Augusto Nunes (Veja.com)
revela a verdadeira razão pela qual o Palácio do Planalto ficou sete
anos sem câmeras de vigilância. O motivo do sumiço, diz ele, tem nome:
Lina Vieira. De fato, é muita bandalheira para pouco espaço - e muita
pauta para pouco repórter:
As
incontáveis abjeções produzidas pela usina fora-da-lei que funcionou no
Planalto por mais de 13 anos não cabem no noticiário jornalístico,
tampouco na memória dos brasileiros. O escândalo da vez não fica na
vitrine mais que algumas horas. É muita bandalheira para pouco espaço. É
muita pauta para pouco repórter. É delinquência demais para um país só.
É tanta obscenidade que, nesta segunda década do século 20, o que houve
na primeira parece anterior ao Segundo Testamento. Isso ajuda a
explicar a curta escala nas manchetes feitas pelo sumiço das câmeras de
vigilância do Planalto, assombro divulgado em entrevista a VEJA pelo
general Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional
da Presidência da República.
A
remoção dos aparelhos ocorreu no segundo semestre de 2009, informou
Etchegoyen. Se tivesse consultado os jornais da época, teria descoberto
que o motivo da remoção dos aparelhos teve (e tem) nome e sobrenome:
Lina Vieira, secretária da Receita Federal afastada do cargo em agosto
daquele ano. Entre a história protagonizada por ela e a entrevista do
chefe do GSI passaram-se apenas sete anos ─ e no entanto o resgate do
caso parece coisa de arqueologista. Aos fatos. Em 9 de agosto de 2009,
numa entrevista à Folha, Lina Vieira fez revelações que escancaram a
causa da sua substituição. Fora demitida por honestidade.
Estava
marcada para morrer desde o fim de 2008, quando fez de conta que não
entendeu a ordem transmitida por Dilma Rousseff, então chefe da Casa
Civil, numa reunião clandestina ocorrida no Planalto: “agilizar”a
auditoria em curso nas empresas da família do ex-presidente José Sarney.
Em linguagem de gente, deveria encerrar o quanto antes as
investigações, engavetar a encrenca e deixar em paz os poderosos
pilantras. Dilma poderia alegar que não dissera o que disse. Como serial
killers da verdade primeiro mentem para só depois pensarem em álibis
menos mambembes, resolveu afirmar que a conversa nunca existiu.
Lina
pulverizou a opção pelo cinismo com uma saraivada de minúcias
contundentes. Contou que o convite para a reunião foi feito pessoalmente
por Erenice Guerra, braço-direito, melhor amiga de Dilma e gatuna ainda
sem ficha policial. Como confirmou Iraneth Weiler, chefe de gabinete da
secretária da Receita, Erenice apareceu por lá para combinar a data e o
horário da reunião. Também queria deixar claro que, por ser sigiloso, o
encontro não deveria constar das agendas oficiais. ” Em depoimento no
Senado, descreveu a cena do crime, detalhou o figurino usado pela
protetora da Famiglia Sarney e reproduziu o diálogo constrangedor.
“Foi uma
conversa muito rápida, não durou dez minutos”, resumiu. “Falamos sobre
algumas amenidades e, então, Dilma me perguntou se eu podia agilizar a
fiscalização do filho de Sarney”. No fecho do depoimento, repetiu a
frase com que o abrira: “A mentira não faz parte da minha biografia”. As
informações que fornecera permitiriam a qualquer investigador de
chanchada esclarecer a delinquência em poucas horas. Mas Franklin
Martins, ministro da Propaganda de Lula, achou pouco. “O ônus da prova
cabe ao acusador”, declamou. “Cadê as provas?”.
Estão no
Palácio do Planalto, reiterou Lina. Como dissera durante a inquisição
dos senadores, ela chegou sozinha para o encontro noturno, teve a placa
do carro anotada ao entrar pela garagem, passou pelo detector de metais,
deixou o nome na portaria, subiu pelo elevador, esperou na sala ao lado
de duas pessoas e caminhou pelo andar. “É só requisitar as filmagens”,
sugeriu. “Não sou invisível. Não sou fantasma”. Logo se soube que, no
sistema de segurança instalado no coração do poder, todo mundo virava
fantasma um mês depois de capturada por alguma câmera. Numa espantosa
nota oficial, o bando fantasiado de governo confessou que as imagens
eram guardadas por 31 dias.
Haviam
sido destruídas, portanto, as cenas do entra-e-sai de outubro e novembro
de 2008, entre as quais as que registraram as andanças de Lina Vieira. E
os registros na garagem? Esses nunca existiram. Como o serviço de
segurança à brasileira acredita na palavra dos visitantes, tanto as
placas dos carros oficiais quanto a identidade de quem zanza por ali não
são registradas em papéis ou computadores. O porteiro limita-se a
perguntar ao motorista se há uma autoridade a bordo. Assim, o governo
não tinha como atender às interpelações de parlamentares oposicionistas.
Conversa
de 171. Acobertados pela mentira, os sherloques a serviço da bandidagem
destruíram as gravações. A ex-presidente fantasiada de mulher honrada
enquadrou-se, sempre em parceria com Lula, nos crimes de ocultação de
provas e obstrução da Justiça. As câmeras foram transferidas para lugar
incerto e não sabido. Nunca mais voltaram. Nos sete anos seguintes, os
bandidos agiram sem vigilância.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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