode transformar o Brasil numa Colômbia. Não, não
pode. É simples: aquele é um país produtor de droga. Não é o caso do
Brasil. Não há, porém, o que festejar; razão pela qual sugiro ao governo
federal que estude a história dos cartéis mexicanos. Está no México o
modelo de expansão do Primeiro Comando da Capital.
Já escrevi, mas
repito: ninguém foi decapitado — no Amazonas, em Roraima ou no Rio
Grande do Norte — porque os presídios estivessem superlotados. Poderiam
estar vazios — e seria igual. Matou-se por motivo econômico; porque há
um negócio em disputa, business que depende do controle territorial
também de presídios.
É o ambicioso projeto de crescimento do PCC o elemento detonador da crise de segurança nacional brasileira ora em curso.
Por cerca de dez
anos, até 2016, a geopolítica do narcotráfico no Brasil esteve
anestesiada em decorrência do acordo firmado entre o grupo criminoso
paulista e o carioca Comando Vermelho. O PCC dominava, soberano, a
chamada rota caipira, aquela por meio da qual, principalmente desde o
Paraguai, a droga produzida (sobretudo) na Bolívia abastecia os mercados
do centro-sul brasileiro — conforme esmiúça o jornalista Allan de Abreu
em seu livro “Cocaína”, ainda a ser lançado.
Ao CV, alimentado
especialmente com droga colombiana graças à sua antiga aliança com as
Farc, ficava reservado o Rio de Janeiro, o Espírito Santo e alguns
estados do Nordeste. E aos dois grupos maiores, de alcance nacional,
cabia lidar com bandos locais, fosse para estabelecer parcerias ou
tirá-los do caminho. O tráfico na Região Norte, abastecido
preferencialmente pela rota estratégica do Solimões, tanto com droga
colombiana quanto boliviana, era gerido por pequenas facções regionais,
como a Família do Norte.
Neste ínterim, já
tendo implantado no Paraguai sua infraestrutura de penetração e
distribuição de droga no Brasil, o PCC daria o passo decisivo em seu
movimento de verticalização: a entrada na Bolívia, com o que aboliu os
intermediários e passou a comprar diretamente dos pequenos fabricantes.
Não demoraria, pois, a que projetasse o salto, nos mesmos moldes, para a
Colômbia, em busca não apenas de produto de melhor qualidade, mas, com
aval das Farc, da rédea da gestão do acesso da droga colombiana em
território brasileiro; um duro golpe no CV, que teve reduzido um campo
de atuação historicamente seu.
Neste conjunto de
ações rumo ao norte do continente, o PCC pretendia também conquistar o
Solimões, o que, num só lance: garantiria uma alternativa à rota
paraguaia; facilitaria o escoamento da droga colombiana; e abriria os
caminhos para que disputasse o mercado amazônico.
É onde estamos. Como
já muito falado, a explosão do Compaj, em Manaus, comandada pela FDN,
aliada recente do CV, foi uma reação à progressiva presença do PCC no
Norte do Brasil e, mais amplamente, a seu plano de dominação do
narcotráfico no país.
Os cartéis mexicanos,
anos antes, haviam cumprido a mesma estratégia. Acertaram-se com as
Farc — explorariam, para além do seu próprio, somente o mercado
americano — e se estabeleceram na Colômbia, desde onde, com fornecedores
exclusivos, aprimoraram sua logística de transporte de drogas.
Ainda é incerto o que
acontecerá na Colômbia em decorrência do acordo de paz farsante entre
governo e os terroristas das Farc, cuja ação criminosa continuará
intacta, mais ou menos disfarçada em núcleos dissidentes. Ainda é
incerto, portanto, de que maneira os cartéis mexicanos e o PCC lidarão
com este cenário, se se recompondo com a nova conformação das Farc ou se
lhes tentando tomar as atividades — neste caso ao investir num
improvável vácuo de poder consequente do novo arranjo.
Aposto na primeira
opção, mais vantajosa empresarialmente — aquela em que melhor se
ajustaria a futura convivência entre cartéis mexicanos e PCC, não
concorrentes, com modelo de negócios semelhante e ótimas condições para
se tornarem sócios. Se já não o forem. A Polícia Federal detém
informações de que talvez o sejam.
Como os mexicanos em
relação aos EUA, o PCC se tornou também exportador, dono do entreposto
que infiltra droga, a partir do Brasil, na Europa. Deflagrada pela PF em
2014, a Operação Oversea, ao investir contra o tráfico no Porto de
Santos, rastreou um carregamento de cocaína colombiana despachado pelo
PCC — estranha e sintomaticamente — para o México.
O que ainda
diferencia cartéis mexicanos e PCC é que aqueles têm sólida presença
política, com representantes em todos os Poderes, e impõem a barbárie
não apenas contra Estado e adversários — mas diretamente contra civis,
inclusive jornalistas.
Sem que o governo
brasileiro — não importa se com FHC, Lula, Dilma ou Temer — compreenda
(ou queira compreender) o que ocorre, o PCC logo chegará lá. (O Globo).
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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